“O vírus freou a asfixia capitalista.” Entrevista com Donatella Di Cesare

Foto: Pixabay

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17 Julho 2020

Existe uma angustiante afinidade entre o modo como o coronavírus ataca o trato respiratório, levando os doentes a uma desesperada busca de ar, e a fadiga da humanidade contemporânea, exausta pelos ritmos impostos por um sistema social e econômico dedicado ao crescimento imparável, “à obsessão pela produtividade”, ao afã constante de se sentir atrás.

A reportagem é de Gea Scancarello, publicada por Business Insider, 17-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Virus sovrano? L'asfissia capitalistica
Donatella Di Cesare

E, portanto, poderia haver uma oportunidade nessa sublevação mundial para recuperar a consciência das nossas próprias vidas: admitindo-se, porém, que conseguiremos derrotar a fobocracia, a democracia imunitária, a assunção desresponsabilizada do status quo. 

A afirmação é de Donatella Di Cesare, filósofa e professora de Filosofia Teórica na Universidade “La Sapienza” de Roma, em “Virus sovrano?” [Vírus soberano?] (Ed. Bollati Boringhieri), um livro muito recente, repleto de conceitos que insere os últimos meses, marcados pela convivência com o vírus, e as escolhas político-econômicas impostas pela pandemia em uma reflexão mais ampla sobre o que ela chama de “asfixia capitalista: a aceleração contínua de um mundo lançado rumo ao lucro extra”.

 

Eis a entrevista.

 

O 11 de setembro, a crise econômica de 2008 e a pandemia global são os três principais acontecimentos deste século. Olhando para trás, os dois primeiros não trouxeram melhorias. Existe uma razão para sermos mais otimistas sobre o futuro da asfixia capitalista?

Francamente, acho que a pergunta está equivocada. Não apenas ainda estamos dentro dessa catástrofe e é difícil fazer previsões, mas também são as próprias categorias de “melhor ou pior” que não têm sentido. É claro que será um mundo diferente: a pandemia é um acontecimento disruptivo, mais ainda do que os outros dois, e redesenha este século. Imporá mudanças existenciais, porque mudou a vida de cada um de nós. E as mudanças são difíceis de julgar.

No entanto, existe uma forte tendência a remover essas mesmas mudanças: as máscaras, a sociabilidade, as férias...

Todos vivemos quase cotidianamente uma situação esquizofrênica: em alguns momentos do dia, fazemos como se o vírus não existisse; em outros, somos continuamente remetidos ao vírus, à agitação, à emergência...

A propósito, o primeiro-ministro [italiano] Giuseppe Conte foi substancialmente forçado pelas polêmicas a recorrer ao Parlamento para prolongar o estado de emergência.

A emergência é um grande problema político-filosófico. Na Itália, e não só, a promulgação de decretos, de fato, está desautorizando o Parlamento e esvaziando a democracia. Também é preciso dizer que o que Conte pediu é uma “emergência preventiva”: a situação certamente não é a do fim de março. O primeiro-ministro governa prevendo que haverá a necessidade, dentro de algum tempo, de medidas excepcionais. Isso não é grave só do ponto de vista constitucional, mas também precisamente em sentido político.

Em seu livro, você também fala de “democracia imunitária”.

As democracias ocidentais preveem fronteiras: quem está dentro tem uma série de tutelas, de direitos, de proteções, e quem está fora pode ser exposto a qualquer evento, de pandemias a guerras. Então, o que é que cada um de nós deseja? Não só ser protegido, mas também ser precisamente imunizado: não correr o risco de ser contaminado por quem está fora das fronteiras.

Não é apenas uma metáfora...

De fato, existe uma continuidade entre a situação atual, determinada pelo vírus, e a política italiana e europeia do passado: a brutalização da sociedade, a rejeição dos migrantes, do “diferente”. Não nos damos conta de que essas fronteiras são obviamente efêmeras, como se vê nestes dias até mesmo dentro da Itália: os calabreses não querem os milaneses. A democracia imunitária, a ideia de considerar o outro como um infectado, é muito perigosa. É preciso problematizar as consequências que isso cria.

O medo se tornou há muito tempo uma categoria política. Mas o vírus o legitimou, mesmo aos olhos de quem sempre se queixou dos alarmismos excessivos. Entramos naquela que você chama de fobocracia?

Incutir medo para governar faz parte da tradição. No entanto, o que vimos na última década é o contínuo reforço dos medos dos cidadãos, embora absolutamente motivados, para desenvolver um pedido de segurança. Daí nasce aquilo que muitos chamam de “Estado de segurança”, como se o Estado contribuísse para alimentar essas fobias para poder governar mais facilmente . A comunidade em que vivemos é muito fragmentada, e o vínculo que mais funciona é precisamente o do medo: como todos estamos assustados, formamos uma comunidade.

Os medos, começando pelo risco de um aumento dos contágios, são razoáveis: a ideia de que se possa recorrer a medidas especiais pode parecer igualmente razoável para muitos.

Os medos absolutamente não são equivocados ou desmotivados. Todos temos muitos medos, especialmente neste período: adoecer, morrer, perder o emprego ou aquilo que se tem, ser condenados à precariedade. No entanto, o Estado não sabe como geri-los: portanto, ele reforça precisamente o medo para prometer uma segurança que não pode manter.

Você defende que decidir resistir, nesta situação, envolve riscos. Quais?

O vírus freou a asfixia capitalista, o contínuo movimento rumo a um objetivo, a louca aceleração das nossas vidas: no dia 2 de abril, dois bilhões de pessoas estavam confinadas em casa, uma situação sem precedentes. Em relação a esse mundo lançado rumo a um lucro extra contínuo, as reações singulares e individuais estão dedicadas a não ter nenhum efeito, nenhum resultado. É difícil apresentar alternativas porque, no fundo, parece não haver nenhuma: não conseguimos imaginá-las, e isso também deveria nos fazer refletir. Vivemos em um momento histórico em que a alternativa é estigmatizada antes mesmo de se manifestar.

Até mesmo o fato de dizer que não existem alternativas é reforçar o medo.

Exato. Enquanto isso, devemos nos perguntar se a aceleração contínua é realmente a vida que queríamos viver. E pare para refletir sobre o que aconteceu: se é verdade que a pandemia não é culpa de ninguém e certamente não é uma punição divina, é igualmente verdade que ela explodiu em partes do mundo com o mais alto desenvolvimento industrial, marcadas por condições ecológico-produtivas particulares. É claro que existem nexos com um sistema econômico: é preciso ler este momento utilizando também a chave ecológica.

 

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