A riqueza do náufrago. Artigo de Enzo Bianchi

Foto: Unsplash

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

13 Abril 2021

 

"O primeiro resultado da crise, o que realmente deveria ensinar, é a responsabilidade. Todo gesto humano e toda omissão dependem sempre de uma responsabilidade, de saber oferecer uma resposta levando em consideração as consequências das próprias escolhas: consciência necessária para participar da vida da polisNegligências, omissões com graves consequências, até mesmo com resultados mortais, devem ser julgadas e sancionadas, fazendo emergir a responsabilidade", escreve Enzo Bianchi, monge italiano e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Repubblica, 12-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Naufragium feci, bene navegavi, naufraguei, mas naveguei bem. Esse oxímoro dos filósofos da antiguidade, que chegou até nós sobretudo na formulação de Erasmo de Roterdão, não só apresenta a nossa vida como uma viagem, mas também põe um selo no naufrágio, na "crise" que surpreendeu o navegador. A crise, mais cedo ou mais tarde, chega a todos, ela também nos pega de uma forma inesperada e inédita, e não podemos removê-la. Há mais de um ano vivemos uma crise cujo fim ainda não vemos com certeza, porque esta pandemia continua a condicionar de maneira grave a nossa existência.

Não só o enclausuramento obrigatório e a mudança de estilo de vida causam sofrimento, mas sobretudo a perda do trabalho para muitos e o aumento da pobreza, nunca tão extensa e profunda desde o pós-guerra. É uma época marcada pela depressão, em que muitos sujeitos mais vulneráveis e frágeis sofrem de graves problemas psíquicos a ponto de às vezes levar ao suicídio. E depois há o número de mortes de Covid: um verdadeiro massacre ao qual agora parece que nos acostumamos.

São os mortos da idade do descarte, que morreram quase sempre no silêncio, na solidão, no anonimato de estruturas e residências para idosos ... Sim, há quem chegue a dizer: não são produtivos, eles estão acima da idade em relação aos cânones que estabelecem quem é digno de cuidado e salvação, menos dignos de cura do que outros. Isso seria suficiente para discernir em sua essência a gravidade da crise. Não me esqueço de dois livrinhos da minha formação que, passadas décadas, me parecem ter sido de grande utilidade: O bom uso da doença e O bom uso das crises.

Textos ricos em sabedoria experiencial, que acima de tudo sabiam ajudar a assumir a catástrofe e a desgraça.

Por causa da catástrofe, as crises que surgem oferecem a possibilidade de evitar o pior. Nos períodos tranquilos não penso em ninguém, em um Deus que intervenha para me avisar, enquanto estou convencido de que a doença do outro constitua por si só um convite para buscar a sua cura, pelo menos para que eu não adoeça também. Acredito que muito pior do que um naufrágio é levar uma vida sem naufrágios, mas sempre permanecendo na superfície da realidade, como reza o salmo: “O homem que está em honra, e não tem entendimento, é semelhante aos animais, que perecem”.

O primeiro resultado da crise, o que realmente deveria ensinar, é a responsabilidade. Todo gesto humano e toda omissão dependem sempre de uma responsabilidade, de saber oferecer uma resposta levando em consideração as consequências das próprias escolhas: consciência necessária para participar da vida da polis. Negligências, omissões com graves consequências, até mesmo com resultados mortais, devem ser julgadas e sancionadas, fazendo emergir a responsabilidade. Agora, ao contrário, os meios de comunicação veiculam toda uma série de denúncias, recriminações, violações de deveres elementares, sem nunca seja identificado um responsável. Os responsáveis não são procurados nem sancionados. A crise parece não ensinar nada, nem mesmo a assumir a responsabilidade.

 

Leia mais