Recomeçando. Com Cristo Ressuscitado há um novo começo. Artigo de Francesco Cosentino

Foto: Birmingham Museums Trust/Unsplash

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09 Fevereiro 2026

"E o cristianismo deveria nos servir para isto: para descobrirmos que há uma bênção escondida até mesmo no coração da noite. E que, com Deus, a vida sempre recomeça", escreve Francesco Cosentino, doutor em Teologia Fundamental pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em artigo publicado por Segno nel mondo, nº 1 de 2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Em uma de suas obras, o grande teólogo francês Henri de Lubac denuncia o fato de que nosso cristianismo com muita frequência "cai no formalismo e no hábito", reduzindo-se a uma "religião de cerimônias e devoções, de ornamentos e consolações vulgares" (Henri de Lubac, O drama do humanismo ateu, Ecclesiae, 2022). Trata-se de um cristianismo formal, que aparentemente deixa tudo como está, mas que, enquanto isso, lentamente se esvazia. A fé se reduz a uma religiosidade consoladora, a chama viva do Evangelho se extingue, a criatividade do caminho dá lugar a uma administração pacata do sagrado porque, no fim das contas, o que prevalece é o medo de que Deus nos impulsione por caminhos inexplorados e nos convide a jornadas perigosas, enquanto nós preferimos a segurança das trilhas familiares.

Levar a sério a emoção sagrada da fé, para que ela não se torne um hábito enfadonho, talvez seja o primeiro e verdadeiro dever de um cristão. Por isso, é necessário retornar sempre ao Evangelho, deixar que ele fale, deixar que ele nos desafie e, sobretudo, questioná-lo continuamente na tentativa de descobrir em que consiste a essência da promessa de Jesus para as nossas vidas e como ela resplandece em seus gestos e em suas palavras.

Dessa perspectiva, creio que uma das palavras-chave do cristianismo deve ser o verbo recomeçar. Aqueles que acolhem na fé a vinda de Deus, sua palavra libertadora, sua presença amorosa, podem sempre se levantar, retomar a jornada, reiniciar os processos da vida, reunir os fios rompidos da existência e, assim, imaginar uma nova vida. "Recomeçar" é uma palavra que consegue evocar os gestos e a pregação de Jesus e captar uma dimensão fundamental da mensagem cristã: com Deus, nada do que somos e do que vivenciamos se perde para sempre. Esse movimento existe no próprio Deus; é um gesto primordial seu: diante da história da humanidade, mesmo quando tudo parece perdido e seu povo trai a aliança, Deus sempre recomeça. E esse recomeço sempre novo culmina no envio de Cristo, seu Filho, para que nele uma nova criação possa começar e possam ser devolvidos à vida todos aqueles marcados pela derrota da esperança, obscurecidos pelo pecado, desfigurados pelo sofrimento, envergados pela pobreza,

O próprio evento-Cristo nos remete à palavra "recomeçar". A ressurreição, de fato, o cerne da experiência cristã, rompe os grilhões da morte, decreta a vitória da vida, altera para sempre a trajetória da história e nos anuncia que para nós nunca há um fim, mas, pelo contrário, o fim já foi realizado em Cristo ressuscitado, e que para nós sempre haverá um novo começo. Assim, aqueles que acolhem Cristo e o colocam no centro da vida humana, mesmo em meio às dificuldades e aos sofrimentos dessa carne, experimentam esse novo começo repleto de esperança: em nossas mortes, nos fragmentos da vida, em cada crise ou fracasso que parece sinalizar o fim, se esconde o verdejar de uma nova folha que cresce, o esplendor de um novo botão que desponta, uma nova vida que floresce.

A manhã de Páscoa, nesse sentido, é particularmente evocativa. Naquele sepulcro, não somos cativados por algum evento extraordinário, mas convidados a contemplar o vazio. Quando as mulheres chegam, de fato, a pedra já foi removida e o sepulcro está simplesmente vazio. E — paradoxo muito cristão — é precisamente o vazio que afirma a vida, enquanto nós continuamos a acreditar que, para viver bem, precisamos nos encher de coisas. O sepulcro vazio priva aquelas mulheres de um encontro com Jesus, mas, paradoxalmente, torna-se palavra que anuncia o novo que está prestes a começar: se Ele não está lá, significa que Ele está vivo, que venceu a morte, que devemos procurá-Lo em outro lugar porque Ele está em toda parte: a história não acabou, mas está prestes a recomeçar. Michel de Certeau, com sua notável sensibilidade mística, identificou justamente o sepulcro vazio como o símbolo fundamental da fé cristã: aquele vazio nos obriga a buscar Jesus entre os vivos e nos lugares da vida e, portanto, nos diz que sempre se pode recomeçar.

O cristianismo nos devolve a esperança de recomeçar, pedindo-nos que aprendamos a nos apegar a um Deus vivo que não satisfaz todos os nossos pedidos, mas permanece fiel à sua promessa de um amor que nunca terá fim e que estará presente nas dobras de nossa vida diária. Um Deus que não se deixa encontrar onde gostaríamos que estivesse, mas que, justamente por isso, mantém viva a nossa jornada, para que possamos vislumbrar a sua presença naquelas situações para nós inesperadas e imprevistas: ali, Deus abre novos caminhos. E quando tudo parece perdido e ausente, na realidade, Ele inicia uma nova história. O que hoje parece tão vazio quanto o sepulcro talvez me prepare para algo amanhã.

Enxergar a vida sob essa perspectiva só é possível com a nossa participação. Devemos cultivar em nós a arte de recomeçar, escolhendo o risco da jornada em vez da saudade da segurança, atravessar a região das dúvidas e caminhar rumo a novos começos, em vez de ficar obcecados em garantir um lugar confortável. Em suma, devemos sair daquela tentação que o Papa Francisco chamou de "a psicologia do túmulo", aquela tristeza melosa que sufoca o entusiasmo e nos condena ao nada. Só assim poderemos superar a nossa resistência — pessoal e eclesial — à mudança, e também abençoar as nossas perdas e derrotas, encarando-as como um "espaço vazio" no qual Deus se esforça para começar algo novo.

Esta é, portanto, a mensagem da fé cristã: recomeçar é possível. Assim termina o Evangelho de João, com a última aparição de Jesus Ressuscitado no Mar da Galileia, justamente quando os discípulos pensam que tudo acabou. No entanto, quando Ele chega, o amanhecer já desponta (cf. Jo 21,4). Pois o nosso é um Deus que dissipa a noite e ilumina as trevas. Ele nos espera na praia, como fez naquela noite com os discípulos amargurados e desiludidos, e aparece com o rosto amigo de quem quer compartilhar nossos fracassos, despertando em nós a coragem de lançar nossas redes de volta ao mar.

E o cristianismo deveria nos servir para isto: para descobrirmos que há uma bênção escondida até mesmo no coração da noite. E que, com Deus, a vida sempre recomeça.

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