Ubuntu, uma ética da vida. Artigo de Dorella Cianci

Continente africano no globo | Foto: iea.org

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09 Agosto 2024

"Ramose é um dos principais filósofos da África do Sul, mais conhecido por sua elaboração da filosofia ubuntu. Qual é a peculiaridade desse pensamento? Em primeiro lugar, é preciso dizer que o termo 'ubuntu' é um conceito-chave na estrutura ético-filosófica africana, pois indica a beleza de viver 'com', de estar entre os outros, da humanidade que adquire sentido no conceito de solidariedade e proximidade concreta", escreve Dorella Cianci, jornalista italiana, em artigo publicado por Avvenire, 07-08-2024.

Eis o artigo.

Umuntu ngumuntu ngabantu: três palavras que encerram o sentido da vida e que poderíamos traduzir assim: "Ser pessoa significa afirmar a própria humanidade por meio da humanidade dos outros" na consequente e infinita variedade de conteúdo e forma. Essa tradução (certamente imperfeita) de uma parte da filosofia africana atesta, preliminarmente, o respeito à particularidade, à individualidade e à historicidade, sem as quais a descolonização desse conhecimento nunca poderá ocorrer plenamente. Portanto, finalmente chegou o momento de nos colocarmos à escuta desse continente, ao qual pensamos, vezes demais, ao longo da história, ensinar, quando deveríamos ter nos limitado a compreender e aprender.

Um dos momentos mais marcantes de ontem do Congresso Mundial de Filosofia sobre o tema da Justiça, Ética e Diálogo Intercultural ocorreu durante a sessão com Mogobe Ramose, professor do Departamento de Direito da Universidade de Pretória, entre outros convidados. Ramose é um dos principais filósofos da África do Sul, mais conhecido por sua elaboração da filosofia ubuntu. Qual é a peculiaridade desse pensamento? Em primeiro lugar, é preciso dizer que o termo "ubuntu" é um conceito-chave na estrutura ético-filosófica africana, pois indica a beleza de viver "com", de estar entre os outros, da humanidade que adquire sentido no conceito de solidariedade e proximidade concreta.

O ensinamento de Ramose é ainda mais relevante na sociedade contemporânea, que, com esforço e não sem hipocrisia, tenta alcançar maior justiça social por meio da atenção aos povos e aos ambientes mais frágeis, em primeiro lugar justamente as diversas zonas africanas. Para isso, no entanto, é necessário conhecer e colocar o pensamento crítico de volta no centro para combater as aparências da linguagem política global.

Ramose, um apaixonado por seu povo e por suas tradições, mostra, no entanto, também em seus muitos escritos filosóficos, um compromisso inabalável com as grandes questões de justiça social, da política e da ética, em uma tentativa de levantar aqueles grandes véus preconceituosos que obscurecem as verdades.

Grande parte de sua obra parece ter sido influenciada pelo pensamento político do sul-africano Robert Sobukwe, fundador do Congresso Pan-Africanista. Ramose contribuiu e continua a contribuir de forma brilhante para o pensamento e o ativismo pan-africanista: ao longo dos anos, ele se tornou um dos filósofos mais citados na África do Sul e um dos filósofos mais conhecidos do continente africano pela comunidade científica internacional, bem como pelo debate público nas mídias de todo o mundo. Suas palavras nos levam, antes de tudo, de volta à história e à época da luta contra a opressão racial na África do Sul.

Em sua apresentação, Ramose traçou com leveza a história das ideias de um continente que ainda luta para ser visto em sua essência, longe de comparações e de chaves interpretativas etnocêntricas e impregnadas de ocidentalismo; ele mencionou intelectuais de organizações como o Congresso Nacional Africano e o Congresso Pan-Africanista, chegando ao Movimento da Consciência Negra, formado por grupos intelectuais e políticos que desenvolveram respostas conceituais (até mesmo discordantes) para as grandes questões da justiça social.

Não é fácil condensar todo o substrato cultural que se encontra nos escritos de Ramose, mas, sem cair em simplificações excessivas, é necessário insistir na centralidade da força vital dentro da filosofia africana, muitas vezes chamada de "ética da vida". Esse conceito nos leva de volta a uma sobreposição entre o estilo de vida associado ao pensamento ubuntu e uma avaliação "descolonizada" daquele encontro fisiológico, que ocorre, no pensamento africano, entre religião e filosofia. Como disse Ramose, a escala comum que permite um pensamento autenticamente pan-africano só emerge por meio do diálogo inter-religioso e intercultural e da exposição mútua (e conjunta) de conceitos religiosos ligados a pontos cruciais filosóficos. O pensamento ubuntu, nesse sentido, é o pensamento da compaixão, aquele que nos convida a encontrar a diferença a fim de enriquecer a chamada "ética da vida", baseada tanto na filosofia quanto nas diferentes religiões. A filosofia, nesse sentido, para uma parte do continente africano, vai ao cerne do respeito pelas particularidades das crenças e das práticas dos outros. O respeito pela singularidade do outro está intimamente ligado ao respeito pela individualidade. Entretanto, a individualidade mencionada na filosofia ubuntu não é de matriz cartesiana. Pelo contrário, contradiz diretamente a concepção cartesiana de individualidade, segundo a qual o indivíduo pode ser concebido sem necessariamente pensar no outro.

O indivíduo cartesiano existe primeiro, ou separada e independentemente do resto da comunidade ou da sociedade. Ao contrário, a concepção ubuntu define o indivíduo em termos de relação com os outros: a palavra "indivíduo" significa uma pluralidade de personalidades que correspondem à multiplicidade de relações em que o indivíduo em questão se encontra. Ser um indivíduo significa "ser-com-os-outros", muito além do individualismo ocidental. O caso da filosofia ubuntu é uma lição de como estar no mundo e com os outros em harmonia, excluindo a lógica competitiva do conflito.

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