Nova teologia eucarística: ''Hoc Facite'', de Zeno Carra. Artigo de Andrea Grillo (parte 1)

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24 Março 2018

Às vezes acontece, no meio de uma pesquisa, quando as descobertas são interessantes, e os caminhos que se abrem não são nada pequenos, que, de repente, nos deparamos com um texto de síntese, que manifesta uma lucidez e uma autoridade totalmente particulares. Estamos diante de um desses casos.

O comentário é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua. O artigo foi publicado por Come Se Non, 17-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É ainda mais surpreendente que, também neste caso – como já vimos nos trabalhos de M. Belli, L. Della Pietra, M. Rouillé d’Orfeuil e C. Cortoni – encontramo-nos diante de uma obra-prima de um jovem estudioso que, sob a orientação de uma teóloga experiente como Stella Morra, escreveu Hoc facite. Studio teologico-fondamentale sulla presenza eucaristica di Cristo [Hoc facite. Estudo teológico-fundamental sobre a presença eucarística de Cristo] (Assis: Cittadella, 2018, 287 páginas).

Trata-se “apenas” do texto de uma “licenciatura” apresentada à Pontifícia Universidade Gregoriana, mas que manifesta uma lucidez de análise e uma profundidade de elaboração dignas da máxima atenção.

Gostaria de começar aqui apresentando seu conteúdo, que merecerá pelo menos uma segunda resenha. Antes de oferecer uma breve síntese do trabalho e do seu coração, gostaria de indicar um mérito estrutural do trabalho.

1. Uma estrutura original

Desde as primeiras linhas, o livro de Zeno Carra se move a partir de uma urgência “espiritual”: como dizer a presença de Deus hoje. Mas, para responder a tal questão fundamental, que encontra um dos seus “lugares” clássicos justamente na eucaristia, Carra constrói uma “máquina” refinada de mediações. Acima de tudo, colocando a própria pesquisa no plano não imediatamente sacramental ou litúrgico, mas em nível de teologia fundamental. Em particular, ele capta, eu diria quase visceralmente, a exigência de tematizar o “modelo teórico” de compreensão da “presença eucarística” e o reconstrói com fineza e precisão.

Dentro dessa “engenharia do modelo” – more geometrico demonstrata – ele consegue amadurecer uma liberdade de julgamento e uma lucidez de olhar sobre o plano da teologia do sacramento e da liturgia que dificilmente podem ser encontradas em outros lugares. Eu diria que precisamente o “movimento teórico” de se colocar no plano daquela “teologia fundamental” – que o Papa Francisco, com uma frase irresistível, traduziu na dolorosa experiência de “chupar um prego” – revela-se capaz de liberar um gosto de releitura e uma profundidade de compreensão impossíveis de outra forma.

E, desse modo, evidencia que o trabalho dos teólogos dos sacramentos e dos teólogos da liturgia, se não elaborar uma profunda consciência do modelo de “ratio” mediante o qual estruturam suas teologias, não conseguirá “servir plenamente” o próprio objeto, correndo o risco de passar a vida chupando pregos, tarraxas, parafusos, foices ou martelos.

2. A trama do relato

A trama do “romance” de Z. Carra é logo dita. A tradição medieval (São Tomás) e moderna (Concílio de Trento) elaborou um poderoso modelo de “explicação” e de “fruição” da presença eucarística, que isolou o “ente” do rito, com graves consequências para a concepção de Cristo, do ser humano e da Igreja (capítulo I).

Tal modelo manteve-se praticamente inalterado até o início do século XX, quando uma série de novidades (Movimento Litúrgico, teologia sistemática e Reforma Litúrgica) iniciaram uma série de “operações sobre o modelo”, cujo resultado ainda está em aberto (capítulo II).

Daí a exigência de se configurar um “novo modelo”, que, conservando o patrimônio de fé e de experiência da tradição, saiba “pensá-la” e “vivê-la” de modo mais profundo e mais plano (capítulo III).

3. O coração do texto

Onde está o coração do texto? Acho que ele pode ser descrito assim: para assegurar uma presença não abstrata, mas “real” de Cristo na Igreja, é preciso desestruturar e desconstruir o modelo clássico, dentro do qual se criam cada vez mais interferências distorcidas e mutilações da experiência.

No centro dessa profunda revisão está a “forma” do sacramento, que deve ser reconhecida como “processualmente ‘agida’”. Essa nova compreensão da forma relê com lucidez as passagens fundamentais da reforma litúrgica como decisivos para tornar novamente acessível a eucaristia como sacramento que “não tem sua realização naquilo que acontece em um ente espacialmente considerado na sua ‘inseidade’, em torno do qual se designaria secundária e consequentemente uma forma ritual” (p. 241).

A redescoberta da “forma ritual” como essência da eucaristia impede a grave cisão entre sacramento e uso, e força a uma revisão do modelo que se identifica com a “transubstanciação”, porque ele, no nosso mundo, não permite – a priori – que se pensem e se vivam adequadamente nem Cristo, nem o ser humano, nem a Igreja.

Para isso, no centro da celebração eucarística, não estão “palavras dita sobre pão e vinho”, mas sim uma ação complexa, uma sequência, que começa a partir da preparação dos dons, através de toda a oração eucarística, passa pela fração do pão e chega à comunhão. “Agir tal ação é a forma estrutural da missa” (p. 207).

A lúcida evidência dessa releitura envolve a teologia litúrgica e a teologia sistemática em uma nova e apaixonante colaboração, tornada urgente pela necessidade de predispor um modelo novo para a teoria e para a prática, que tem o coração na superação dessa antiga oposição entre sacramento e uso, à qual correspondem historicamente as duas disciplinas de estudo e de formação. Sobre esse ápice arriscado, Zeno Carra se moveu com uma precisão e uma autoridade realmente foras do comum.

Stella Morra, com justiça, escreveu um belo prefácio a esse livro. Talvez um prefeito de Congregação poderia ou deveria escrever uma apresentação. Em vez disso, estamos acostumados a prefeitos que, em matéria litúrgica, escrevem prefácios apenas a livros ruins, de desígnio quase sempre nostálgico, sem um verdadeiro fôlego e que, muitas vezes, encontram no prefácio autorizado o único verdadeiro motivo de relevância.

Isso é um sinal de fraqueza: hoje, quando a teologia é de alta escola e abre perspectivas promissoras, theologi adsunt, absunt Praefecti.

(Continua...)

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