“A religião não é um refúgio”. Entrevista com Massimo Cacciari

Foto: PxHere

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02 Julho 2020

“Estou em casa. E me sinto péssimo por isso. Encantam-me os animais políticos, não os animais da prisão”, disse, de Milão o filósofo Massimo Cacciari (Veneza, 1944), que também entrou na política e foi prefeito de sua cidade natal, deputado do Partido Comunista Italiano e eurodeputado do antigo grupo dos Liberais, Democratas e Reformistas.

A entrevista é de Hector Pavon, publicada por Clarín-Revista Ñ, 26-06-2020. A tradução é do Cepat.

“Impressiona ver a cidade vazia, produz um grande estresse, é uma tristeza enorme. As cidades são pontos de encontro, desencontro e relações, as cidades vazias não são cidades, são anticidades”, avalia.

Acaba de se publicar, aqui, seu livro Generar a Dios (Editora Godot, traduzido para o espanhol por Guillermo Piro), um ensaio breve no qual reflete sobre a figura da Virgem Maria. A imagem dela com Jesus menino produz nele perguntas. Como Deus se relaciona com a história humana? Qual é a sua essência? Por que Deus é gerado por uma mulher?

"Generar a Dios", de Massimo Cacciari (Editorial Godot). Foto: Reprodução

Massimo Cacciari ensaia respostas por meio de um estudo pormenorizado de pinturas nas quais Maria e o menino são representados: “O ícone de Maria se transforma, acompanha ao do Filho, mas parece fugir de qualquer tipificação abstrata, mais ainda que isto. Com que nome chamar esta donzela tão doce e delicada, que quase parece nos convidar para que participemos da respiração de seu filho adormecido?”.

De um confinamento já atenuado, Cacciari responde por correio eletrônico questões filosóficas, políticas e religiosas.

Eis a entrevista.

Você afirma que uma parte importante da filosofia ignorava Maria. Por que acredita que foi assim e que filósofos a levaram em conta?

Praticamente não há nenhum filósofo que leve a sério a figura de Maria. Entre os teólogos, o mais significativo é o suíço Urs von Balthasar. É na grande tradição da arte ocidental que realmente se pensa em Maria. E foi justamente isto o que me impulsionou a escrever o livro.

Maria deixará que Deus “decida por ela”... ou é ela quem toma a decisão transcendental?

Deus não decide por Maria! É Maria que faz isso. Seu “Sim” é absolutamente livre. Esse é o significado principal de meu livro.

Há, para alguns, um possível refúgio da pandemia ao conhecer, sentir a atitude de Maria em seu papel de mãe do Filho de Deus? A religião é um possível refúgio?

A religião não é um refúgio! A religião requer o maior esforço: o da conversão, o de mudar de opinião. E nunca um crente rezará por isso. Isto é um ofício, não uma oração. E Maria é a figura suprema de tal oração livre de qualquer propósito.

O que pensa da atitude, ações e discursos do Papa Francisco, diante da pandemia?

O Papa Francisco “inventou” uma grande imagem: falar à praça vazia como se dissesse “agora a praça está vazia, terá que estar repleta de novos homens e mulheres”.


Foto: Vatican News

Como será o espírito dos italianos, após esta onda de contágio e morte?

A Itália será mais pobre, mais triste. É inútil cantar como bêbados nas sacadas para ganhar coragem.

Como a União Europeia superará esta prova mortal?

A União Europeia se encontra em uma encruzilhada: ou somos capazes de enfrentar a crise juntos, com políticas financeiras verdadeiramente comuns, ou a própria ideia de Europa fracassará. Já há muitos erros e fracassos (Grécia, imigração, etc.). Não haverá reparações. Parece-me impossível que a Europa não assuma políticas de solidariedade coerentes com a gravidade da situação.

De momento, a Europa desembolsou muito dinheiro, mas o problema será a decisão política para a reconstrução. Uma coisa é investir e fazer dinheiro rapidamente, dois ou três trilhões de euros para a assistência. Outra coisa será um crédito para a recuperação. Isso não pode acontecer cunhando moeda, só será possível com a emissão de um eurobônus comum, garantido pela Europa. Caso contrário, ficaremos na recessão.

Acredita que cidades como Veneza, Milão, Paris, Xangai, Nova York e Buenos Aires estavam preparadas para tal batalha?

Nenhuma cidade, nenhum país estava preparado para a pandemia, apesar dos alertas das autoridades sanitárias internacionais e mesmo que as causas sejam bem conhecidas (comércio ilegal de carne, interações do homem e os animais fora de seus habitats, crises ambientais). A política, como ficou demonstrado, não tem capacidade preventiva.

Como se regenera o sistema capitalista? Quem realmente pagará a crise?

Todas as democracias liberais estão em crise. Os processos de globalização minaram sua estrutura. Está surgindo um modelo completamente novo de “capitalismo político”, no qual o poder econômico-financeiro e a classe política formam um sistema único, intolerante a qualquer controle legislativo-parlamentar. A crise reforça esta tendência. Mas os efeitos econômicos podem ser traumáticos, psicológicos, pois você não adoece só com uma gripe, o coronavírus ou uma pneumonia. Também fica doente da cabeça se é despedido, se sua renda desaba.

O que gostaria de fazer no dia em que puder caminhar livre, quando tudo isto acabar?

Não irá acabar. Só acabará a pandemia, sem receio, se eliminar suas causas. E teremos que enfrentar a crise mais dramática: a econômico-social. Mas tudo dependerá do que for feito. Caso sejam encaradas políticas de solidariedade e cooperação, a Europa pode sair inclusive com uma imagem reforçada, mas com grandes sacrifícios, pois o dinheiro perdido não recuperaremos, haverá uma queda da riqueza na Itália, Espanha, França e também Alemanha. Ficaremos estropiados, mas a partir das políticas e as estratégias, talvez, mais fortes.

 

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