O pastor bom e o mau. Artigo de Enzo Bianchi

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06 Abril 2021

 

Jesus também revelou quem é o pastor belo e bom, descrevendo a si mesmo e a sua vida em uma parábola que nos entregou, a parábola do bom pastor, um texto que nos permite contar legitimamente a parábola do seu contrário, do mau pastor.

O comentário é de Enzo Bianchi, monge italiano e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado na revista Jesus, de abril de 2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Na Igreja, o ministério mais árduo e mais difícil é o de presidir à unidade, de ser servo e instrumento da comunhão, que é primeiro elemento distintivo da comunidade cristã. Estar em comunhão, participar da koinonia entre irmãos e irmãs é condição para ser também discípulos de Jesus e o seu sinal na companhia dos seres humanos.

Por isso, Jesus confiou a alguns discípulos a missão de se tornarem pastores, guias, supervisores, com a tarefa de fazer e renovar a unidade, de reavivar e confirmar a comunhão, uma comunhão plural, não monolítica, que acolhe as diversidades, mas as vive na única fé, na única esperança e na caridade: Pedro até recebeu uma promessa particular de Jesus que não o isentava do pecado, mas o convidava a confirmar os irmãos e a apascentar ovelhas e cordeiros.

Em toda comunidade, paróquia, mosteiro, há quem, munido do dom da solidez e do discernimento (estes são os carismas absolutamente necessários), exerça esse serviço: procurando sempre incluir, nunca excluir, buscando sempre perdoar e dar o primado à misericórdia, nunca julgar e condenar, pondo-se sobretudo à escuta de todos, não de uma parte ou de alguns, para ser verdadeiramente um guia para cada um. Quem preside à unidade ou busca e constrói a unidade de todos e de todas, ou divide, alimenta oposições e destrói a própria comunidade.

Esse serviço é muito fatigante, e sobretudo hoje os superiores não podem recorrer à imposição apelando à obediência dos seus súditos, porque a consciência humana e cristã nos pede para “caminhar juntos”, todos munidos de uma subjetividade capaz de se expressar e assumir a responsabilidade exigida a batizado, que é sempre dotado do dom do Espírito Santo.

Portanto, é mais do que nunca deplorável que, no espaço eclesial, haja “superiores”, isto é, que haja pastores que ficam longe do rebanho, que não conhecem o exercício, o serviço da unidade. Jesus, na esteira dos profetas, dirigiu-lhes palavras duríssimas e descreveu significativamente os maus pastores como narcisistas e autorreferenciais: são aqueles que fingem ouvir, mas na realidade ouvem apenas a si mesmos e aos seus fidelíssimos.

Porém, Jesus também revelou quem é o pastor belo e bom, descrevendo a si mesmo e a sua vida em uma parábola que nos entregou, a parábola do bom pastor, um texto que nos permite contar legitimamente a parábola do seu contrário, do mau pastor.

Um pastor tinha um rebanho de 100 ovelhas, perdeu uma e disse a si mesmo: “O meu senhor é duro e severo; se, para ir buscar a ovelha perdida, eu perder as outras 99, então estou perdido, e o dono me expulsará”.

No dia seguinte, o pastor constatou que faltava outra ovelha, mas não se atreveu a deixar o rebanho para ir buscá-la. Depois de algum tempo, o pastor percebeu que havia perdido muitas ovelhas, que elas haviam ido embora por diversas razões: não se sentiam protegidas pelo pastor, não se sentiam reconhecidas nem ouvidas; além disso, outras adoeceram e não conseguiam acompanhar o ritmo do rebanho.

Então, o pastor voltou ao senhor e lhe disse: “Perdoa o teu servo, as ovelhas se perderam, mas eu te trago esta que nunca se afastou de mim”. E o senhor: “Servo malvado! Eu te dei a tarefa de encontrar a ovelha perdida, e tu perdeste todo o rebanho. Não serás mais um dos meus pastores!”. E o expulsou!

É isso que acontece frequentemente nas nossas igrejas e comunidades quando os pastores amam os justos mais do que os pecadores, os sãos mais do que os doentes, e são incapazes de se sentar à mesa dos pecadores e de estar entre os doentes na consciência de estarem, também eles, doentes.

 

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