“Eu não posso respirar”

Foto: Anthony Crider | Flickr CC

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06 Junho 2020

"Entre os afrodescendentes, o grito “eu não posso respirar” é mais eloquente, às vezes na proporção inversa de ser reprimido e silencioso. A desigualdade racial e social, que os torna mais frágeis e vulneráveis em tempos de paz, os atinge primeiro em tempos de guerra. Números, porcentagens, tabelas, estatísticas e gráficos, sejam eles de caráter oficial ou oficioso, popular ou científico, mostram à exaustão que o estigma da cor da pele e da escravidão segue desencadeando perseguição, marginalização, prisão e morte", escreve Alfredo J. Gonçalves, cs, padre, vice-presidente do SPM.

 

Eis o artigo.

 

A frase sufocada, repetida e quase inaudível de George Floyd navegou rapidamente por todo o universo virtual. Frase e imagem que, combinadas, representam o soco na boca do estômago da sociedade estadunidense e mundial. A combinação dramática entre as palavras e a cena, na abordagem policial, representa um choque duplo: pelo sadismo dos agentes brancos, violência fardada e “legal”; e pela humilhação contra o homem negro. Por isso, além de viralizar no mundo da Internet, a notícia criou pés e mãos, rostos e vozes, punhos erguidos e indignação, gestos e cartazes, faixas e mobilização – multidões em marcham pelas ruas, praças e lugares públicos, tanto nos Estados Unidos como em outras partes.

Imagem emblemática do racismo secular nas Américas, no Brasil e no mundo. A Senzala caída por terra com a cara contra o duro asfalto – inerte, asfixiada, indefesa e impotente – subjugada sob a força truculenta da Casa Grande. Brutalidade que, longe de terminar com o longo processo de “abolição da escravatura”, apenas mudou de roupa. Travestiu-se de legalidade para melhor oprimir, explorar, descriminar, marginalizar e, no limite extremo, eliminar. De resto, de um ponto de vista histórico e estrutural, enquanto a Casa Grande acumula privilégios, e estes são intocáveis; a Senzala recebe favores, e estes são eventuais, dependendo do humor do senhor de plantão. Se e quando os moradores da Senzala tentam transformar os “favores” em “direitos”, na tentativa de salvar a própria dignidade humana, vem a repressão. Mais uma vez, a força bruta simbolizada no capataz, no exército, na polícia. A luta do líder Zumbi, no quilombo dos Palmares, entre tantos outros, é reflexo dessa violência institucionalizada.

Um voo de pássaro pela sociedade brasileira, entre tantas outras, bastará para dar-se conta de como o apartheid racial fundiu-se com o apartheid social – duas faces da mesma moeda – para perpetuar a segregação do povo afro-americanos. Dificuldades de acesso à educação e ao mercado formal de trabalho fecham-lhes outras portas relacionadas aos direitos humanos e cidadãos. Disso resultam os proventos inferiores para trabalhos iguais, a abordagem prepotente e arrogante de todo e qualquer agente de segurança, o olhar desconfiado e enviesado de boa parte das pessoas brancas (de “bem” porque de “bens”), o bullying sofrido em lugares públicos por crianças, jovens e adolescentes, a submissão às sobras de serviços indesejados, pesados e mal remunerados... Para não falar do preconceito e da estigmatização.

A asfixia de George Floyd, prolongada até a morte, tornou-se uma espécie de metáfora para o sufoco que todos nós sentimos diante da pandemia de Covid-19. A falta de ar sufoca e pode levar a óbito os que contraíram a doença, sufoca as famílias enlutadas, sufoca os que desejam mas não podem colocar na mesa “o pão nosso de cada dia”... E sufoca, de alguma forma, toda a sociedade. Todos ansiamos por sair, caminhar, respirar! Respirar não só pelas janelas, mas ao ar livre e ao sol; respirar o olhar, o sorriso, o toque e o abraço; respirar o encontro, o diálogo, a amizade; respirar o sonho, a busca, a liberdade.

Ao tolher o respiro, o coronavírus tira a vida. Mas entre os afrodescendentes, o grito “eu não posso respirar” é mais eloquente, às vezes na proporção inversa de ser reprimido e silencioso. A desigualdade racial e social, que os torna mais frágeis e vulneráveis em tempos de paz, os atinge primeiro em tempos de guerra. Números, porcentagens, tabelas, estatísticas e gráficos, sejam eles de caráter oficial ou oficioso, popular ou científico, mostram à exaustão que o estigma da cor da pele e da escravidão segue desencadeando perseguição, marginalização, prisão e morte. Convém jamais esquecer que por trás desses números, frios e abstratos, existem nomes e rostos concretos, saídos de famílias reais, tais como George Floyd, Marielle Franco, João Pedro ou Miguel Otávio Santana da Silva, o menino negro de apenas 5 anos, filho de uma empregada doméstica, que caiu de um prédio e morreu por negligência da patroa, enquanto a mãe levava o cachorro dessa última a dar uma volta. Fica no ar a pergunta “até quando”?

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