Pedofilia, Bergoglio encerra a cúpula: "Agora seriedade sobre os abusos". Mas nem todos os cardeais estão abertos à tolerância zero

Francisco durante o encerramento da Cúpula. Foto: Vatican News

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25 Fevereiro 2019

"Se na Igreja for identificado mesmo que um único caso de abuso - que já em si representa uma monstruosidade - tal caso será tratado com a máxima seriedade". Isto foi afirmado pelo Papa Francisco no discurso final da cúpula sobre a pedofilia realizada no Vaticano. Mas de Bergoglio também veio um severo ataque sobre os abusos dentro da família, estatísticas na mão: "A primeira verdade que emerge dos dados disponíveis é que aqueles que cometem abusos, ou seja, as violências (físicas, sexuais ou emocionais) são especialmente os pais, os parentes, os maridos de noivas crianças, os treinadores e os educadores".

Francisco não escondeu, mesmo correndo o risco de provocar críticas violentas contra si, que "a gravidade do flagelo dos abusos sexuais contra menores é um fenômeno historicamente generalizado, infelizmente, em todas as culturas e as sociedades". Mesmo salientando que "a universalidade desse flagelo, enquanto confirma sua gravidade em nossas sociedades, não diminui a sua monstruosidade dentro da Igreja".

A reportagem é de Francesco Antonio Grana, publicada por Il Fatto Quotidiano, 24-02-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Para o Papa, de fato, "na raiva, justificada, das pessoas, a Igreja vê o reflexo da ira de Deus, traído e golpeado por esses desonestos consagrados. O eco do grito silencioso dos pequenos, que em vez de encontrar neles pais e guias espirituais encontraram carrascos, abalará os corações anestesiados pela hipocrisia e pelo poder. Temos o dever de escutar atentamente esse sufocado grito silencioso".

Após quatro dias de intensos debates e escuta das vítimas, a cúpula sobre pedofilia se encerra com os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo que retornam às suas dioceses. Alguns deles, durante a cúpula, admitiram que jamais haviam escutado as pessoas abusadas antes do encontro desejado pelo papa no Vaticano. O eloquente sinal de que, se um forte choque foi dado, o trabalho não pode ser considerado completo com apenas quatro dias de conferências. A partir daqui é necessário começar a tornar realmente concreta a tolerância zero na pedofilia solicitada reiteradas vezes por Francisco. O que vai acontecer nos próximos meses mostrará se essa inédita cúpula finalmente acabou com a grande e demasiada cumplicidade das hierarquias eclesiásticas contra os abusadores, durante décadas transferidos de paróquia em paróquia. Ou se tudo permanecerá como antes.

O Papa deu indicações práticas para combater o flagelo da pedofilia. "O objetivo da Igreja - explicou Bergoglio - será de ouvir, tutelar, proteger e cuidar os menores abusados, explorados e esquecidos, onde quer que eles estejam. Para alcançar esse objetivo, a Igreja deve superar todas as polêmicas ideológicas e políticas jornalísticas que muitas vezes instrumentalizam, por vários interesses, os próprios dramas vividos pelos pequenos. Chegou a hora, portanto, de colaborar juntos para erradicar tal brutalidade do corpo de nossa humanidade, adotando todas as medidas necessárias já em vigor em nível internacional e eclesial. Chegou a hora de encontrar o equilíbrio correto de todos os valores em causa e dar diretrizes uniformes para a Igreja, evitando os dois extremos de um justicialismo, provocado pelo senso de culpa pelos erros do passado e pela pressão do mundo midiático, e de uma autodefesa que não enfrenta as causas e consequências desses graves crimes".

Francisco, portanto, indicou como manual a ser adotado também na Igreja católica as "Melhores práticas" formuladas sob a orientação da Organização Mundial da Saúde, por um grupo de dez agências internacionais. O pacote de medidas, chamado Inspire, fornece sete estratégias para acabar com a violência contra as crianças. Existe a proteção de menores, a seriedade impecável, uma verdadeira purificação e a formação. Depois, fortalecer e verificar as diretrizes das Conferências Episcopais, "ou seja, reafirmar a exigência de unidade dos bispos na aplicação de parâmetros que tenham valor de normas e não apenas orientações. Nenhum abuso jamais deve ser encoberto (como era hábito no passado) e minimizado, pois o encobrimento dos abusos favorece a propagação do mal e acrescenta mais um nível ao escândalo". Entre as medidas também aparecem acompanhar as pessoas abusadas e o tema do mundo digital: "É necessário incentivar os países e as autoridades a aplicar todas as medidas necessárias para restringir os sites que ameaçam a dignidade do homem, da mulher e especialmente dos menores: o crime não usufrui do direito à liberdade". Por fim, o combate ao turismo sexual.

De acordo Bergoglio "É difícil, portanto, entender o fenômeno dos abusos sexuais contra menores, sem a consideração do poder, uma vez que esses são sempre o resultado do abuso de poder, a exploração de uma posição de inferioridade do indefeso abusado que permite a manipulação da sua consciência e da sua fragilidade psicológica e física. O abuso de poder também está presente nas outras formas de abuso de que são vítimas cerca de 85 milhões de crianças, esquecidas por todos: as crianças-soldados, os menores prostituídos, as crianças desnutridas, as crianças raptadas e muitas vezes vítimas do comércio monstruoso de órgãos humanos, ou transformadas em escravos, as crianças vítimas de guerras, as crianças refugiadas, as crianças abortadas e assim por diante".

Disso tudo se origina o convite do Papa: "Eu faço um apelo sincero para uma luta total contra os abusos de menores no campo sexual como em outros campos, por todas as autoridades e indivíduos, porque se trata de crimes abomináveis que devem ser cancelados da face da terra: é o que pedem tantas vítimas escondidas nas famílias e em diversos ambientes de nossas sociedades". "Permitam-me - disse Francisco – um sincero agradecimento a todos os sacerdotes e pessoas consagradas que servem ao Senhor com fidelidade e integridade, e que se sentem desonrados e desacreditados pelos comportamentos vergonhosos de alguns de seus coirmãos. Todos - Igreja, pessoas consagradas, Povo de Deus e até o próprio Deus - carregamos as consequências de sua infidelidade. Agradeço, em nome de toda a Igreja, à grande maioria dos sacerdotes que não só são fiéis ao seu celibato, mas se entregam a um ministério que hoje é tornado ainda mais difícil pelos escândalos de poucos (mas ainda assim demais) seus coirmãos."

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