Gerar e cuidar: os humanos com os animais e como animais. Artigo de Andrea Grillo

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08 Janeiro 2022

 

O animal, com a sua voz e com as suas patas, não tem outra tarefa senão existir. Ele não tem nada a buscar. Já encontrou desde o início tudo o que lhe basta. Os humanos, em vez disso, nascem pobres e ao longo do caminho encontram tudo o que os caracteriza como homens e como mulheres.

 

A reflexão é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, em artigo publicado em Come Se Non, 07-12-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Segundo ele, "o “presépio” talvez seja a síntese mais impressionante dessa lógica mais complexa, mais opaca e mais rica: não só adultos (como Maria e José), mas também a criança divina, os animais (boi e burro), os primitivos (pastores) e os loucos (magos) compõem o quadro da revelação do mistério".

 

Eis o texto.

 

Algumas palavras proferidas pelo Papa Francisco na última quarta-feira, na Audiência, durante o seu sexto discurso sobre São José, suscitaram reações apaixonadas. Eis o cerne do texto:

 

“E hoje, também, com a orfandade, há um certo egoísmo. Outro dia, eu estava falando sobre o inverno demográfico que existe hoje: as pessoas não querem ter filhos, ou apenas um e nada mais. E muitos casais não têm filhos porque não querem ou têm apenas um porque não querem outros, mas têm dois cães, dois gatos... Sim, cães e gatos ocupam o lugar dos filhos. Sim, é engraçado, eu entendo, mas é a realidade. E essa negação da paternidade e da maternidade nos diminui, nos tira humanidade. E assim a civilização se torna mais velha e sem humanidade, porque se perde a riqueza da paternidade e da maternidade. E sofre a pátria, que não tem filhos e – como dizia uma pessoa um pouco humoristicamente – ‘e agora quem vai pagar os impostos para a minha pensão, já que não há filhos? Quem vai cuidar de mim?’: ela ria, mas é a verdade. Peço a São José a graça de despertar as consciências e pensar nisto: em ter filhos.”

 

O contexto do discurso, no entanto, é introduzido por uma distinção, que pode ser útil levar em consideração com atenção: a paternidade não consiste em “gerar”, mas em assumir a responsabilidade de uma vida.

 

A frase “forte”, que põe em relação contraditória “berços” e “canis”, só pode ser totalmente compreendida à luz de um horizonte mais amplo, que não é apenas “moral”, mas eu diria ao mesmo tempo “geracional” e “social”. Uma das evidências que vêm à tona, nesse âmbito, é a da “diferença” entre ser humano e animal. Ter filhos é sempre arriscado. Mas, diz Francisco, não os ter é ainda mais arriscado. Como pensar esse desafio quanto o relacionamos com a relação de “cuidado” com os animais? Em que sentido a substituição de animais por crianças é um problema e um escândalo?

 

Proponho apenas algumas anotações, para tentar compreender melhor a questão. Acima de tudo, é justamente a “ausência de geração” – uma espécie de “estranheza” que marca a relação com o animal – que torna mais clara e direta a relação de “cuidado”. No famoso filme de De Sica “Umberto D.”, a relação entre o velho e o cachorro é uma joia de poesia e de gratuidade. Ninguém falaria, naquele caso, de egoísmo. Pelo contrário, na relação com o cão, não raramente, os homens e as mulheres sabem ser mais generosos do que na relação com os humanos. Mas por que tudo isso não é apenas escandaloso?

 

A razão é que os animais são quase santos. Neles, não há duplicidade, não há consciência, não há tempo. A sua vida “sempre presente” é uma vida completa, plenamente aberta, nua, sem roupas e sem reservas. Ao mesmo tempo maravilhosa e assustadora. Cada animal atesta não apenas menos, mas também mais do que o homem e a mulher.

 

Ser “à imagem e semelhança de Deus” é um título de privilégio humano, mas também um fardo que o animal não carrega. O animal não peca porque não é livre. É impecável e mudo: como criatura sem a palavra, é o que deve ser e deve ser o que é. Enquanto diante do homem e da mulher está um “ser eles mesmos” que é um delicadíssimo entrelaçamento de tarefa e de dom. Cada um de nós, humanos, já não é o que deve ser e deve/pode se deixar doar pelo próximo e por Deus.

 

A simplicidade animal nos lembra de Deus. E, por isso, também pode ser uma via de fuga do próximo. E também podemos nos perguntar: mas onde o homem e a mulher descobrem a sua diferença do animal que eles mesmos são?

 

A diferença está naquilo que é mais elementar: não há patas, mas sim mãos e pés, não há focinho, mas sim boca. Precisamente essa relação delicadíssima entre patas que se tornam mãos operantes e focinhos que se tornam bocas falantes dizem a diferença: Tomás, no rastro de Aristóteles, disse que a diferença é “ratio et manus”, ou seja, palavra que permite sair do presente e mãos que transformam e recriam a realidade.

 

O animal, com a sua voz e com as suas patas, não tem outra tarefa senão existir. Ele não tem nada a buscar. Já encontrou desde o início tudo o que lhe basta. Os humanos, em vez disso, nascem pobres e ao longo do caminho encontram tudo o que os caracteriza como homens e como mulheres.

 

O cuidado pelo animal é mais simples: porque o animal nunca trai, não engana, não finge, não ilude, não mente. Permanece sempre infantil, porque não fala. Cada animal, embora crescendo e mudando fisicamente, permanece sempre um filhote, direto, imediato, por ser sem palavras e sem mãos.

 

O cuidado pelos humanos certamente é mais complexo, porque eles mudam constantemente. E precisam de uma presença não simplesmente afetiva, mas educativa, de autoridade, libertadora. E esse é um aspecto malditamente (e louvavelmente) complicado.

 

Eu entendo bem que até os animais podem ser funcionais para “pequeníssimos burgueses”. Mas todo animal, na sua imediaticidade, pode sempre ser o rompimento de todo fechamento burguês. No Aventino, nas ruelas próximas a Santo Anselmo, é comum ver “domésticos” que acompanham os cães para as suas incumbências físicas. Os donos desfrutam apenas o lado lúdico do animalzinho. Mas a lógica profunda com a qual um cão tem o seu “mundo” escapa ao nosso modo de pensar, e somente seres humanos “marginais” como aqueles que são afetados pelo “autismo” podem entender até o fundo a “ratio canina” e revelar os seus aspectos muito singulares.

 

O mundo não é percebido apenas por seres humanos adultos: como M. Merleau-Ponty escreveu em 1948, “animais, crianças, primitivos e loucos percebem o mundo a seu modo”, e nós devemos ouvi-los, também nas coisas que dizem respeito à fé. E em cada um de nós há sempre um animal, uma criança, um primitivo e um louco. Ai de nós se não fosse assim.

 

O “presépio” talvez seja a síntese mais impressionante dessa lógica mais complexa, mais opaca e mais rica: não só adultos (como Maria e José), mas também a criança divina, os animais (boi e burro), os primitivos (pastores) e os loucos (magos) compõem o quadro da revelação do mistério.

 

A transgressão animal, sem a redução burguesa a um ornamento ou a um passatempo, pode ser um recurso para compreender a que cuidado do outro Deus chamou cada ser humano.

 

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