Senado aprova PL da Devastação com mais ataques ao licenciamento

Foto: Agência Brasil | José Cruz

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

22 Mai 2025

Projeto foi aprovado com emenda de Davi Alcolumbre que cria avaliação política e facilita licença para explorar petróleo na foz do Amazonas.

A informação é publicada por ClimaInfo, 21-05-2025.

O Congresso brasileiro é a maior prova de que não há nada tão ruim que não possa ser piorado. O Senado aprovou ontem (21/5) por 54 votos a 13 o PL da Devastação (2.159/2021), que flexibiliza o licenciamento ambiental. Para piorar, uma emenda do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-SP), acatada pela relatora do projeto no plenário, senadora Tereza Cristina (PP-MS) – ex-ministra da Agricultura do governo Bolsonaro e representante da bancada ruralista –, conseguiu agravar ainda mais um texto que já saiu das comissões de Meio Ambiente e de Agricultura com alto poder devastador.

A emenda de Alcolumbre propôs um novo tipo de licenciamento, a “Licença Ambiental Especial” (LAE). Como explicou a Folha, a medida permite ao governo federal acelerar o andamento de empreendimentos como a exploração de petróleo na foz do Amazonas, independentemente do risco ambiental. De modo geral, é uma “bomba atômica” sobre os processos de licenciamento, que passarão a ser movidos por fatores políticos.

O Globo assinalou que o texto aprovado estabelece a possibilidade de liberar empreendimentos mesmo que eles possam causar “significativa degradação do meio ambiente”, desde que seja de atividade considerada “estratégica”. Caberá a um conselho político estabelecer o que é “estratégico”, e esse passará a ser um critério para estabelecer a prioridade para análise do licenciamento.

Com a decisão do “Conselhão”, os projetos “estratégicos” passam por um processo muito mais simples do que o comum, com uma única etapa de análise pelo órgão licenciador. Independentemente do seu potencial de dano ao meio ambiente e do uso de recursos naturais.

Em entrevista à Agência Pública, a coordenadora do Políticas Públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama, Suely Araújo, ressaltou que o projeto é o maior retrocesso na área ambiental em 40 anos. E o cenário ficou ainda pior com a emenda de Alcolumbre.

“É para liberar geral todos os empreendimentos que forem considerados politicamente relevantes”, frisou Suely. “A proposta do senador Alcolumbre cria uma modalidade de licença que não existe e que vai ser movida por pressão política. É uma bomba atômica”, completou.

Já o diretor-adjunto do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), Marcos Woortmann, destacou que “estratégico” é um conceito que abrange absolutamente qualquer coisa.

“Essa emenda retira critérios de prioridade, de impacto, localização e até de procedimento, porque, em vez de seguir um processo padronizado, vai seguir termo de referência elaborado pela autoridade licenciadora, conforme interesses políticos. Um processo pode ficar anos sem ter a sua análise feita só porque entraram projetos ‘estratégicos’ na frente. Isso terá um custo para quem quiser sua licença, em vez de seguir uma fila administrativa, transparente e pública”, disse.

Woortmann ainda lembrou que o PL pode acelerar o ponto de não retorno da Floresta Amazônica, relatou O Globo. O texto determina que melhorias em projetos já existentes não precisarão mais de licenciamento que considerem danos ambientais indiretos. Enquadra-se nesse critério a pavimentação da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, que poderia ser feita sem análise prévia de impacto, apesar de seu potencial de ameaça à floresta.

Em nota, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) disse que o PL é uma “desestruturação significativa” do licenciamento e causa “risco à segurança ambiental e social no país”. Além disso, o MMA destaca que o texto “afronta diretamente a Constituição Federal, que no artigo 225 garante aos cidadãos brasileiros o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, com exigência de estudo prévio de impacto ambiental para instalação de qualquer obra ou atividade que possa causar prejuízos ambientais”.

O MMA frisou que o texto viola o princípio da proibição do retrocesso ambiental, pelo qual o Estado não pode adotar medidas que enfraqueçam direitos, e contraria decisões do STF sobre a inconstitucionalidade da Licença por Adesão e Compromisso (LAC) para atividades de médio impacto.

Para a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, o PL da Devastação ameaça tanto os compromissos climáticos do Brasil quanto acordos comerciais em negociação, como o entre o Mercosul e a União Europeia.

“[O projeto] vai ter um impacto muito pesado nas negociações do Mercosul-União Europeia, porque toda a credibilidade que conquistamos vem de sinalizações do ponto de vista legal e de esforços para controlar o desmatamento e tornar nossos processos produtivos não prejudiciais às florestas”, disse Marina, citada por CNN Brasil e O Globo.

Como o Senado alterou a versão aprovada pelos deputados federais, o PL da Devastação agora volta para a Câmara – onde a bancada ruralista já anunciou ter pressa para votá-lo ainda neste semestre.

A aprovação do PL da Devastação no Senado foi amplamente repercutida, com matérias no ((o))eco, UOL, CNN, g1, Carta Capital, GZH, Poder 360, Metrópoles, O Globo, Exame e Folha, entre outros veículos.

Leia mais