"Olhar para baixo para se encontrar. Eis o que o Papa pede a Milão". Entrevista com Gianfranco Ravasi

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24 Março 2017

Há um aspecto fundamental na próxima visita do Papa Francisco a Milão: "O papa não vai às periferias apenas por ternura ou compaixão ou para dar suporte caritativo. A sua é uma escolha simbólica, para estimular o mundo político, econômico e cultural da cidade".

O Cardeal Gianfranco Ravasi há dez anos não vive mais em Milão: ele nasceu e cresceu (entre Merate e Osnago, província de Lecco), foi um dos colaboradores mais próximos de Cardeal Carlo Maria Martini, e entre outras coisas dirigiu a Biblioteca Ambrosiana, sendo que em 2007, foi transferido para Roma, onde preside o Pontifício Conselho da Cultura. Conhece bem a cidade, “que sinto muito minha e acho ainda mais interessante agora que não mais resido lá”, e dá grande importância a chegada do Papa.

A entrevista é de Elisabetta Soglio, publicada por Corriere della Sera, 22-03-2017. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis a entrevista.

As casas populares da Via Salomone e a prisão: uma escolha simbólica, então?

Milão é muito grande e complexa para ser visitada num único dia. Por isso devemos colher o aspecto emblemático, e não exaustivo do percurso. Milão é a cidade mais europeia da Itália, por três aspectos: primeiro, pelo aspecto econômico-político, suas estruturas produtivas, finanças, universidades. Em segundo lugar, pelo cultural: aqui os eventos são harmônicos em seu conjunto, um pouco como se percebe em Berlim, ou em Paris, e não aparecerem dispersos ou fragmentados. O terceiro aspecto é a das chamadas periferias, ou melhor, das fadigas e das degenerações das metrópoles. E este último é o aspecto que deve estimular os outros dois, aquele que provoca.

Então, a escolha está ligada ao desejo de sacudir as consciências?

Eu diria que sim. Lembro-me do Calvino das cidades invisíveis. Quando ele cita Marozia, ele a descreve como a "cidade das andorinhas", voando alto, e que poderíamos comparar com Milão conectada à Rede, à bolsa de valores, à nova skyline. E depois há também a "cidade dos ratos", que tem a sua própria vida e suas regras. Escolher as periferias significa pedir as andorinhas para olharem para baixo, gerenciarem o horizonte, lembrando o que está no chão, até mesmo nas favelas. Também penso em Michael Walzer, que usa a imagem dos atenienses e metecos: interessar-se pelos metecos significa estimular os atenienses a construírem um projeto diferente.

Um projeto mais harmonioso?

O Papa fala muitas vezes da "cultura do descartável", por exemplo, na Evangelii Gaudium. "Descartável" deriva de "quarto", e nós podemos imaginar um quadrado: tirar um quarto significa “esquartejar”, isto é, arruinar um todo. Também a Jerusalém celeste descrita no Apocalipse é um quadrado: o Papa pede a Milão uma recomposição.

E à Igreja Ambrosiana, o que pede?

Partamos do seguinte: Milão é uma cidade europeia metropolitana, e o grave risco das metrópoles é de que se perca, no seu interior, todas as identidades, e se adquira um rosto novo, mas o problema é que se trata de um não-rosto, de um cinza. Milão, ao contrário, tem a grande vantagem de ser ainda identitária, e uma parte de sua identidade é religiosa. A visita do Papa estimula a Igreja a reafirmar esta identidade religiosa Ambrosiana. Na cidade há uma presença eclesial forte que pode ser lida na sua topografia: a Catedral fica no centro e dali se irradia por todos os lados. E depois, há as estruturas desta grande diocese, as paróquias, os oratórios, a Caritas. O Papa Francisco pede para relançar esta presença.

Uma metrópole integrada, na sua opinião?

Eu não sei o que o Papa vai dizer sobre esta questão. Claro que é um pouco paradoxal que numa cidade tão internacional prospere uma forma de nacionalismo étnico, uma forma de autodefesa que é substancialmente primitiva, porque é impossível hoje preservar a própria identidade sem estar no grande tabuleiro de xadrez do mundo.

Como manter isso?

A palavra-chave é o diálogo, que deve ser usado contra a torpeza e o medo do novo. Eu gosto de usar esta expressão: ou adotar o duelo, onde vence quem tiver a arma mais forte, ou o dueto, que na música é, por exemplo, baixo e soprano capazes de se harmonizar. E as religiões não devem empenhar-se em fazer guerras, mas em estabelecer isso, uma arte muito difícil.

Em breve haverá mudança na cabeça da diocese. Que características deve ter o novo Arcebispo?

Deverá ser uma presença capaz de inovar constantemente. Deverá estar ciente que a nossa é uma sociedade cada vez mais secular, e esta internacionalidade tem cores diferentes. Resumo com um verbo: deve ser capaz de inervar.

Em que sentido, Eminência?

Imaginemos uma folha e olhemo-la à luz do sol: é composta por uma rede, a nervura, e pelo tecido conjuntivo que é a parte dominante, isto é, a cidade laica e secular. O bispo de uma metrópole como Milão tem essa difícil e exigente tarefa: deverá ser capaz de inervar, tendo em conta ser nervo e, portanto, minoria. A Igreja do próximo arcebispo será uma espécie de espinho na carne, que estimule a solidariedade na sociedade e que coloque as grandes questões morais, religiosas e existenciais.

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