Jesus não se concilia com Moisés, a tese herética de Marcião

Manuscrito do século XI mostra São João (à esquerda) e Marcião | Fonte: J. Pierpoint Morgan - Wikimedia Commons

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04 Novembro 2019

Evangelho (ou seja, boa notícia), simplesmente Evangelho sem referência a nenhum autor no título, ao contrário dos quatro Evangelhos canonizados posteriormente. Marcião escolheu chamar dessa maneira o seu texto. Armador originário da cidade de Sínope, no Ponto, chegou a Roma por volta de 140 d.C., e pouco depois foi expulso junto com seus companheiros pela comunidade cristã local, apesar de ter se tornado um membro importante, por ser considerado heresiarca.

O comentário é de Andrea Radaelli, publicada por Corriere della Sera, 01-11-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

A causa desse afastamento forçado era sua pregação, caracterizada por uma irredutível incompatibilidade entre o Deus das Escrituras Hebraicas, legislador opressivo e arbitrário, e o anunciado por Jesus, portador da salvação para o ser humano que se realizou através de sua morte na cruz.

O Evangelho é a primeira parte de um documento maior, a segunda parece ter sido denominada posteriormente de apostolikon pelos heresiólogos, que acusam o autor de ter mutilado, adulterado e forjado o texto conhecido por eles, e consiste em uma coleção de 10 as cartas voltadas a uma extremização e radicalização da mensagem de Paulo de Tarso, o único a ter compreendido, segundo Marcião, o profundo sentido da mensagem de Jesus. Em um século como o II d.C, caracterizado pela presença de diferentes grupos de seguidores que se reportavam a Jesus, discípulos dos discípulos originários, cada um dos quais tentava elaborar e fixar através dos escritos e palavras a memória de seu líder carismático, Marcião sente a necessidade de encontrar de modo preciso aquela que, segundo ele, era a autêntica mensagem de salvação cristã.

Vangelo di Marcione

Agora o chamado Evangelho de Marcião é reproposto pela primeira vez pela editora Einaudi em uma edição integral em italiano, junto com o texto grego, na série Nue (Nuova Universale Einaudi). Editado por Claudio Gianotto (primeira parte da introdução) e Andrea Nicolotti (segunda parte da introdução, tradução, notas e comentários sobre o texto), com a intenção de apresentar um texto que possa se aproximar do original perdido.

O trabalho de Nicolotti começa com a versão ocidental do texto de Lucas, entre as várias existentes, presentes no Codex Beza e Cantabrigensis e contendo parte do Novo Testamento, datável entre a segunda metade do século III e a primeira do século IV. Representa o única texto completo em grego dessa tipologia de texto.

Essa nova edição tem como objetivo reconhecer a Marcião independência e características próprias em relação a Luca. De fato, de acordo com alguns estudiosos modernos, seria inclusive precedente, portanto não o resultado de uma manipulação sobre este último para adequá-lo com sua teologia, como considerava a literatura hostil ao armador do Ponto.

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