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03 Abril 2020

“Descobrimos que, se tivermos que cuidar do gênero, será do gênero humano. Ele vale mais do que a soma de todas as nossas identidades reivindicadas. E infinitamente mais do que essas hierarquias sociais patéticas com as quais estávamos intoxicados”. A reflexão é de Jean-Pierre Denis, diretor de redação, em editorial publicado por La Vie, 31-03-2020. A tradução é de André Langer.

Eis o texto.

Ecce homo! Eis o homem! Pilatos está falando de Jesus, que ele mandou flagelar e entregará à morte, mesmo sabendo que é inocente. Mas a frase dita por aquele que lavou as mãos assume, desta vez, um sentido particular. O homem? O humano? A humanidade? Durante anos, as galinhas poedeiras da bateria midiática cacarejavam tão alto que não conseguíamos ouvir mais nada.

Nosso destino parecia selado. Às vezes levado pelos antiespecistas à sua condição animal, às vezes exportado pelos tecnoprofetas para o universo dos cyborgs, quando não era visto como o inimigo de seu planeta, o Sapiens não valia mais um tostão. Adeus ao humano, esse brutamonte de carne e osso, e bom-dia ao pós-humano ou ao transumano! A humanidade teve seus dias de glória.

Preferimos o indivíduo sozinho, brandindo o catálogo de suas insatisfações. Além disso, os debates éticos não se concentraram nas questões que se tornaram novamente vitais. Estávamos discutindo o sexo dos anjos, e não nossa espécie comum, a ser protegida por todo princípio de solidariedade ou de precaução.

A morte? Uma velha lua para civilizações atrasadas e religiões ultrapassadas! O corpo? Nós o substituiríamos por um digitalizado, por um telecarregável, por um potencializado, por um nanotecnologizado, pela telemedicina desencarnada. E era lógico que as pessoas reivindicassem então o suicídio assistido como a “liberdade suprema”.

Mas de repente somos forçados a admitir, impotentes, o massacre em nossos Ehpad [lares para idosos]. E talvez, infelizmente, testemunharemos uma onda de eutanásia silenciosa, mas em massa, sobre um fundo de terríveis dilemas. Algumas vidas já são consideradas mais preciosas que outras. O acompanhamento digno dos moribundos e dos defuntos nem sempre é uma prioridade ou possibilidade. Ecce homo!

Acabaram-se os debates supérfluos. Descobrimos que, se tivermos que cuidar do gênero, será do gênero humano. Ele vale mais do que a soma de todas as nossas identidades reivindicadas. E infinitamente mais do que essas hierarquias sociais patéticas com as quais estávamos intoxicados. Não havia mais um centavo sequer para as pesquisas públicas, para os salários de cuidadores e para os leitos hospitalares. Mas achávamos lógico pagar bilhões a jogadores de futebol, instagrammers da moda e outros gigantes da cibereconomia.

Você se lembra desse século estranho, dessa fauna? Neste momento, os ídolos estão todos mais ou menos abrigados em seu iate na Ilha Mosquito. Festas, não sem nos ter desejado boa sorte e recordado os gestos de barreira. A violência e o absurdo sem sentido de tudo isso me impressionaram quando vi esse papa tão solitário, tão emocionado, tão vacilante. Ele mostrou o corpo de Cristo no ostensório da melhor maneira possível, para nos abençoar urbi et orbi, católicos ou não, cristãos ou não, crentes ou não, todos humanos. Ecce homo!

Eu me indigno, porque me encontro nessa situação. Jesus não diz mais nada, porque tudo está dito Nele. Ele assume as características dos moribundos, dos sem teto, dos aposentados, das mulheres violentadas e das crianças abusadas em uma porta fechada perniciosa.

Sobre a minha mesa de trabalho tenho um cartão postal. Uma pintura de El Greco me conforta. Santa Verônica, jovem mulher pensativa, elegante e séria, mostra um pano no qual está impressa a face deste servo sofredor, cujo suor, sangue ou lágrimas ela enxugou. Nestes tempos de máscara sanitária e de “distanciamento social”, a simbologia me dá coragem.

Certamente não haverá celebrações e bênçãos dos ramos em nossas igrejas, e isso será sentido por muitos de nós. Mas como não entender que o caminho da cruz se dará este ano na escala de toda a humanidade? E como duvidar que, ao longo desta via dolorosa que parece deserta, milhares de Verônicas aparecerão, algumas, como enfermeiras, outras, como caixas?

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