Para o pesquisador a questão central da soberania brasileira em IA não está em requerer acesso ao que nos é negado, mas em como seremos capazes de construir nossas próprias infraestruturas
Na tragédia grega, dá-se o nome de estásimo à ode que se canta em coro entre os episódios de uma peça e serve para denotar o que seria o sentimento moral ou cívico da população. Em Antígona, de Sófocles, há um verso no qual se cantam as maravilhas do mundo e o homem como a maior delas. Na tradição ocidental, a palavra "deinón" foi vertida por "maravilha", mas há um equívoco nisso. "Deinón não significa maravilha. Designa, simultaneamente e numa só palavra, o que admira e o que aterroriza — o prodigioso e o tremendo, aquilo diante do qual o espanto é também pavor. É uma palavra de dupla face, e as duas faces são inseparáveis", explica Ricardo da Silva Kaminski, em entrevista por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
"O objeto que provoca o espanto admirado-e-aterrorizado não é o mesmo em todas as épocas; ele se desloca conforme o desenvolvimento das forças produtivas. O que hoje ocupa a função cosmogônica do espanto não é a máquina que move a matéria — a locomotiva já não nos assombra —, é a máquina que produz linguagem, inferência, descoberta. A inteligência artificial é o deinón da nossa época", descreve. "O terror do nosso deinón não é o de sermos destruídos pela máquina; é o de sermos deixados de fora dela. E esse deslocamento do medo — do medo escatológico da máquina rebelde ao medo concreto da exclusão do acesso — é o que a diretiva torna, por um instante, impossível de ignorar", complexifica.
Na verdade, o que está em jogo é superar o sofisma da técnica, que transforma a capacidade técnica de um agente em uma espécie de imperativo moral prodigioso, no qual quem detém determinada técnica a dispõe sem levar em conta nenhum projeto civilizatório. "É sofisma porque desliza, sem aviso, por uma sequência de três degraus que não se sustentam: da constatação de uma capacidade técnica, salta para a atribuição de uma superioridade moral; e, desta superioridade presumida, salta para a justificação de um privilégio. Quem sabe fazer o prodígio, conclui-se, é melhor; e, por ser melhor, tem o direito de reservá-lo. Cada passagem é ilegítima — a capacidade técnica nada diz sobre o mérito moral, e o mérito moral, ainda que existisse, não fundaria privilégio de acesso —, mas encadeadas elas produzem um efeito de evidência que dispensa a demonstração", explica o entrevistado.
"O deinón do nosso tempo é a inteligência artificial de fronteira — a máquina que produz cognição —, e o seu polo de terror, o que a maravilha encobre, não é a ameaça de que ela nos destrua, mas a certeza, agora inscrita em ato de governo, de que ela nos será racionada conforme o passaporte que carregamos", complementa. "Se o mecanismo do desapossamento é a inscrição de uma ordem de poder na infraestrutura da cognição, a resposta a ele é a contrainscrição — a capacidade de um público soberano inscrever, na sua própria infraestrutura institucional e técnica, uma ordem que não seja mera tradução da ordem do centro. É nesse ponto, e só nesse, que a soberania epistêmica deixa de ser palavra de ordem e adquire conteúdo preciso: ela é a soberania sobre a inscrição", propõe.
Esta é a segunda parte da entrevista com Ricardo Kaminski. A Parte I pode ser lida em Colonialismo de dados: a atual revolução industrial demarca uma nova fronteira do pensamento, clicando aqui.
Ricardo da Silva Kaminski (Foto: Reprodução LinkedIn)
Ricardo da Silva Kaminski é doutor em Ciências Sociais — Estudos Comparados sobre as Américas pela Universidade de Brasília — UnB, com formação complementar em Ciência de Dados e Inteligência Artificial. Dedica-se à interseção entre governança algorítmica, sociologia econômica e economia política da técnica, com expertise em monitoramento e avaliação de políticas públicas. Atua como consultor nacional sênior de inteligência artificial no Ministério da Saúde e como arquiteto de inteligência artificial, estratégia e cibernética organizacional para os setores público e privado.
IHU – O que são sistemas criptoeconômicos e quais suas diferenças para o nosso PIX?
Ricardo da Silva Kaminski – A pergunta me leva de volta ao terreno em que forjei os instrumentos que venho aplicando à inteligência artificial, e aproveito para explicá-lo, porque a diferença entre um sistema criptoeconômico e o PIX ilumina, por contraste, o que está em jogo em ambos. Devo uma palavra sobre a origem desses instrumentos. Eles vêm da minha tese de doutorado, em que estudei ecossistemas criptoeconômicos — Bitcoin, Ethereum e outros — não pelo seu interesse financeiro, que não é o meu, mas como laboratório de uma questão mais geral: a de como dispositivos algorítmicos não se limitam a descrever mercados, mas os constituem. Foi ali que desenvolvi o aparato que hoje transponho para a inteligência artificial: a leitura performativa dos dispositivos, a economia ciborgue como chave da articulação entre valor e poder inscrita em código, a tensão triádica, e um método — o rastreamento de processos aplicado a repositórios de código, às junções críticas, à dependência de trajetória — que me permitiu tratar disputas sociotécnicas não como discurso, mas como algo que se materializa em software versionado. A criptoeconomia foi o campo onde esse método se provou; a inteligência artificial é o campo onde ele se revela ainda mais fecundo. Menciono isso não por autobiografia, mas porque a resposta à sua pergunta depende de entender que o PIX e o Bitcoin, por mais distantes que pareçam, respondem à mesma pergunta política — quem governa o dinheiro — por caminhos que são exatamente opostos.
Um sistema criptoeconômico é, na sua definição mais rigorosa, um arranjo que substitui a autoridade central por consenso distribuído. O que uma instituição financeira tradicional realiza pela confiança numa autoridade — o banco que registra que a quantia saiu de uma conta e entrou noutra, o banco central que garante a moeda —, um sistema criptoeconômico realiza por um protocolo: um conjunto de regras inscritas em código que faz uma rede de participantes, sem confiança mútua e sem autoridade comum, convergir para um registro único e partilhado do que aconteceu. A palavra criptoeconomia condensa os seus dois pilares. De um lado, a criptografia, que garante a integridade e a autenticidade dos registros sem precisar de um garantidor central. De outro, a economia — mais precisamente, o desenho de incentivos —, que faz com que seguir a regra seja, para cada participante, mais vantajoso do que burlá-la, de modo que a honestidade coletiva emerge do interesse individual, e não de uma imposição de cima. O ponto que a minha tese demonstrou, e que importa reter, é que esse protocolo não é uma peça técnica neutra. Ele é a inscrição de uma teoria — de uma visão de mundo — na infraestrutura. O algoritmo de consenso do Bitcoin materializa uma ontologia econômica precisa, a do dinheiro como coisa escassa e apolítica, subtraída ao arbítrio do soberano; o do Ethereum inscreve outra, a do contrato programável. São, em cada caso, cosmovisões econômicas convertidas em código executável. É por isso que digo que esses sistemas performam: eles não descrevem um mercado preexistente, eles fabricam o mercado que dizem apenas registrar.
O PIX responde à mesma pergunta — como organizar a circulação do dinheiro numa sociedade — pela via diametralmente oposta, e é nesse contraste que a sua natureza aparece. O sistema criptoeconômico nasce de uma desconfiança fundadora em relação ao Estado e à autoridade central: a sua razão de ser é dispensar o soberano, dissolver a autoridade em protocolo, tornar o registro do dinheiro imune a qualquer poder que o pudesse controlar ou censurar. O PIX faz o inverso. É infraestrutura pública, operada pelo banco central — quer dizer, pelo próprio soberano monetário. Onde a criptoeconomia dissolve a autoridade, o PIX a afirma; onde uma torna o dinheiro apátrida e sem dono, o outro o ancora numa instituição estatal soberana. E os resultados dessa afirmação da autoridade pública são concretos, e importa enunciá-los porque desmentem um preconceito difundido, o de que só o mercado privado inova e o Estado apenas atrapalha: o PIX é gratuito para a pessoa física, tem tarifas contidas para a pessoa jurídica, é utilizado por praticamente toda a população adulta do país, e movimenta cifras da ordem de dezenas de trilhões de reais ao ano — mais do que a soma dos cartões, boletos e transferências que o antecederam. É uma capacidade autóctone, pública e bem-sucedida. São, portanto, duas respostas opostas à mesma pergunta política: uma que soluciona a governança do dinheiro pela dissolução da soberania em código; outra que a soluciona pela afirmação da soberania pública numa infraestrutura estatal. Guardem essa oposição, porque ela retornará adiante — quando se tratar de entender por que o PIX se tornou alvo, e por que ele é, ao mesmo tempo, o modelo de uma saída.
Mas o que me interessa transpor da criptoeconomia para a inteligência artificial não é o objeto — o dinheiro programável —, e sim o instrumento que me permitiu ler as suas crises. Chamei esse instrumento de tensão triádica, e é ele que responde à pergunta que ficou em aberto quando falávamos do caso Fable: por que a configuração se rompeu quando se rompeu, e nos termos exatos em que se rompeu. Sustento que toda configuração sociotécnica desse tipo é percorrida por um conflito estrutural e irresolúvel entre três vetores que nenhum arranjo consegue otimizar ao mesmo tempo. E insisto na palavra motor, porque a tensão não é um traço entre outros da configuração — é a força que a instabiliza e que produz, como efeito necessário, as suas reconfigurações. Os paradoxos que se observam à superfície — a abertura que se fecha, a promessa fundadora contradita pela realidade que dela decorre — não são causas; são efeitos dessa tensão. Ela é a gramática; o paradoxo é a frase que ela gera. Nos ecossistemas criptoeconômicos, os três vetores eram a integridade do ecossistema, a dominância de mercado e a adaptação ao comportamento dos agentes; a história de cada rede — as suas cisões, os seus forks, as suas capturas — podia ser lida como a história da gestão dessa tensão em pontos sucessivos de ruptura.
Transponho agora os três vetores para o novo objeto, e o transporte não é mecânico: cada vetor se inflexiona ao mudar de terreno. O vetor da integridade do ecossistema torna-se, na inteligência artificial de fronteira, o vetor da contenção: a exigência de que o sistema não se converta em arma, de que a capacidade perigosa seja domada — é o vetor que a justificativa estatal invoca. O vetor da dominância de mercado torna-se o da hegemonia cognitiva: a pressão por difundir o modelo, capturar mercado, valorizar o ativo, ocupar a fronteira antes do rival. E o vetor da adaptação ao comportamento dos agentes torna-se o do acesso: a pressão material das centenas de milhões de usuários, dos parceiros, dos funcionários, de um mundo que requer operar a ferramenta e cuja atividade, ela mesma, constitui o valor do sistema. A diretiva Fable, lida por esse instrumento, é um ato de gestão da tensão triádica num ponto de ruptura. Os três vetores tornaram-se agudamente incompatíveis, e a configuração bifurcou sacrificando um deles — o do acesso, recortado segundo a linha da nacionalidade.
E é aqui que a incongruência que examinei antes encontra o seu lugar exato na arquitetura do argumento — porque a tensão triádica não apenas explica que a configuração se rompeu, explica como um vetor se disfarça de outro. A invocação da contenção — a segurança — não se sustenta isoladamente, como demonstrei: a capacidade existe nos concorrentes, e contê-la num único fornecedor não a contém. Disso se segue que o vetor da contenção não pode ser a força real da medida. Ele veste outro vetor. A força que efetivamente comanda a bifurcação é a da hegemonia — a reserva da vantagem cognitiva —, e ela se apresenta trajada com as insígnias da contenção porque é nesse traje que se torna dizível, legítima, imune à objeção. Dizer 'reservo esta vantagem para mim' é inconfessável; dizer 'contenho este perigo para todos' é nobre. A tensão triádica é o que permite ver que o segundo enunciado é a máscara do primeiro, e por que a máscara é necessária.
Há, por fim, um deslocamento na transposição que a honestidade analítica exige nomear, pois é nele que reside a originalidade do que proponho — e a razão de a inteligência artificial não ser mera repetição do que a criptoeconomia já ensinara. Nos ecossistemas criptoeconômicos, a tensão triádica era endógena: os três vetores disputavam no interior do próprio ecossistema, e a bifurcação era arbitrada pelos atores internos à rede — os desenvolvedores, os mineradores, as comunidades. No caso da inteligência artificial, o árbitro da tensão não é interno ao mercado: é o Estado-nação, que decide a bifurcação.
Mas — e o conceito de instituição híbrida, que expus antes, preparou esta conclusão — esse árbitro não é externo à configuração; é um ator que sempre lhe foi coinscrito e que a junção crítica torna manifesto e dominante. A tensão triádica não se aplica idêntica ao novo objeto: ela se desloca de endógena, arbitrada pelo mercado, a arbitrada por um vetor estatal que sempre foi interno à configuração. É esse deslocamento — a tríade decidida por uma agência estatal coconstituinte — que faz do caso da inteligência artificial não a réplica do que já se sabia sobre a criptoeconomia, mas a sua extensão a um patamar em que o entrelaçamento entre capital e Estado se mostra mais profundo, e mais consequente, do que em qualquer configuração que eu tivesse estudado antes.
IHU – Por que o PIX virou alvo do governo dos Estados Unidos?
Ricardo da Silva Kaminski – Para responder a essa pergunta, preciso descer à camada mais funda do argumento — a camada econômica —, e o caso oferece aqui uma vantagem rara para o analista: essa camada não precisa ser inferida, pois consta dos balanços. Mas devo chegar a ela por um rodeio, começando por uma pergunta de aparência ingênua, dessas que às vezes são o método mais cortante. Por que uma empresa sustentaria, ano após ano, um serviço cujo custo excede a receita? Pois é esse o caso das empresas de inteligência artificial de fronteira. Elas despendem, no momento, mais de uma unidade monetária por unidade faturada; consomem capital em cifras de bilhões; sustentam-se não pela margem operacional, que é negativa, mas pela injeção contínua de investimento e pela promessa de valor futuro. O observador apressado diagnosticaria irracionalidade, exuberância, bolha. Sustento o contrário: a operação é perfeitamente racional, desde que se compreenda que a mercadoria à venda não é o serviço. O serviço é a isca; o produto é o ativo.
E aqui o caso oferece uma clareza quase didática, que dispensa a especulação. No primeiro trimestre de 2026, as duas corporações que são, ao mesmo tempo, as principais investidoras e as fornecedoras de infraestrutura da empresa de inteligência artificial em questão divulgaram os seus resultados. Revelou-se então que mais da metade do lucro antes de impostos de uma delas, e cerca de 46% do lucro recorde da outra, não procederam da venda de coisa alguma — nem de publicidade, nem de serviços de nuvem, nem de qualquer produto entregue a qualquer cliente. Procederam da reavaliação patrimonial das suas participações na empresa de inteligência artificial. Registro o fato com o peso que ele merece, porque é contraintuitivo e decisivo: a maior parte do lucro trimestral dessas gigantes foi gerada não pelo que produziram e venderam, mas pela marcação a mercado de um ativo que detêm. O valor da inteligência artificial de fronteira, neste momento histórico, não se realiza como receita de serviço — realiza-se como valorização de um ativo cujo preço ascende a cada rodada de investimento e a cada reavaliação contábil. O prejuízo operacional não é um acidente a caminho da lucratividade; é o custo de manter em ascensão o preço do ativo, que é onde o valor de fato se produz.
É precisamente o que Kean Birch designa por assetização. O capitalismo tecnocientífico contemporâneo, argumenta ele, sustenta-se cada vez menos pela produção e venda de mercadorias, e cada vez mais pela conversão de coisas — infraestruturas, dados, conhecimento, capacidades — em ativos, isto é, em propriedades capitalizadas cujo valor deriva da expectativa de fluxos futuros de renda. E a renda, nesse regime, nasce de uma operação determinada: a restrição do acesso. Um ativo rende enquanto o seu acesso é controlado, escasso, refratário à réplica; um recurso ao qual todos têm acesso livre não rende renda a ninguém. Vejamos, sob essa luz, o que a diretiva Fable realiza. Ela não destrói valor ao desativar o modelo — ela constitui valor. Ao tornar a capacidade escassa por decreto, acessível a uns e interdita a outros conforme a nacionalidade, a diretiva é um ato de assetização operado pelo Estado: converte uma capacidade que tendia à difusão num ativo cuja renda nasce justamente da restrição que o Estado impõe. E o faz no momento de máxima sensibilidade. Onze dias antes daquela carta, a empresa protocolara, de modo confidencial, o pedido de abertura de capital. O ato estatal incide sobre o ativo no umbral exato da sua precificação pública — quer dizer, no instante em que a restrição do acesso mais diretamente se traduz em preço. Reconheço nessa figura o paradoxo do sucesso que eu havia descrito nos ecossistemas criptoeconômicos, agora em escala geopolítica: a configuração que alcança tamanho êxito e tamanha centralidade que é recapturada — pelo Estado, pela financeirização — no instante mesmo da sua consolidação. O êxito é a condição da captura.
A literatura crítica oferece, para pensar o papel do Estado nessa constituição do ativo, um instrumento que convém manejar com discernimento, porque a sua versão corrente fica aquém do que o caso exige. Mariana Mazzucato desmistificou, com vigor, o mito do setor privado como fonte autônoma da inovação. Demonstrou que as tecnologias que tornam inteligentes os artefatos do nosso tempo — a internet, o GPS, as interfaces, os próprios fundamentos do aprendizado de máquina — nasceram, em grande parte, de investimento público de risco, e que o arranjo vigente faz o Estado socializar os riscos da inovação enquanto o capital privado lhe privatiza os retornos. O diagnóstico é justo e, no caso da inteligência artificial, diretamente aplicável: a fronteira que agora se reserva ao nacional e se nega ao estrangeiro foi constituída sobre uma base de investimento público, de demanda estatal e de ciência custeada coletivamente. O ativo cujo retorno se quer reservar é, em parte substantiva, fruto de risco socializado.
Mazzucato, porém, lê esse arranjo como disfunção corrigível — como um desequilíbrio que bastaria reequilibrar fazendo o Estado capturar a sua parte justa do retorno, por participação acionária, licenciamento, condicionalidades. É aqui que tomo distância e proponho rebaixá-la de moldura a sintoma. O caso Fable não exibe um Estado que falhou em capturar a sua parte e que um bom desenho institucional corrigiria. Exibe um Estado que está capturando a sua parte — e capturando-a não como dividendo distributivo ao cidadão, mas como vantagem geopolítica reservada, sob a forma do controle de exportação. Socializar o risco e em seguida projetar o campeão nacional não é, aqui, distorção a corrigir; é o funcionamento normal de um Estado que é, ele próprio, a forma pela qual o capital nacional conduz, por outros meios, a sua guerra econômica. Não há um Estado de um lado e um capital de outro, em negociação. Há capital que se faz Estado para travar a disputa comercial sob a forma da razão de Estado. A evidência que Mazzucato reúne, lida sem o pressuposto reformista, desmente o próprio reformismo: o que ela descreve como anomalia a corrigir é a regra a desvelar.
Conduzido a essa leitura, o vetor que na resposta anterior chamei de hegemonia revela enfim a sua natureza. Ele não é um vetor do capital privado que o Estado venha, desde fora, temperar. É, desde a origem, uma unidade: o Estado central é o vetor de hegemonia do capital nacional na escala geopolítica. E essa unidade não é conjectura que o caso Fable isoladamente sustentaria; é um padrão que se deixa ler numa série de episódios cuja convergência — e insisto no termo convergência, distinto de coordenação comprovada — desenha o mecanismo. E é exatamente aqui que chego ao PIX, e à resposta direta da sua pergunta.
Tomo o PIX como o caso que nos concerne mais de perto e que é, dos disponíveis, o mais límpido de documentar. Em meados de 2025, o representante de comércio dos Estados Unidos instaurou uma investigação sobre as práticas brasileiras em comércio digital e meios de pagamento eletrônico, e o documento que dela resultou faz do PIX objeto explícito e reiterado de censura, qualificando-o como arranjo que desfavoreceria injustamente as empresas norte-americanas — a acusação central sendo a de que o banco central acumula os papéis de regulador e de operador do sistema, e de que a obrigatoriedade e a proeminência do PIX prejudicariam os concorrentes privados estrangeiros. Detenho-me sobre o que o PIX é e sobre o que essa censura revela. O PIX, como expus antes, é infraestrutura pública, gratuita para a pessoa física, usada por quase toda a população, movimentando trilhões — é, em síntese, aquela capacidade autóctone bem-sucedida que, na descrição clássica da dependência, a periferia não deveria ser capaz de construir, pois a sua função designada é consumir o produto do centro, não produzir o próprio. As empresas norte-americanas de pagamento que o PIX deslocou viram evaporar-se a renda de intermediação que extraíam de cada transação — e o aparato estatal do centro mobilizou-se, com o vocabulário da concorrência desleal, contra essa infraestrutura. Note-se a economia do gesto, e é ela que responde à sua pergunta: aqui não comparece sequer a folha de figueira da segurança nacional que ainda se usara no caso Fable. O PIX é o caso desnudado — um ativo público periférico que funcionou bem demais, que subtraiu renda ao capital do centro, e que por isso mesmo se fez alvo. É o desapossamento operando sobre infraestrutura soberana, sem disfarce algum. O PIX virou alvo, em suma, não apesar de ser bem-sucedido, mas exatamente por sê-lo: porque uma capacidade pública periférica que funciona é, para a estrutura do desapossamento, uma anomalia a ser corrigida.
Junto a esse caso central, como reforço, a situação venezuelana, em que a relação entre os interesses petrolíferos do centro e a pressão sobre um Estado periférico produtor desenhou, ao longo de 2025 e do início de 2026, uma sequência cujo efeito objetivo — a reabertura das reservas às grandes companhias do centro, o controle das receitas — é documentável, ainda que as justificativas declaradas se vistam de outros vocabulários, o do combate ao narcotráfico, o da restauração democrática. Mantenho, quanto a esse caso, o rigor que o método impõe: afirmo o efeito estrutural, não a intenção única; o interesse petrolífero coexiste na cena com outras razões declaradas, e seria leviano reduzir a sequência a uma causa só. Mas a convergência dos casos — o prodígio cognitivo racionado por nacionalidade, a infraestrutura de pagamento soberana acusada de desleal, o petróleo periférico reaberto ao capital do centro — desenha um mecanismo único operando sob vocabulários diversos: segurança, concorrência, democracia. Em cada domínio, o Estado do centro mobiliza o léxico que ali torna a ação dizível; a função permanece constante. O PIX virou alvo porque, sob o vocabulário da concorrência leal, opera a mesma função que, sob o vocabulário da segurança, operou contra o Fable, e que, sob o vocabulário da democracia, opera sobre o petróleo venezuelano: a de reservar ao capital do centro uma vantagem que a periferia, ao construir capacidade própria, ameaçava dissolver.
IHU – Qual é o deinón — aquilo que nos maravilha e atemoriza — de nosso tempo?
Ricardo da Silva Kaminski – A pergunta já traz, na sua própria formulação, a chave que eu levaria parágrafos a introduzir, e agradeço por isso, pois me permite ir direto ao ponto. Ela nomeia o deinón como aquilo que a um só tempo nos maravilha e nos atemoriza — e é exatamente essa dupla face, esse par indissociável de admiração e pavor, que a tradição cuidou de dissolver, e cuja dissolução é, ela mesma, uma operação de poder. Para responder, preciso fazer um recuo histórico, sem o qual a cena contemporânea perde a densidade. Desço, com Álvaro Vieira Pinto, até a tragédia grega e até um equívoco de tradução que ele soube ler como sintoma de uma operação ideológica.
No primeiro estásimo da Antígona de Sófocles, o coro entoa um verso que a tradição consagrou em forma domesticada: dir-se-ia que muitas são as maravilhas do mundo, e que nenhuma supera o homem em maravilha. A palavra ali vertida por maravilha é deinón. O argumento de Vieira Pinto, que faço meu, é que essa tradução amputa o termo. Deinón não significa maravilha. Designa, simultaneamente e numa só palavra, o que admira e o que aterroriza — o prodigioso e o tremendo, aquilo diante do qual o espanto é também pavor. É uma palavra de dupla face, e as duas faces são inseparáveis: o mesmo objeto que suscita a admiração suscita o terror, e não há como reter uma sem a outra sem trair o sentido. Verter deinón por maravilha é decepar metade do seu corpo — o polo do terror — e reter apenas o polo da admiração. E essa decepação, sustenta Vieira Pinto, não é casual nem inocente: é ideológica. Esvaziar o terror do deinón e conservar somente o encantamento é a operação mesma que converte a obra técnica do homem em puro objeto de celebração — em maravilha sem sombra, em prodígio sem preço. Deixo, por isso, o termo sob suspeita: quando eu disser maravilha, será para nomear a ideologia que decepa o terror, jamais para subscrevê-la.
Vieira Pinto historiciza esse maravilhamento, e é a historicização que importa ao nosso caso, porque é ela que permite localizar o deinón do nosso tempo. O objeto que provoca o espanto admirado-e-aterrorizado não é o mesmo em todas as épocas; ele se desloca conforme o desenvolvimento das forças produtivas. Houve o tempo em que o objeto do deinón era a natureza — o mar que se sulcava e temia, a tempestade, a terra, as forças diante das quais o humano se descobria pequeno. Houve, em seguida, o tempo em que o objeto do espanto passou a ser a própria obra do homem: a produção material do mundo industrial, as máquinas, as fábricas, as usinas, diante das quais a sociedade técnica se prosternou como diante de um sagrado novo. A função que a natureza ocupara — a de fonte cosmogônica do espanto, a de origem diante da qual nos assombramos — migrou para a produção humana. E aqui dou o passo que o tempo de Vieira Pinto não lhe exigia, mas que o nosso exige: na era contemporânea, o objeto do deinón desloca-se mais uma vez, da produção material para a produção cognitiva. O que hoje ocupa a função cosmogônica do espanto não é a máquina que move a matéria — a locomotiva já não nos assombra —, é a máquina que produz linguagem, inferência, descoberta. A inteligência artificial é o deinón da nossa época. É diante dela que a sociedade contemporânea experimenta, hoje, aquela mistura de reverência e temor que outrora dedicou à natureza e depois à indústria.
A diretiva Fable é, nesses termos, o instante em que o polo do terror — aquele que a tradução domesticada e o discurso celebratório haviam amputado — reaparece sem véu. Mas importa precisar de que terror se trata, porque a resposta corrente erra o alvo. Não é o terror da máquina perigosa, da inteligência insubordinada, do roteiro apocalíptico que povoa o imaginário e os debates sobre risco existencial. É um terror mais prosaico e muito mais revelador: o terror de que lhe seja negado o acesso. O que a reconfiguração expõe não é que a máquina é perigosa — é que a máquina é valiosa ao ponto de ser reservada, e que a reserva tem um destinatário preciso: o estrangeiro, o vassalo, aquele a quem se nega. O terror do nosso deinón não é o de sermos destruídos pela máquina; é o de sermos deixados de fora dela. E esse deslocamento do medo — do medo escatológico da máquina rebelde ao medo concreto da exclusão do acesso — é o que a diretiva torna, por um instante, impossível de ignorar.
Vieira Pinto nomeou o mecanismo pelo qual o polo do terror se mantém oculto e o polo do encantamento se põe a serviço da dominação. Chamou-o de sofisma da era tecnológica. O principal desses sofismas consiste em revestir a técnica de um valor moral positivo — em fazer crer que a sociedade capaz de produzir tais prodígios só pode ser, por isso mesmo, moralmente superior, e portanto guardiã legítima daquilo que produz. É sofisma porque desliza, sem aviso, por uma sequência de três degraus que não se sustentam: da constatação de uma capacidade técnica, salta para a atribuição de uma superioridade moral; e, desta superioridade presumida, salta para a justificação de um privilégio. Quem sabe fazer o prodígio, conclui-se, é melhor; e, por ser melhor, tem o direito de reservá-lo. Cada passagem é ilegítima — a capacidade técnica nada diz sobre o mérito moral, e o mérito moral, ainda que existisse, não fundaria privilégio de acesso —, mas encadeadas elas produzem um efeito de evidência que dispensa a demonstração.
E sustento que a invocação da segurança nacional, no caso Fable, é a forma contemporânea exata desse sofisma. Já não se proclama, como nas eras precedentes, a superioridade civilizatória que mereceria o monopólio do prodígio — esse vocabulário tornou-se indizível. Proclama-se, em seu lugar, a responsabilidade: somos os que sabem conter o risco, os únicos suficientemente sérios e prudentes para manejar o perigoso. O invólucro deslocou-se da superioridade civilizatória à competência securitária; mas a função permanece rigorosamente idêntica — revestir de valor moral a reserva de um privilégio, e fazer com que a negação do acesso ao estrangeiro se apresente não como aquilo que é, protecionismo cognitivo, mas como prudência diante do perigo. O sofisma, atualizado, é o que permite que a interdição se vista de zelo, e que a reserva de uma vantagem se apresente como um serviço prestado à segurança de todos.
E Vieira Pinto entrega, por fim, a peça que liga o sofisma à geografia do poder — e é essa peça que traz a sua pergunta de volta ao nosso chão, o da periferia. A inovação de fronteira, observa ele, é desenvolvida nos países centrais, pelas suas elites dominantes, e à periferia resta incorporar-se à era tecnológica em posição subordinada: consumidora dos produtos do centro, imitadora do que já se estabeleceu, operadora do que já se tornou obsoleto, nunca criadora da vanguarda. O termo que ele emprega para essa condição é severo, e eu o adoto sem atenuá-lo: o da vassalagem. A periferia é mantida como vassalo técnico-científico, e a tecnologia de ponta lhe é negada, ou concedida em doses racionadas e empacotadas no envoltório ideológico que faz a subordinação parecer natural, ou até generosa. Detenho-me sobre a precisão dessa formulação diante do nosso caso, porque ela antecipa em meio século a estrutura exata da diretiva: a tecnologia de fronteira negada à periferia, ou concedida em doses racionadas sob envoltório ideológico. O que em Vieira Pinto era ainda um mecanismo difuso — a periferia que, por dependência estrutural, consome o defasado — converte-se, em 2026, em ato administrativo explícito e nominal: o estrangeiro juridicamente proibido de operar a fronteira. A vassalagem deixou de necessitar do sofisma que a naturalizava; tornou-se diretiva subscrita. É a dependência técnico-científica que Vieira Pinto descreveu, elevada de condição estrutural latente a interdição de direito positivo. E é essa a resposta que devolvo à sua pergunta: o deinón do nosso tempo é a inteligência artificial de fronteira — a máquina que produz cognição —, e o seu polo de terror, o que a maravilha encobre, não é a ameaça de que ela nos destrua, mas a certeza, agora inscrita em ato de governo, de que ela nos será racionada conforme o passaporte que carregamos.
IHU – Como podemos superar a vassalagem cognitiva e o colonialismo digital?
Ricardo da Silva Kaminski – Chego à pergunta decisiva, e devo começar por recusar a resposta que se apresenta primeiro, porque ela é uma armadilha — a mais sedutora de todas. Diante do desapossamento, do acesso negado, do estrangeiro proibido de operar a fronteira, a reação imediata é reivindicar acesso: exigir que o prodígio negado seja concedido, que a cláusula de nacionalidade caia, que o estrangeiro seja readmitido ao uso. Sustento que essa reivindicação, por mais justa que se afigure, aceita o termo fundamental da relação que pretende contestar. Reivindicar acesso ao prodígio alheio é confirmar-se dependente do prodígio alheio — é assumir-se vassalo no gesto mesmo de pedir um tratamento menos vassálico. Quem pede para ser admitido à mesa alheia reconhece, no ato de pedir, que a mesa não é sua. A resposta estrutural ao desapossamento cognitivo não é o acesso; é a capacidade. Não o prodígio concedido, mas o prodígio próprio. E aqui preciso ser rigoroso sobre o que essa capacidade significa e sobre o que ela não significa, porque entre a formulação ingênua e a formulação precisa vai toda a diferença.
Antes disso, porém, devo explicitar o instrumento conceitual que sustenta a saída, porque sem ele a resposta seria apenas mais uma exortação à soberania — palavra que hoje se gasta de tanto ser invocada sem conteúdo. Se, como argumentei ao longo desta conversa, a inteligência artificial de fronteira é uma instituição híbrida — e se as instituições, no fundo, são ordens de poder traduzidas em infraestrutura, em regra inscrita —, então há uma propriedade dessa tradução que o caso obriga a explorar, e na qual reside a única saída não ilusória. A inscrição corta nos dois sentidos. O que foi inscrito por um mercado e por um Estado estrangeiros pode, em princípio, ser reinscrito por um público soberano. À inscrição que vem de fora e de cima corresponde a possibilidade de uma contrainscrição que venha de dentro e de baixo. Este é o par que proponho: se o mecanismo do desapossamento é a inscrição de uma ordem de poder na infraestrutura da cognição, a resposta a ele é a contrainscrição — a capacidade de um público soberano inscrever, na sua própria infraestrutura institucional e técnica, uma ordem que não seja mera tradução da ordem do centro. É nesse ponto, e só nesse, que a soberania epistêmica deixa de ser palavra de ordem e adquire conteúdo preciso: ela é a soberania sobre a inscrição.
Feita essa distinção, devo demarcar com todo o cuidado o que a soberania epistêmica é e o que ela não é, porque é aqui que a formulação ingênua naufraga e arrasta consigo o argumento inteiro. Soberania epistêmica não é autarquia cognitiva. Eu não prometo, e seria desonesto prometer, uma indústria nacional de inteligência artificial de fronteira que substituísse a do centro da noite para o dia, que dispensasse o cômputo, o capital e os dados que estão, hoje, esmagadoramente concentrados do outro lado. A assimetria material é real e não se dissolve por decreto conceitual. Construir capacidade autóctone de fronteira esbarra numa concentração de poder computacional que nenhuma retórica soberanista faz desaparecer. A soberania de que falo é, antes de tudo, um instrumento epistêmico e político: a reorientação de para onde se olha, de quem define o que conta como real, de qual cauda da distribuição se reconhece como própria. Não é, num passe de mágica, independência infraestrutural imediata. Não proponho a ilusão de uma autarquia cognitiva, mas duas coisas conjugadas: a recusa do termo que nos é oferecido — a recusa de reduzir a questão ao acesso — e a aposta de longo prazo na construção da capacidade. E aqui está o núcleo da minha divergência com a tradição decolonial que muitas vezes ocupa esse debate: a saída não é o resgate de epistemologias ancestrais como se bastasse reafirmá-las no plano do discurso. É a construção de capacidade técnico-científica material — que em Álvaro Vieira Pinto é, precisamente, produtiva, ancorada nas forças produtivas, e não meramente simbólica. Não há soberania epistêmica sem soberania sobre a produção material da técnica; a primeira, sem a segunda, é retórica que consola e não emancipa.
E isso me conduz ao papel do Estado, que é a questão prática em que tudo isso se decide, e sobre a qual não tenho a menor timidez. Não haverá superação da vassalagem cognitiva sem o Estado. Digo-o sem rodeios, porque o mito de que a inovação brota espontaneamente do mercado privado é, ele próprio, uma peça do sofisma que descrevi: quem o repete já concedeu que a periferia deve esperar do mercado o que só o Estado, na história real do desenvolvimento, jamais deixou de prover. Mas é preciso ser preciso sobre qual Estado, e sobre qual arranjo entre Estado e capital, porque aqui não prego nem o estatismo integral nem o seu oposto liberal. Penso num Estado indutor, e não executor — um Estado que estrutura o mercado, que induz e protege a capacidade nacional, sem pretender produzir tudo por suas próprias mãos. O modelo não é o do capitalismo de Estado que tudo estatiza, nem o do laissez-faire que tudo entrega ao mercado, mas algo que se situa entre o que a China faz e o que a Europa ensaia: infraestrutura pública crítica — a camada soberana dos dados sensíveis, da nuvem, da capacidade computacional que não se pode alugar do centro sem entregar-lhe as chaves — combinada com capacidade produtiva mista, pública e privada nacional, estrategicamente posicionada ao longo da cadeia, das terras raras aos semicondutores às soluções de inteligência artificial. A superação da vassalagem passa por termos, sim, grandes empresas privadas nacionais na fronteira — mas empresas que emergem do estímulo, da política e da estruturação de mercado conduzidos pelo Estado, e não da espera de que o mercado, sozinho, as gere, porque o mercado sozinho, na periferia, gera consumo do produto do centro, não produção da fronteira própria.
Devo, porém, enfrentar de frente uma objeção que o meu próprio argumento suscita, e não escamoteá-la, porque enfrentá-la é o que separa a análise séria da propaganda desenvolvimentista. Se eu demonstrei, ao falar do PIX e da diretiva Fable, que o Estado do centro é a forma pela qual o capital nacional trava a sua guerra econômica — se o Estado-mais-campeão-nacional é justamente o mecanismo do desapossamento que denunciei —, então como proponho, para a periferia, um Estado indutor de campeões nacionais sem propor a mera réplica, do lado de cá, da estrutura que condenei do lado de lá? A pergunta é legítima, e a resposta está na assimetria de posição, que é tudo. O mesmo gesto tem sentido oposto conforme o lugar que se ocupa na relação entre centro e periferia. Quando o centro reserva o ativo, ele subtrai a autonomia do outro: fecha um acesso que estava aberto, mantém o vassalo na condição de vassalo. Quando a periferia constrói capacidade própria, ela conquista a sua autonomia: abre, para si, o que lhe estava fechado. Não é a forma do gesto — Estado mais capital nacional — que o qualifica moral e politicamente; é a sua função na relação de dependência. Subtrair a autonomia alheia e conquistar a autonomia própria são operações inversas, ainda que se sirvam do mesmo material institucional. A soberania da periferia não é imperialismo às avessas, porque parte de baixo, e o que se conquista de baixo, na estrutura da dependência, é exatamente o que o de cima trabalha para impedir. Foi essa, aliás, a intuição mais dura da teoria da dependência na sua vertente crítica, a de Ruy Mauro Marini: a de que a associação subordinada ao centro não emancipa a periferia, apenas aprofunda a sua exploração — e de que a saída, portanto, não está em negociar uma vassalagem mais branda, mas em romper a lógica que produz a vassalagem. O caso Fable e o caso PIX confirmam, no terreno da técnica, aquela intuição: a periferia não é convidada a uma parceria, é alocada como categoria subordinada; e quando ensaia a autonomia, é combatida.
Encerro, contudo, sem triunfalismo, porque uma soberania proclamada sem reconhecer o que a constrange seria apenas mais um sofisma, agora de sinal periférico — e eu não teria percorrido todo este argumento para cair, no fim, no logro que denunciei no começo. Não há pureza disponível nessa saída. A periferia dispõe, para se emancipar, do mesmo material — Estado e capital — que, no centro, constitui o desapossamento. Disputa-se a estrutura com as armas da estrutura; não há um lado de fora, imaculado, de onde combatê-la. O único critério que nos resta, e é um critério suficiente ainda que não seja consolador, é o de a quem a capacidade serve e de onde ela parte — se serve à reserva de uma vantagem ou à abertura de uma autonomia, se parte do centro que subtrai ou da periferia que conquista. E adianto, porque a próxima questão o exige, que essa capacidade tem uma arquitetura de camadas: não basta operar a infraestrutura, é preciso deter o dado que por ela circula e a capacidade de inferir a partir dele — três camadas que o caso do PIX permite ver com clareza, e às quais voltarei.
Superar a vassalagem cognitiva e o colonialismo digital não é, portanto, alcançar um estado puro de soberania a salvo de toda contradição. É construir, com os instrumentos imperfeitos de que dispomos — o Estado, o capital nacional, a infraestrutura pública, a política de desenvolvimento —, uma capacidade que nos permita deixar de ser a categoria: o estrangeiro, o vassalo, a cauda apagada. É menos do que uma redenção e é muito mais do que a resignação a pedir acesso. É a diferença, afinal, entre disputar a ordem cognitiva do mundo e apenas suplicar um lugar mais confortável dentro da ordem que outros inscreveram.
IHU – Em que sentido a defesa do PIX, como sistema de movimentação financeira, se converte em uma defesa da soberania política e tecnológica do Brasil?
Ricardo da Silva Kaminski – A pergunta permite fechar o arco que venho tecendo, porque o PIX, que mobilizei antes como evidência do desapossamento, retorna agora com o sinal invertido — não mais como alvo, mas como prova. E o que ele prova é precisamente a viabilidade da saída que acabei de esboçar. Defender o PIX, sustento, não é defender um meio de pagamento mais eficiente ou mais barato, embora ele seja ambas as coisas. É defender um princípio de organização da vida técnica que se opõe, ponto por ponto, à lógica do desapossamento. Mas a soberania que o PIX encarna não é de uma peça só; ela tem três camadas, de profundidade crescente, e é preciso percorrê-las uma a uma, porque a terceira é a que conecta o PIX diretamente ao problema da inteligência artificial que discutimos até aqui.
A primeira camada é a mais visível, e é a soberania da infraestrutura: o PIX como alternativa autóctone que repatria uma renda de intermediação. Lembremos o que estava inscrito no arranjo anterior, o das bandeiras internacionais de cartão: uma regra, materializada em infraestrutura privada e estrangeira, segundo a qual cada movimento de dinheiro entre dois brasileiros pagava um pedágio a um intermediário do centro. Essa regra não era natural nem inevitável; era uma inscrição — uma ordem de poder traduzida em infraestrutura, que fazia a circulação doméstica do dinheiro passar, obrigatoriamente, por um portão cujo dono cobrava pela passagem. O PIX reescreveu essa regra. Inscreveu outra ordem: a de que a circulação do dinheiro entre cidadãos é infraestrutura pública, gratuita para a pessoa física, operada pelo soberano monetário, e não um mercado privado de pedágios. Isso é contrainscrição no sentido exato que dei ao termo — a reinscrição, por um público soberano, de uma ordem que estava inscrita por um mercado estrangeiro. É a camada que responde, no plano dos pagamentos, à pergunta da soberania operacional: quem opera a infraestrutura crítica.
A segunda camada é menos visível e mais profunda, e foi ela que a repatriação do trilho tornou possível: a soberania informacional. Ao trazer a circulação do dinheiro para dentro do banco central, o Estado brasileiro não deixou apenas de pagar pedágio — passou a deter a legibilidade do fluxo. Cada transação que antes corria pelo trilho privado estrangeiro deixava ali o seu dado, e esse dado era capital informacional de um intermediário do centro: quem paga quem, quando, quanto, em que padrão. Ao repatriar o trilho, o Estado repatriou também essa informação estratégica sobre a circulação monetária do país. E aqui é preciso ser exato sobre o que isso significa, porque toca no coração da minha tese: a inscrição não é só sobre quem opera a infraestrutura, é sobre quem enxerga através dela. Quem detém a infraestrutura detém a visão; e a visão do fluxo do dinheiro é, ela mesma, um ativo — capital cognitivo e informacional sobre a economia. É a capacidade de o Estado ver a própria economia, tornar legível para si a circulação do capital entre instituições e pessoas, coisa que, sob a intermediação privada estrangeira, lhe escapava ou lhe era vendida de volta.
A terceira camada é a mais profunda de todas, e é a que fecha o circuito desta conversa inteira, porque é o ponto em que o PIX toca a inteligência artificial. Não basta deter o dado do fluxo; é preciso deter a capacidade de inferir a partir dele — de transformar o fluxo em conhecimento acionável. E o dado do fluxo financeiro é uma das formas mais densas e estrategicamente valiosas de dado que existe: é exatamente o insumo sobre o qual a ciência de dados e a inteligência artificial identificam padrões, detectam anomalias, projetam cenários, fundamentam decisão. O que antes as empresas de cartão faziam para si — modelar o comportamento de consumo, precificar risco, extrair inteligência de mercado a partir do fluxo que intermediavam — o Estado soberano passa a poder fazer para a finalidade pública: ampliar a capacidade fiscal, porque enxergar a circulação real do dinheiro é enxergar a base tributável e coibir a evasão; fundamentar o planejamento econômico em evidência e não em estimativa defasada; calibrar a política monetária sobre a economia real observada quase em tempo real; desenhar política pública sobre padrões efetivos. Chamo a isto de soberania sobre a inferência — e é o degrau onde a defesa do PIX se revela, afinal, uma defesa da capacidade de Estado no sentido mais forte, aquele que a tradição desenvolvimentista, de Celso Furtado ao próprio Vieira Pinto, sempre soube ser a condição do desenvolvimento autônomo: não há planejamento sem a capacidade de ver e de inferir sobre a própria economia, e não há Estado indutor eficaz sem planejamento. É aqui que os dois fios desta entrevista se cruzam: a inteligência artificial, que nos Movimentos anteriores era instrumento do desapossamento operado pelo centro, é, nesta camada, instrumento da capacidade soberana da periferia — a mesma técnica, a ciência de dados, servindo agora à finalidade pública sobre o dado repatriado.
Devo, contudo, e por fidelidade ao método que sustentei esta conversa inteira, enfrentar de frente o reverso dessas três camadas, e não escondê-lo — porque escondê-lo seria cair no sofisma de sinal periférico que eu mesmo condenei. Essa capacidade de legibilidade e de inferência que fundamenta a soberania econômica é, na mesma operação, capacidade de vigilância. O Estado que enxerga o fluxo agregado para gerir a economia é o mesmo que pode enxergar o fluxo desagregado de cada cidadão; a infraestrutura que repatria a informação estratégica do centro é, no mesmo gesto, uma infraestrutura de visibilidade sobre a vida financeira da população. Seria incoerente de minha parte aplicar a lente da instituição híbrida — capacidade e controle inscritos conjuntamente no mesmo objeto — à inteligência artificial do centro e suspendê-la diante da infraestrutura soberana da periferia. O PIX também é, no mesmo objeto, soberania e vigilância inscritas juntas. Mas — e é aqui que a análise não se dissolve em ceticismo estéril — o critério que distingue os dois casos é o mesmo que fixei na resposta anterior, agora acrescido de uma terceira formulação: importa a quem serve, de onde parte, e sob que controle. A diferença entre a legibilidade sob soberania pública e a extração sob intermediário privado estrangeiro não é vigilância contra não vigilância — seria ingênuo pretendê-lo. É vigilância deliberável contra extração indeliberável. Sob soberania pública, a legibilidade do fluxo está, ao menos em princípio, submetida à norma constitucional, ao controle democrático, à possibilidade de accountability; sob o intermediário privado estrangeiro, estava submetida apenas ao interesse de valorização de um ativo alheio, fora de qualquer deliberação pública nacional. E deliberável é precisamente a categoria que atravessa todo o meu trabalho: a inscrição como tradução de poder que pode ser mais ou menos submetida à deliberação de quem por ela é regido. É melhor que quem enxerga o fluxo seja um poder público submetido à constituição e ao voto do que um intermediário privado estrangeiro submetido apenas ao seu balanço — não porque o primeiro seja puro, mas porque o primeiro é deliberável e o segundo não.
Convém, por fim, extrair a lição na sua forma geral, porque o PIX não é um caso isolado a ser celebrado — é um paradigma a ser transposto, e essa transposição responde diretamente à sua pergunta. O que o PIX ensina é uma sequência: uma capacidade nacional se constrói como infraestrutura pública; essa capacidade repatria a renda, a informação e a inferência que o capital do centro extraía; e o centro, ao vê-la funcionar, mobiliza o seu aparato para combatê-la. Que essa construção autóctone tenha provocado a reação do aparato estatal do centro — a investigação, o vocabulário da concorrência desleal — não é argumento contra a soberania de infraestrutura; é a sua confirmação mais eloquente. Demonstra que a via da capacidade própria é real, que ela morde, que ameaça o suficiente para ser combatida. O que não ameaça, não se ataca. E essa sequência é a mesma, quer se trate de pagamentos, quer se trate de inteligência artificial — e é por isso que a defesa do PIX se conecta diretamente à batalha que se trava, neste exato momento, no marco regulatório da inteligência artificial: o projeto que tramita há mais de dois anos, aprovado no Senado ao fim de 2024 e em exame na Câmara desde então, atravessado em cada dispositivo pela tensão entre uma governança soberana e a pressão das grandes empresas de tecnologia do centro. Os pontos de disputa são precisos, e não por acaso: a mineração de textos e dados para o treino dos modelos — quer dizer, a extração da nossa matéria cognitiva —, a transparência dos conjuntos de dados de treino, a proteção dos direitos sobre as obras. Cada um desses dispositivos é, no fundo, uma decisão sobre inscrição: sobre se a regra que reger a inteligência artificial no Brasil será uma inscrição soberana e deliberável, que protege a nossa capacidade de saber o que entra nos modelos que decidem sobre nós, ou uma tradução da ordem do centro, que naturaliza a extração e a opacidade em nome da inovação sem fricção. Defender o PIX, portanto, é afirmar — contra o ceticismo e contra a pressão — que a periferia é capaz de contrainscrever nas três camadas: operar a infraestrutura, deter o dado, e inferir sobre ele com finalidade pública deliberável. E é afirmar que o gesto soberano que já demos com o dinheiro pode e deve ser repetido ali onde se decide o mais estratégico dos ativos do nosso tempo: a produção da própria cognição.
IHU – O que é o desapossamento cognitivo e como essa perspectiva contribui para o empoderamento da periferia tecnológica e política?
Ricardo da Silva Kaminski – Chego ao conceito que proponho como contribuição própria deste percurso, e que designo por desapossamento cognitivo. Ele articula, num só movimento, aquilo que os instrumentos anteriores expuseram em separado, e descreve uma operação de duas mãos, à qual se acrescenta uma dobra e, por fim, uma face interna. Deixem-me anatomizá-lo por partes, porque é na precisão da anatomia que a sua força de diagnóstico se revela — e, com ela, o caminho do empoderamento que a sua pergunta busca.
A primeira mão é a extração. A inteligência artificial de fronteira é treinada sobre o que se poderia chamar o comum cognitivo da humanidade — o vasto acervo de textos, dados, código, produção intelectual e científica que a espécie acumulou e disponibilizou, e do qual a periferia, o Sul, é parte constituinte. Mantenho-me, neste ponto, no registro estrutural, e demarco o limite com cuidado, porque a honestidade do argumento o exige: não afirmo, por não dispor de prova pública, que este ou aquele texto da periferia tenha ingressado no treino deste ou daquele modelo, pois a composição dos dados de treino não é divulgada. Afirmo a estrutura: a fronteira treina sobre o comum cognitivo, e o Sul é parte expropriada desse comum. E a expropriação assume, na inteligência artificial, uma forma mais profunda que a das matérias-primas físicas das fases anteriores da dependência. A matéria-prima física saía do território periférico e nele deixava uma cratera visível. A matéria-prima cognitiva é extraída sem sair do lugar: é copiada, lida, incorporada ao modelo, e permanece aparentemente intacta na origem, de modo que a expropriação não deixa marca. Acrescente-se a camada que os próprios balanços nos permitiram entrever: as próprias interações dos usuários — as conversas, as sessões de trabalho — foram, por alteração dos termos de uso, convertidas em corpus de treino retido por anos. Quem opera a ferramenta alimenta o ativo que o explora; a isca extrai de quem a morde.
A segunda mão é a interdição. O ativo constituído a partir desse comum expropriado é então oferecido de volta ao mundo — sob pedágio, e, como a diretiva Fable demonstrou, sob pedágio que se pode fechar seletivamente conforme a nacionalidade. Ao estrangeiro que contribuiu, com a sua produção intelectual, para a matéria-prima do modelo, nega-se o produto de fronteira derivado dessa mesma matéria-prima. A periferia ajudou a treinar o prodígio e está proibida de operá-lo. É a dependência que Vieira Pinto descreveu, elevada a uma potência que ele não viveu: no seu tempo, a periferia era ao menos consumidora plena do produto do centro, ainda que do produto defasado. Agora ocupa posição pior — fornecedora não remunerada da matéria-prima cognitiva e, simultaneamente, consumidora interditada do produto de fronteira. Extrai-se o deinón do Sul e nega-se-lhe o deinón de volta.
A dobra, que o caso do PIX antecipou e que preciso agora nomear como parte do conceito, fecha o argumento contra qualquer leitura ingênua da saída. Poder-se-ia objetar: se o problema é a interdição do acesso, a solução seria simplesmente construir capacidade própria, autóctone, que dispensasse o acesso concedido. Mas o PIX mostra o que sucede quando a periferia efetivamente constrói essa capacidade — o mesmo aparato que nega o produto de fronteira mobiliza-se também para combater a alternativa autóctone a esse produto. O desapossamento, portanto, não é apenas passivo, não é apenas o não conceder: ele nega o acesso ao que é de ponta e, quando a periferia ensaia a via da capacidade própria, trabalha ativamente para desmontá-la. O vassalo é mantido vassalo por ação, não por inércia. Não se trata apenas de que a periferia não alcança a fronteira; trata-se de que a sua tentativa de erguer uma fronteira própria é ativamente contestada por quem detém a fronteira estabelecida. Esta é a dobra: a estrutura que expropria é a mesma que reprime a tentativa de escapar à expropriação.
Há, por fim, uma face interna do desapossamento, que opera ainda quando o acesso é concedido, e que preciso nomear para completar o quadro — e que designo, em outro trabalho, por pasteurização estocástica. Um modelo treinado sobre o corpus dominante do centro, posto a operar na periferia, não chega neutro: carrega, inscrita nos seus pesos, a regressão à média do corpus que o treinou — e essa média não é a do Sul. As cosmovisões, os modos de dizer, as referências, as caudas minoritárias da distribuição onde residem as particularidades epistêmicas da periferia são adelgaçadas, niveladas pela média estatística do centro. É o desapossamento operando para dentro — não a negação do acesso, mas a diluição do que se acessa. E aqui os dois fios desta entrevista se tocam mais uma vez, por contraste exato: enquanto a inferência soberana sobre o dado do fluxo, de que falei ao tratar do PIX, reconhece e valoriza as particularidades da economia nacional — vê a cauda própria —, a inferência do modelo do centro apaga as particularidades do Sul pela regressão à média — apaga a cauda alheia. É o mesmo gesto técnico, inferir sobre dados, com o sinal invertido: uma soberania cognitiva vê a própria cauda; um desapossamento cognitivo apaga a cauda do outro. De um lado, a cláusula de nacionalidade interdita o produto; de outro, mesmo o produto acessado relocaliza no centro a autoridade de definir o real, apagando as caudas em que o Sul se reconheceria. As duas faces — a externa, da interdição, e a interna, da pasteurização — são operações de um mesmo regime, o regime da inscrição: a tradução de uma ordem de poder em infraestrutura operante, em pesos, em classificadores, em diretivas.
E aqui respondo à segunda metade da sua pergunta — como essa perspectiva contribui para o empoderamento da periferia. Contribui, antes de tudo, porque nomear com precisão é a condição de resistir com eficácia. Enquanto a periferia se vê como simplesmente atrasada — como quem ainda não chegou à fronteira e deve correr para alcançá-la —, ela aceita o termo que a mantém vassala, e sua luta se reduz a pedir acesso, que é confirmar a dependência. Quando compreende que é desapossada — que forneceu a matéria-prima cognitiva, que está interditada do produto, que é combatida quando tenta construir o próprio, e que é diluída mesmo quando acessa —, ela desloca a luta do plano do acesso para o plano da capacidade e da inscrição. O empoderamento começa nesse deslocamento de diagnóstico: a periferia não é uma retardatária na corrida do centro, é a parte expropriada de uma estrutura, e a estrutura pode ser contrainscrita. O conceito de desapossamento cognitivo é, nesse sentido, um instrumento de empoderamento porque devolve à periferia a compreensão exata da sua posição — e a compreensão exata da posição é a primeira condição para deixar de ocupá-la. Não empodera prometendo uma redenção fácil; empodera nomeando a estrutura com clareza suficiente para que a sua contestação deixe de ser lamento e passe a ser projeto — o projeto da contrainscrição nas três camadas de que falei, o de deixar de ser, enfim, a categoria: o fornecedor não remunerado, o consumidor interditado, a cauda apagada.
IHU – Deseja acrescentar algo?
Ricardo da Silva Kaminski – Gostaria apenas de devolver ao leitor a pergunta que este percurso instala, mas não encerra — porque um argumento como este não se destina a fechar a questão, mas a abri-la no ponto certo. Percorri um caso singular, o da diretiva que racionou dois modelos de inteligência artificial pela nacionalidade de quem os operava, e o li não como notícia, mas como sintoma de uma estrutura: a da inteligência artificial de fronteira como instituição híbrida, atravessada desde dentro pelo Estado e pela lógica do ativo, e operando sobre a periferia uma expropriação que chamei de desapossamento cognitivo. E apontei uma saída que não é ilusão nem lamento — a contrainscrição, a construção de capacidade soberana nas três camadas da infraestrutura, do dado e da inferência —, sem esconder o que a constrange, nem a assimetria material do centro, nem o fato de que se disputa a estrutura com as armas da estrutura.
O que deixo, então, é a pergunta que me parece a mais urgente e a mais incômoda, e que devolvo sem resposta pronta, porque a resposta não cabe a um analista sozinho, cabe a uma coletividade que delibere. Se a potência institucional da inteligência artificial de fronteira é hoje tamanha que um Estado chega a submetê-la, ainda que por um átimo, ao mesmo regime que reserva ao urânio e à munição, então a questão, para o Sul, já não é como obter acesso ao prodígio. É como deixar de ser, ele próprio, a categoria — o estrangeiro, o vassalo, a cauda apagada — numa ordem cognitiva que não deliberou, e na qual, até aqui, só lhe coube fornecer a matéria-prima e receber, de volta, a interdição. Escrevo no momento em que o Brasil delibera o seu marco regulatório de inteligência artificial, e é nesse terreno concreto, e não na abstração, que essa pergunta começará a ser respondida. A resposta que dermos a ela — no marco regulatório, na infraestrutura pública que construirmos ou deixarmos de construir, na capacidade de inferência que retivermos ou entregarmos — dirá se seremos capazes de repetir, no campo da cognição, o gesto soberano que já soubemos fazer no campo do dinheiro. Não tenho essa resposta. Tenho apenas a convicção de que a pergunta certa — a da capacidade, e não a do acesso — é a condição de que a resposta, um dia, seja nossa.