Srebrenica: o que vi naqueles dias. Artigo de Alberto Negri

Foto: aiva/Flickr

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01 Setembro 2026

"Mladić e as guerras dos Bálcãs são relatos como esses. Histórias que continuam a surgir, anos depois, das vozes dos sobreviventes, como as vozes das vítimas dos massacres nazistas que ainda perturbam, felizmente, as nossas consciências", escreve Alberto Negri, filósofo italiano, em artigo publicado por il manifesto, 28-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O massacre de Srebrenica, que ceifou oito mil vidas, ocorreu em 11 de julho de 1995, em meio à indiferença, se não mesmo à cumplicidade, das autoridades internacionais e do comandante local do contingente holandês, que chegou a brindar com o general Ratko Mladić, o chefe do exército sérvio-bósnio. A cidade permaneceu fechada para os jornalistas, e só foi possível colher depoimentos de sobreviventes em fuga que desciam das montanhas aterrorizados.

Em um bosque, avistamos uma mulher pendurada em uma árvore; ela havia se enforcado para evitar ser capturada pelas milícias sérvias. Em um campo, jaziam os restos mortais de um homem que se explodira com uma granada de mão para não ser capturado vivo. Muitos haviam testemunhado o assassinato de maridos, filhos, irmãos e irmãs; não conseguiam sequer falar ou levantar os olhos do chão, como se sentissem vergonha de ainda estar vivos.

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Para além das sentenças dos tribunais internacionais e da morte do general Mladić, a relevância atual de Srebrenica ainda hoje está ligada às histórias angustiantes das vítimas de uma tragédia que não pode ser simplesmente relegada aos livros de história.

Há algum tempo, me encontrei com um dos sobreviventes. Havia sido ferido e perdido a consciência enquanto as milícias de Mladić, ao seu redor, trucidavam dezenas de pessoas destinadas a uma vala comum. "Desmaiei sobre uma pilha de cadáveres e os sérvios acharam que eu estava morto, e eu também acreditava que estava. Fiquei ali encolhido por horas até à manhã seguinte, quando uma mão agarrou meu braço, começou a me sacudir e a me levantar, e finalmente me levou embora".

Mladić e as guerras dos Bálcãs são relatos como esses. Histórias que continuam a surgir, anos depois, das vozes dos sobreviventes, como as vozes das vítimas dos massacres nazistas que ainda perturbam, felizmente, as nossas consciências. No entanto, os massacres nos Bálcãs, dez anos de conflito, centenas de milhares de mortos, milhões de refugiados, já parecem apenas memórias desbotadas na história e na memória europeia. É como se tivéssemos atravessado aquelas montanhas e planícies em vão para contar o que viam e ouviam: cidades e vilarejos crivados de balas e triturados por bombardeios e granadas, em meio a uma espécie de delírio étnico que parecia não ter fim. Ratko Mladić, ao lado de Radovan Karadžić e Slobodan Milošević, foi um dos arquitetos e perpetradores dos massacres nos Bálcãs. Um dos piores criminosos. Seus cúmplices nos massacres do ontem, hoje são aqueles que gostariam de esquecer.

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