10 Mai 2023
"O cuidado, de um conceito abusado e utilizado de forma vaga, torna-se assim algo muito concreto que nos indica o caminho para o futuro: um imperativo ético e uma responsabilidade política, tanto da coletividade como das instituições", escreve Laura Fano, publicado por Femministerie e reproduzido por Settimana News, 08-05-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.
Nunca como neste período de pandemia ouvimos falar de cuidado, um conceito explicitado de todas as formas possíveis e muitas vezes abusado. O livro Manifesto della cura: per una politica dell’interdipendenza (Manifesto do cuidado: por uma política da interdependência, escrito pelo coletivo britânico The Care Collective, e publicado na Itália pela Allegre), tem o mérito de trazê-lo de volta ao seu significado mais amplo, radical e político possível.
Manifesto della cura: per una politica dell’interdipendenza
Desse texto emerge uma ideia de cuidado como uma visão diferente do mundo em relação às nossas sociedades devastadas pelo neoliberalismo, uma ética da responsabilidade e da partilha que, nas palavras de Naomi Klein, representa "a prática e o conceito mais radicais que hoje temos à disposição".
O neoliberalismo transformou o cuidado em uma prática individualizada e mercantilizada, reservada apenas para quem tem meios de acessar e cuidar de si. Muitos serviços sociais e de saúde também foram privatizados e disponibilizados apenas para o segmento da população que pode pagar. Embora a análise do coletivo parta do contexto do Reino Unido e dos Estados Unidos, onde essa privatização e terceirização de serviços básicos é certamente mais avançada do que na Itália, o neoliberalismo contribuiu em todos os lugares para criar uma sociedade atomizada e individualista, onde todos devem “cuidar” de si mesmos.
Se nesse tipo de sociedade a pobreza é um defeito, da mesma forma a necessidade de cuidado é vista como uma fragilidade. Paradoxalmente, quem mais a utiliza, os ricos, não se devem envergonhar porque podem pagar, delegando cada vez mais tarefas a cuidadoras, babás, jardineiros e trabalhadoras domésticas, principalmente migrantes, contribuindo para criar uma sociedade que não é apenas desigual, mas também baseada na exploração do trabalho de pessoas estrangeiras e não brancas. Para todos os outros, porém, reina a falta de cuidado, nesse “sistema de solidão organizada”.
Segundo o coletivo, “a pandemia expôs a incrível violência do mercado neoliberal, a forma como nos privou da capacidade de prestar e receber cuidado”. Mas a pandemia também tornou evidente como é impossível para a humanidade funcionar como seres atomizados, mostrou claramente como nossa interdependência não é apenas necessária, mas também um valor sobre o qual construir novas práticas de democracia.
Já anos atrás, Naomi Klein, citada várias vezes no livro e presente na capa com uma de suas frases de apreciação, nos alertava em seu This Changes Everything, que a emergência climática e ambiental estava colocando no centro a importância do cuidado, tanto das pessoas como do planeta. Diante de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, a autora afirmava que o cuidado e os trabalhos ligados a ele se tornariam cada vez mais fundamentais e sugeria que os investimentos do Estado fossem direcionados para setores como saúde, educação e serviços sociais.
Se a ética do cuidado no cerne do Manifesto é uma ética ambiental, ainda mais é uma ética feminista. Na verdade, parte da distinção feita pela estudiosa feminista Joan Tronto do "cuidar de" (caring for), "interessar-se por" (caring about) e "cuidar com" (caring with). Se a autonomia e a independência, tão exaltadas pelo neoliberalismo, ganharam valor por serem consideradas vinculadas à esfera masculina, o cuidado sempre foi considerado uma prerrogativa das mulheres e uma capacidade inata do mundo feminino.
Essa relegação do trabalho de cuidado dentro dos muros domésticos contribuiu, como nos ensina a economia feminista, para desvalorizá-lo. Além disso, o fato de o cuidado gerar emoções ambivalentes, entre as quais o desgosto, fez com que as mulheres ou sujeitos feminizados tivessem que lidar com ele. Para resgatar o valor do cuidado é necessário, portanto, que o trabalho reprodutivo, em seu sentido mais amplo, seja levado para fora de casa e socializado, por meio de comunidades de cuidado que ultrapassem e substituam a família nuclear, tão funcional ao capitalismo.
O livro ilustra muitas experiências de comunidades de cuidado, de espaços e recursos comuns, aqueles ‘commons’ já objetos de estudo de Silvia Federici e descritos por ela não como bens, mas como processos nos quais novas relações sociais anticapitalistas são construídas. Nessas experiências, a ética do cuidado já é uma realidade. No entanto, essas práticas de baixo não devem nos enganar.
Embora muito importantes, elas não podem e não devem substituir as funções e responsabilidades dos Estados, no máximo indicar-lhes o caminho. A democracia do cuidado deve constituir um novo paradigma estatal e transnacional que integre o estado de bem-estar, alargando os beneficiários dos serviços estatais a qualquer pessoa, superando assim o conceito de cidadania e o de fronteira. De fato, o coletivo introduz o conceito de “cuidado promíscuo” – um cuidado que diz respeito a todos e a todas– e “indiscriminado” – ou seja, aquele que não discrimina.
O cuidado, de um conceito abusado e utilizado de forma vaga, torna-se assim algo muito concreto que nos indica o caminho para o futuro: um imperativo ético e uma responsabilidade política, tanto da coletividade como das instituições.