A síndrome de Babel e a reconstrução da comunicação humana: uma primeira leitura de Magnifica Humanitas. Artigo de Moisés Sbardelotto

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26 Mai 2026

Em sua primeira encíclica, o convite de Leão XIV é a evitar aquilo que ele chama de síndrome de Babel: a idolatria do lucro, a uniformidade, a pretensão de uma linguagem única visando a traduzir tudo em dados, inclusive o mistério da pessoa.

A opinião é de Moisés Sbardelotto, professor da PUC Minas e doutor em Ciências da Comunicação pela Unisinos.

Eis o texto.

Cento e trinta e cinco anos depois de seu sucessor homônimo, o Papa Leão XIV assina sua primeira encíclica, Magnifica humanitas. E, assim como Leão XII se posicionou em relação à “vaporização” da sociedade nos tempos da primeira Revolução Industrial, o Leão contemporâneo busca interpretar as grandes tendências do nosso tempo em meio às “coisas novas” deste século XXI, em particular a digitalização, a inteligência artificial (IA) e a robótica.

O título se inspira no Magnificat, o cântico de Maria, que exalta o Senhor ao contemplar a obra de suas mãos, principalmente o menino que cresce em seu ventre (cf. Lc 1,46-55). Maria glorifica o Senhor e exulta em Deus porque Ele “declara-se da parte dos últimos”, como ela mesma, uma jovem pobre e humilde (n. 243). Ao observar o mundo a partir de baixo e sob o prisma dos pequenos, e não com a ótica dos grandes e dos poderosos, Maria exalta a misericórdia de Deus, que é também “a bússola para uma existência evangélica na era digital” (n. 230).

Mais do que uma análise científica da IA, a primeira encíclica de Leão é uma ampla meditação sobre a pessoa humana em um tempo marcado pela automação algorítmica e pela reconfiguração das relações sociais. Desde o início, a encíclica deixa claro que a IA não é um mero apêndice temático da contemporaneidade, mas é uma “transformação que interpela, a partir de dentro, as categorias da Doutrina social, exigindo o seu desenvolvimento na fidelidade ao Evangelho” (n. 17).

A encíclica organiza-se em cinco capítulos enquadrados por uma introdução e uma conclusão de grande densidade pastoral. O primeiro capítulo reconstrói historicamente o pensamento social da Igreja, mostrando que ele é um corpo vivo que se atualiza à luz do Evangelho. O capítulo dois revisita os princípios clássicos da doutrina social da Igreja em tempos de redes digitais: dados, algoritmos e infraestruturas tecnológicas entram agora no horizonte do destino universal dos bens. O terceiro capítulo confronta o paradigma tecnocrático com a grandeza irredutível da pessoa humana, fazendo uma dura crítica às narrativas transhumanistas. Já o capítulo quatro aborda a verdade, o trabalho e a liberdade, elegendo a comunicação como um eixo central para essa reflexão. O capítulo cinco, por fim, confronta a cultura do poder com a civilização do amor, propondo um horizonte de paz fundado no desarmamento das palavras.

A encíclica não explica meramente “o que a IA faz” nem “como usá-la”, mas está preocupada com uma questão mais profunda: “As inovações tecnológicas [...] contribuem realmente para que as pessoas e os povos cresçam em humanidade e fraternidade, no respeito pela Casa comum e pelas gerações futuras?” (n. 85). Em um contexto histórico em que “a utilização de plataformas digitais e sistemas de IA acelera mudanças profundas na comunicação pública e política” (n. 132), a própria convivência humana e a organização social sofrem as consequências.

É a partir dessa perspectiva que ofereço esta (primeira) leitura comunicacional do documento.

Rumos e muros da comunicação hoje

Leão se diz determinado a contribuir com todas as iniciativas que constroem um mundo mais justo e a convidar outros a colaborar com a Igreja na promoção do desenvolvimento integral de cada ser humano. “Desejamos entrar em diálogo com todos os homens e mulheres do nosso tempo, com os quais partilhamos os acontecimentos, as questões e as aspirações da humanidade. Com eles, queremos identificar novos caminhos para o bem comum e a promoção de uma vida digna para todos. Essa atitude de diálogo é parte da vocação da Igreja” (n. 2).

Chamada a dialogar e a se comunicar com o mundo de hoje, a Igreja de Leão não nega a técnica em si mesma, nem a considera uma força antagônica em relação à pessoa ou um mal à humanidade. Pelo contrário, afirma, a técnica está enraizada na história humana desde seu início, ligada à autonomia e à liberdade do ser humano. A leitura de Leão é inclusive tecnoteológica: “O Espírito Santo interpela-nos hoje sobre a nossa relação com a técnica e com a revolução digital em curso” (n. 9). As descobertas científicas são um dom concedido à humanidade, e a inovação tecnológica pode ser até “uma forma humana de participar no ato divino da criação” (n. 111).

Por outro lado, cada escolha feita desde a concepção de uma inovação também expressa uma visão específica de humanidade. Para Leão, portanto, a técnica não é neutra, “porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam” (n. 9). A mesma tecnologia que pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças. E isso se torna ainda mais desafiador hoje, porque estamos diante de uma situação nova, em que o poder e a disseminação das tecnologias emergentes “moldam os processos de decisão e incidem profundamente no imaginário coletivo: ‘Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma’” (n. 4).

Para o papa, as mesmas tecnologias que facilitam a comunicação podem “sustentar modelos que exploram os mais fracos, alimentam novas formas de escravatura e transformam o conflito numa oportunidade de lucro” (n. 240). Por isso, cada escolha técnica transforma-se em uma ocasião de discernimento espiritual. E quando essa escolha é feita com base no critério do lucro ou do poder, o resultado é a incomunicação.

A Babel digital e a incomunicação

Essa palavra emerge silenciosamente nas entrelinhas de Magnifica humanitas. Leão entrevê a incomunicação como um dos maiores riscos para a humanidade em tempos de IA, ou seja, a falta de relação, aquilo que, para o Deus da Criação, “não é bom” (cf. Gn 2,18). Hoje, denuncia Leão, isso é fruto de um contexto macroeconômico que não reconhece mais o valor do comum e do público, mas busca privatizar e se apossar de tudo: “Outrora, eram sobretudo os Estados a orientar e a dirigir a inovação. Hoje, pelo contrário, os principais motores do desenvolvimento são sujeitos privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos Governos. O poder tecnológico assume, destarte, uma identidade inédita, predominantemente ‘privada’ e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum” (n. 5).

Por meio dos sistemas de IA generativa, a incomunicação assume uma forma insidiosa: a automatização não apenas informacional, mas também relacional. Os grandes modelos de linguagem são máquinas de produção linguística capazes de mimetizar empatia. E Leão nomeia essa distinção com clareza ao falar de uma “imitação artificial de uma comunicação humana positiva”, por meio de palavras de conselho, empatia, amizade, amor, que podem ser proferidas pelas máquinas e podem até se revelar gratificantes e úteis. Mas são palavras simuladas, não encarnadas, lembra o papa, e que, portanto, não constroem relação. Então, “o risco não é tanto que uma pessoa acredite estar a falar com outra, mas que perca o desejo de procurar verdadeiramente o outro” (n. 100).

Nesse contexto, Leão evoca Babel como a imagem de uma humanidade que perdeu a capacidade de partilhar o mesmo mundo comum. “Quando a cidade se edifica sobre o orgulho e a pretensão de se bastar a si mesma, a comunicação é interrompida, as línguas confundem-se, e os seres humanos deixam de se compreender” (n. 7). O resultado disso é a dispersão, afirma o papa, e não a riqueza da “diversidade reconciliada”, como diria Francisco.

O paralelo com o ecossistema digital é evidente. As grandes corporações constroem arquiteturas fechadas e levantam muros algorítmicos que geram “uma uniformidade que elimina a diversidade e que, em vez da comunhão, opta pela homogeneização” (n. 7). Sob o império dos dados, a pessoa torna-se perfil e a experiência converte-se em variável calculável. Aquilo que escapa à quantificação – o amor, o perdão, a graça, o mistério... – tende a se tornar invisível e irrelevante.

Frente a isso, o papa convida a evitar aquilo que ele chama justamente de síndrome de Babel: “A idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital – dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa” (n. 10).

O apelo de Leão é a reconstruir hoje “a cidade devastada, com as muralhas ainda em ruínas” da internet pós-plataformização. Assim como o povo da antiga Jerusalém, liderada por Neemias, é preciso reencontrar “uma linguagem comum, não a da uniformidade, mas a da comunhão: a harmonia que brota quando cada um assume a própria responsabilidade” (n. 8). Para isso, é preciso “reconhecer, na pluralidade de vozes e visões que por vezes lembra a dispersão das línguas, a existência de uma possibilidade luminosa: a de edificar juntos, transformando a diversidade num recurso e fazendo da escuta e do diálogo o terreno comum no qual crescem a justiça e a fraternidade” (n. 10). A missão, continua o papa, é transformar a desordem em pluralidade por meio da prática da sinodalidade, um gesto profundamente comunicacional.

Nesse sentido, a crise contemporânea não é apenas uma crise da verdade, mas também da relação. A mediação algorítmica tende a enfraquecer a busca do encontro por formas funcionais e eficientes de interação. O risco real não é a confusão ou a substituição entre humano e máquina, mas sim a anestesia do desejo relacional, que passa pela presença, pela corporeidade, pela vulnerabilidade. Nossa palavra é plenamente humana quando é encarnada.

A comunicação como vocação relacional

Na leitura cristã, a linguagem humana tem sua fonte na própria natureza divina, que, com a Encarnação de Jesus, também assume a nossa linguagem. O núcleo central da fé, afirma o papa, é o mistério da “comunhão de Pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo, amor em relação, que se doa reciprocamente e se comunica ao mundo” (n. 48). O ser humano se comunica porque foi criado a partir de uma relação e é chamado a refletir essa imagem divina relacional: cada pessoa é pensada e desejada por Deus para entrar numa história de comunhão com Ele, com os outros e com a criação.

Por isso, continua Leão, a verdade cristã também é relacional. “No discurso público, a verdade factual tem uma dimensão racional, uma vez que requer averiguação, correspondência com as fontes e responsabilidade argumentativa; mas é, sobretudo, relacional: constrói-se através de vínculos de confiança e experiências partilhadas, num confronto honesto com os outros e o mundo” (n. 132). A verdade factual só é alcançada e corretamente comunicada por meio de uma busca partilhada. E a comunicação, diz Leão, não é apenas transmissão de informações, mas também e principalmente criação de cultura. Nesse sentido, “a verdade é um bem comum e não propriedade daqueles que detêm poder ou visibilidade” (n. 137). 

E isso traz consequências também para as próprias estruturas eclesiais, como afirmado em um dos trechos mais corajosos do documento: “Também as comunidades cristãs devem empenhar-se numa comunicação transparente e na busca fiel da verdade dos factos. Infelizmente, nem sempre foi assim”.

Segundo o papa, a Igreja assistiu com vergonha à difícil descoberta de verdades dolorosas sobre membros e realidades eclesiais, particularmente no caso de abusos sexuais e escândalos financeiros, que só foram reveladas graças a “alguns jornalistas apaixonados pela verdade [que] desempenharam um papel fundamental em trazer à luz injustiças e abusos” (n. 138). Agora, afirma Leão, a vigilância e a transparência devem ser uma responsabilidade da própria Igreja. “Não devemos aguardar que outros nos obriguem a enfrentar verdades incômodas sobre nós mesmos” (n. 138).

Daí a urgência de uma ecologia da comunicação, proposta pelo papa. Ela articula e incide em quatro frentes integradas da infraestrutura comunicacional contemporânea:

  • nas regras públicas, a fim de estabelecer normas de transparência em relação à seleção e à amplificação dos conteúdos;
  • no âmbito social e cultural, fortalecendo os organismos intermediários, como o jornalismo profissional e ético;
  • na escola e na família, para construir uma nova consciência educativa; e
  • na universidade, preparando para a capacidade de relacionar e fundir os conhecimentos a fim de interpretar a complexidade.

Para que essa ecologia comunicacional seja sustentável, Leão defende que é preciso formar a liberdade humana por meio de uma pedagogia da sobriedade e do limite: “Educar para o uso da IA implica, portanto, educar para decidir quando e em que situações não a utilizar. [...] Devemos educar-nos ao jejum da IA e proteger os nossos jovens das promessas da máquina perfeita, daquela sutil sedução que parece tornar o pensamento humano inútil precisamente quando é mais necessário” (n. 140).

Um fluxo incessante de informações e de conhecimentos fragmentados não equivale ao exercício de investigação, reflexão e discernimento. Desse modo, reflete o papa, as pessoas podem até “saber” muitas coisas, mas têm dificuldade de relacionar informações e conhecimentos. A propagação dos meios de comunicação digitais, segundo o Papa Leão, gera uma cultura do imediato e da hiperestimulação, que alimenta cansaço, tédio e apatia frente ao esforço necessário para procurar a verdade.

É necessário, portanto, “promover uma verdadeira higiene da atenção: ritmos que prevejam silêncio, estudo aprofundado, leitura, debate ponderado. Sem estes elementos, a liberdade interior pode ficar comprometida” (n. 146). 

Aqui a Igreja tem um papel decisivo: sua vasta rede educativa – escolas, casas de formação, universidades, centros de pesquisa – pode promover uma alfabetização digital crítica e humanística, formando cidadãos e cidadãs capazes de conviver com sistemas algorítmicos sem perder sua liberdade nem deixar de assumir sua responsabilidade.

Comunicação desarmada e desarmante

Nesse contexto, a primeira contribuição que cristãos e cristãs podem dar para construir uma civilização mais humana é prestar atenção à própria comunicação e dar testemunho de uma linguagem pacífica e pacificadora. “Desarmemos as palavras e contribuiremos para desarmar a Terra”, pede o papa. A forma como comunicamos é de importância fundamental: “Devemos dizer ‘não’ à guerra das palavras e das imagens, devemos rejeitar o paradigma da guerra. Todos devemos, portanto, fazer um exame de consciência sobre as palavras que usamos, sobre os preconceitos de que estão impregnadas e sobre a agressividade, patente ou latente, que nelas habita” (n. 214).

Mas a responsabilidade pessoal com as palavras por si só não basta: há também um limite sistêmico e infraestrutural que é preciso levar em conta. A hiperinformação fragmentada e algoritmizada privilegia o confronto e amplifica a polarização e o ressentimento. Para o papa, esse processo acelera estratégias de propaganda político-ideológica e torna mais fácil apresentar a violência como necessária ou inevitável.

Contra essa comunicação impulsiva e agressiva, Leão XIV convida a “favorecer o diálogo entre todos, incluindo os interlocutores considerados mais ‘incômodos’ [...] recorrendo o máximo possível à humildade e à paciência para reatar os mais tênues sinais de boa vontade das partes em conflito, de modo a iniciar uma pacificação” (n. 224).

Uma comunicação encarnada e eucarística

No fundo, Magnifica humanitas é uma defesa radical da humanidade que nos acomuna. À luz da fé cristã, isso significa reconhecer que, pela Encarnação, Deus mesmo quis assumir o nosso húmus, quis entrar na nossa condição humana e transfigurá-la no dom de si mesmo.

Por isso, contra a eficiência absoluta e a automação afetiva oferecida pelos sistemas de IA, a encíclica evoca a dimensão espiritual da comunicação: “A espiritualidade que necessitamos é uma espiritualidade eucarística, ou seja, uma espiritualidade da unidade eclesial no amor”. Na Eucaristia, “o Senhor se comunica e reúne a Igreja, para que a sua oferta se torne princípio de unidade e fonte de vida nova” (n. 234).

A Eucaristia é a antítese simbólica da racionalidade técnica. Enquanto os sistemas automatizados operam por cálculo e otimização, a lógica eucarística funda-se na gratuidade e na partilha. Deus não transmite meramente uma mensagem, mas doa a si mesmo. O Evangelho não é uma informação a ser transmitida, mas sim uma comunhão a ser experimentada e compartilhada. E o papa recorda que esse dinamismo só é possível fora das lógicas da performance chamativa e do espetáculo midiático: “Acreditamos na força do Reino, que se desenvolve a partir da pequenez de um grão de mostarda, como uma semente que, uma vez deitada à terra, germina e cresce. Enquanto nos rodeia o ruído da confusão, o bem cresce silenciosamente da terra” (n. 210).

A comunicação cristã aposta na possibilidade de uma comunhão que não ignora nem rejeita a alteridade, a diversidade e a vulnerabilidade. E o futuro da comunicação humana dependerá menos da sofisticação das máquinas do que da nossa capacidade de continuar desejando a presença do outro e de ver na relação a magnificação do humano: “O verdadeiro progresso nasce sempre de um coração aberto ao outro” (n. 15).

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