“A sedução se tornou o motor do mundo”. Entrevista com Gilles Lipovetsky

Fonte: Pixabay

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

10 Novembro 2020

O autor de “A era do vazio”, “Os tempos hipermodernos” e “Da leveza”, o sociólogo francês Gilles Lipovetsky (Paris, 1944), retorna com outro acentuado retrato da sociedade contemporânea. A sociedade do hiperconsumismo, individualismo, capitalismo hedonista e artístico, que desfez as antigas fronteiras entre arte e produção em massa, é sobretudo, afirma, a sociedade da sedução. A primeira sociedade na história em que a sedução é soberana. E, sobretudo, é o motor do mundo que conhecemos, seja na economia, na política, na educação e nas relações humanas. É o que retrata em “Agradar e tocar: ensaio sobre a sociedade da sedução”.

A entrevista é de Justo Barranco, publicada por La Vanguardia, 09-11-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O que significa que hoje vivemos em uma sociedade da sedução? O que mudou?

O capitalismo de consumo é o motor do crescimento nas sociedades hipermodernas, o nervo da economia. A partir dos anos 1950, o capitalismo entrou na pele do consumo de massas e isso transformou os modos de vida. Don Juan é um sedutor ultrapassado hoje em dia, muito pequeno, nada comparado ao capitalismo que seduz sem parar milhões e milhões de homens, mulheres, crianças, velhos. Packaging, publicidade, séries, filmes, destinos turísticos, música..., estamos em um universo que não é mais o da disciplina coercitiva, mas uma máquina de estimulação, um sistema de tentações que não para de dizer "veja, isto é magnífico, bom, você gostará". Don Juan é hoje o sistema capitalista.

Ao mesmo tempo, mudou a relação com a vida. Espalhou-se uma ética de tipo hedonista: é preciso aproveitar a vida, desfrutar, viajar, divertir-se. Desde os anos 1950, falamos de fun morality, o prazer e sua busca se tornaram legítimos e a consequência é que pouco a pouco essa lógica de sedução e prazer conquistou inclusive a educação, que foi reestruturada, como a economia. Da educação autoritária que eu conheci a uma educação aberta, compreensiva, psicológica, relacional. Escuta-se as crianças, é preciso agradá-las. Impõem suas leis nas famílias, é lhes dito te amo continuamente. Quando eu era criança, minha mãe não dizia isto, não era uma relação de sedução.

Conforme o título de seu livro, trata-se de agradar e emocionar.

É a lei hoje, uma fórmula fantástica do século XVII que atribuo a Racine. Essa lei se tornou dominante mesmo nas relações consigo mesmo e com os outros. Com a exposição de si mesmo nas redes sociais, que funcionam como uma enorme máquina de sedução para ser olhados, atrair os outros. São um ego-casting, cada um se expõe para atrair e espera a confirmação permanentemente. E existem todas as redes de encontros, pode haver operações de sedução pela internet ‘non stop’, com duas, três, cinco, dez mulheres ao mesmo tempo. Seduzir ou tentar seduzir até a quem não conhecemos, o encontro vem depois.

O domínio da sedução explodiu e ao seu lado há uma formidável máquina de industrialização de produtos de beleza. Isso estava presente há milênios, mas havia limites. Hoje, não. Você pode se maquiar aos 12 e fazer cirurgia estética aos 80. O desejo de atrair é legítimo, ao passo que antes era carregado de valores imorais. A sedução estava ligada a Eva com toda a dimensão do diabo.

Por outro lado, você vê a sedução como um motor da vida.

Sim. Não é apenas útil para nos oferecer ou obter o objetivo de desejo. Não é o essencial. O essencial é que a sedução é uma lei do vivo. A maioria das espécies que se reproduzem por via sexual tem sedução, a fêmea não aceita o macho antes de um cortejo. É uma lei de vida que começa no nascimento com o fenômeno de atração-repulsão, você é atraído por algo. Seduzido. Don Juan é condenado como imoral, perverso, manipulador, e isso existe, mas não é o essencial.

A sedução faz você desejar e quando é seduzido, faz algo. Platão condena a sedução como prática de engano. Eva seduz Adão. O pecado. Mesmo em inícios do século XX se tem a femme fatale que provoca o homem e o leva à morte. É uma visão machista, falocrática, que condena a mulher. O capitalismo subverteu tudo isso. Compreendeu que a sedução é a melhor ferramenta para fazer negócios. E ao capitalismo se acrescenta a lógica do individualismo, que deu um novo lugar à sedução por meio da mudança fundamental no matrimônio.

Por que essa mudança é central?

Todas as sociedades realizam práticas de sedução: penteado, danças, canto, maquiagem, rituais mágicos, vestidos, uma lógica de aumento do poder da sedução natural. Mas, ao mesmo tempo, todas as sociedades, exceto a nossa, colocaram limites a esse poder, jugulando-o com a instituição do matrimônio. Eram os pais, as famílias e os clãs que o organizavam, às vezes, antes de nascer. Houve duas forças contrárias em todas as sociedades: aumentar o poder de sedução e jugular sua lógica.

Ao contrário, nas sociedades modernas individualistas, saltaram esse limite com a invenção do matrimônio por amor. A sociedade moderna libertou o poder da sedução, tornou-a soberana, sem limites, sem instituições que a freiem. Converteu-a no motor do mundo.

Somos ‘donjuans’ multiplicados?

É uma sociedade donjuanesca. Carrega um problema: a lógica exponencial da sedução conduz à crise climática, a degradação da riqueza do vivo... Os ecologistas dizem, e não concordo, que a lógica da sedução mercantil é uma catástrofe, que é necessário reduzir o consumo, parar esta dinâmica perpétua de tentações e consumir menos. Veem novamente na sedução o diabo.

E você, o que pensa?

O diagnóstico é justo, mas não a resposta. Posso entender a reivindicação de que as pessoas consumam menos e inclusive concordar, mas não é a solução. O desejo de consumo, de novidade, não é marketing, inscreve-se na antropologia da modernidade. Os chamados à frugalidade têm sentido para burgueses boêmios, mas falar disso a chineses, indianos, africanos, não funcionará. Nos próximos 50 anos querem chegar ao nível de vida ocidental.

O que fazer?

Não é uma cruzada moral que mudará algo. É necessário a ação do Estado para obrigar a máquina econômica a mudar o sistema produtivo, trabalhar para que as empresas tomem consciência de sua responsabilidade planetária, o que também está de acordo com o seu interesse, pois utilizam a imagem de sua marca para seduzir o consumidor.

É necessária uma sedução aumentada, que se case com os outros parâmetros. O carro elétrico, os edifícios sem emissões, tudo bem, mas nada impede que sejam belos. É preciso casar sedução com ecologia e responsabilidade, não são contraditórios. Precisamos de uma sedução responsável e ecológica. O futuro passa por aí. A beleza não é um luxo, está inscrita no vivo.

Mesmo assim, em seu livro, o resultado da sociedade atual nas pessoas é ambíguo. Fala em fragilidade psíquica nesta liberdade completa.

A individualização rompeu os enquadramentos coletivos. Antes, pertencia-se a um coletivo de trabalho, do bairro, da religião, que amparava indivíduos que viviam em condições difíceis, tinham uma espécie de segurança interior. Hoje, temos liberdade, podemos mudar de ofício, mulher, religião, a vida privada é livre, mas os indivíduos se tornaram extremamente frágeis, como vemos nas tentativas de suicídio, no estresse, nas depressões, nos vícios.

Há uma fragilização da vida individual que faz com que o que vivemos se torne problemático. Os pais não estão seguros de como educar as crianças, informam-se, leem livros, questionam-se se são bons. Na alimentação também, é bom para a saúde, não... A sociedade da sedução permitiu mais liberdades, mas essa autonomia individual tem um preço forte, que é a fragilidade psíquica. Não se deve condená-la, mas novamente enriquecê-la.

Em que sentido?

Temos como ideal viajar, comprar marcas, distrair-nos... Não é espantoso, mas não está à altura de uma sociedade humanista que também deve ter outros ideais que não sejam atrair pela aparência e ser seduzido pelas mercadorias. Na escola, devem ser oferecidos outros modelos, que não seja de pura sedução. Aí estão a cultura, o pensamento crítico, a arte, para que as crianças busquem na vida outras coisas para além das técnicas de sedução. Oferecer novamente o sentido do esforço, o trabalho e a inovação, a formação da inteligência.

Não se pode esperar tudo da sedução. Mostrar que pelo trabalho e o esforço as pessoas podem realizar coisas que podem lhes satisfazer. Nem tudo pode ser divertido o tempo todo. É um mito. É preciso repensar a educação, o sentido da cultura, da empresa e da vida econômica. Utilizar a sedução para fazer nossa relação com ela evoluir. Hoje, não funciona de forma satisfatória. Devemos propor às gerações futuras objetivos dignos, ecológicos, sociais, culturais, artísticos, morais.

A Covid-19 nos mudará?

Não. Acelerará o que já estava em marcha. Teletrabalho, compras online, tele-educação, telemedicina. Em relação ao apetite de distração, consumo, divertimento, não. Neste verão, quando as medidas de confinamento foram suprimidas, tudo voltou a ser como antes. Serão realizadas mais compras com o smartphone e haverá mais teletrabalho, mas não se colocará fim à sociedade do hiperconsumo.

Leia mais