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Kamala Harris e as outras, todas as mulheres que quebraram o “teto de vidro”

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26 Novembro 2020

Conquistando a indicação à vice-presidência dos Estados Unidos após o sucesso eleitoral do Partido Democrata, para o qual contribuiu com rico dote de sufrágios, Kamala Harris quebrou o teto de vidro que, nos 244 anos de história do país, havia impedido uma mulher de acessar os mais altos cargos políticos do país.

A reportagem é de Rossella Rossini, publicada por Il Manifesto, 25-11-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Quebrou o teto derrubando as mais robustas das barreiras invisíveis subjacentes à metáfora do glass ceiling: as discriminações de gênero e racial. Primeira vice-presidente mulher, primeira pessoa negra no segundo posto de comando depois de Joe Biden.

Eu sou a primeira, mas não serei a última, disse ela em mensagem às garotas estadunidenses, após agradecer a mãe Shyamala, uma imigrante indiana e ativista pelos direitos civis, e às gerações de mulheres - negras, asiáticas, brancas, latinas e nativas – que aplainaram o caminho para sua vitória.

Quis justamente recordá-las, destacando com tal agradecimento que as conquistas das mulheres fazem parte de uma longa tradição coletiva, e que as suas batalhas nunca foram vencidas sozinhas. Confirma isso a conquista do direito de voto em todos os Estados da União, cujo centenário se comemora este ano, obtido em 1920 na onda do movimento sufragista fundado no Reino Unido em 1869, precedido por sua vez pelos Cahier de Doléances des femmes, primeiro pedido formal de reconhecimento dos direitos de mulheres apresentados em 1789 à Assembleia Revolucionária Francesa, e pelo nascimento de círculos femininos em luta pelos direitos civis e políticos; acompanhado, ou seguida, pelo florescimento de associações e movimentos semelhantes em outros países: Nova Zelândia, Finlândia, Noruega, Alemanha, França, Suíça, Wyoming, o primeiro estado a introduzir o sufrágio feminino parcial nos Estados Unidos em 1869.

A história mais recente fala de outras trincas abertas no glass ceiling da política dos EUA, como para marcar o caminho certo com estacas plantadas ao longo do caminho por outras companheiras de viagem.

Frances Perkins, reformadora social ativa no Women's City Club de Nova York fundado em 1915 para apoiar o sufrágio feminino e um papel mais incisivo para as mulheres na vida pública, em 1933 foi a primeira mulher a entrar, como secretária do Trabalho, no gabinete na administração Roosevelt recém-formado. Em plena Grande Depressão, colaborou com a primeira-dama em um projeto de construção de um New Deal de viés feminino, que incluía os "She, She, She Camps", o equivalente dos Civilian Conservation Corps instituídos pelo governo para oferecer a jovens desempregados a possibilidade de algum ganho em obras de manutenção do ambiente.

Perkins continuaria sendo a única mulher a entrar no gabinete até Oveta Culp Hobby ser nomeada por Dwigth Eisenhower, que em 1953 confiou-lhe o Departamento de Saúde, Educação e Bem-Estar.

Mary Mcleod Bethune, filha de escravos, foi uma educadora e empresária estadunidense, líder dos direitos civis, fundadora de uma escola, posteriormente universidade, para estudantes afro-americanos e do National Council of Negro Women, além de consultora de Franklin Delano Roosevelt na campanha de 1932 para as eleições presidenciais. A partir de 1936, ela liderou o chamado "Black Cabinet” dentro do governo: um grupo de 45 afro-americanos que ocuparam cargos de destaque em departamentos do gabinete e nas agências do New Deal. Dois anos depois, Eleanor Roosevelt participava da Conferência Sulista sobre Bem-Estar Humano convocada em Birmingham, Alabama, por progressistas sulistas para enfrentar a questão racial profundamente enraizada na região.

A lei de segregação do estado forçou os 1.500 delegados, negros e brancos, a se colocarem em dois setores separados. A primeira-dama colocou sua cadeira no corredor divisor. Foi a vez de Bethune falar: “Mary, você gostaria de subir ao palco?” disse a presidente da assembleia. "My name is Mrs. Bethune", respondeu ela. "Sra. Bethune: gostaria de subir ao palco?" Pela primeira vez, uma mulher negra foi chamada em público de "Senhora". Outro golpe desferido ao teto de vidro da política estadunidense.

Em 30 de dezembro de 1945, poucos meses após a morte do marido, Eleanor embarcou no Queen Elizabeth para Londres, aceitando o cargo que lhe fora oferecido pelo novo presidente, Harry Truman, que a nomeara representante dos Estados Unidos na primeira Assembleia Geral das Nações Unidas.

Era a única mulher da delegação, com quem partilhava a grave responsabilidade de demonstrar o apoio incondicional que o governo do seu país se empenhava a dar à nova organização, para que se tornasse o instrumento de salvaguarda da paz internacional e dos direitos de todos os povos, após os horrores do nazifascismo e da Segunda Guerra Mundial.

O cargo durou até 12 de dezembro de 1948, quando a Assembleia Geral da ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Eleanor Roosevelt foi sua principal artífice.

Vinte anos depois, em 1968, Shirley Chisholm, nascida no Brooklyn, de pai cubano e mãe de Barbados, professora, política e ativista democrata, mais uma vez quebrou o teto de vidro ao se tornar a primeira negra eleita para o Congresso, com assento na Câmara dos Representantes.

Kamala Harris tinha quatro anos e estava na escola. Um futuro a aguardava como chefe do Departamento de Justiça da Califórnia, senadora estadual e depois federal e, finalmente, vice-presidente da nação, cargo que assumirá em 20 de janeiro de 2021.

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