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24 Fevereiro 2016

Não sei se nas comemorações públicas, a começar pela cerimônia anunciada para terça-feira, dia 23, em Milão, no Castello Sforzesco, alguém reconstruirá um momento e um aspecto da vida de Eco, que arrisca ficar ofuscado pela imagem, embora correta, de grande pensador laico, como sublinhado pela mídia. Não que Eco não devesse ser contado entre os grandes do pensamento laico. Mas é interessante, e historicamente significativo, recordar de que formação ele provinha.

O artigo é de Gianni Vattimo, publicado por Il Fatto Quotidiano, 22-02-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Aqueles Ragazzi di Via Pò, de acordo com o excelente título do livro de Aldo Cazzullo, que recorda os anos da história de Turim, mas não só, foram formados no clima de uma grande estação da cultura católica Italiana.

Nos primeiros anos da década de cinquenta, Eco, que estudava em Turim e vivia no Colégio Universitário da rua Galliari (deixando ainda memórias vivas das fantasiosas festas de - ou melhor, para - matriculas), era líder da juventude estudantil católica, militante da GIAC (Gioventù italiana di Azione Cattolica), e já conhecido, naquele ambiente, como uma espécie de enfant prodige.

Eco formou-se na Universidade de Turim em 1954, com uma tese, logo publicada em livro, sobre O problema estético em Santo Tomás, elaborada sob a orientação de outra jovem "promessa" da filosofia italiana, Luigi Pareyson, que acabara de se tornar professor de Estética.

O tema da tese revela claramente os interesses intelectuais do discípulo, que permanecerá ao longo de toda sua carreira um amante, embora amplamente laicizado, da Idade Média e da sua cultura. Em suma, o Eco dos anos de Turim era um católico "comprometido", como se costumava dizer então com alguma reminiscência sartriana. Não só na temática religiosa, mas na luta, da qual foi um dos protagonistas, para desenvelhecer a cultura católica e orientá-la a uma compreensão mais aberta da situação política.

Quem, como eu, frequentava as associações católicas em Turim naqueles anos, ouviu muitas vezes discursos e conferências em que Eco, enquanto ilustrava o pensamento de autores como Maritain e Mounier, sustentava claramente que Deus só pode ser de esquerda, porque é de esquerda a criação, contra a inércia da repetitividade e da conservação.

Certamente a popularidade do Eco também foi favorecida, decisivamente, pelo seu espírito irônico e irreverente: como jovem católico praticou, de modo superfino, a arte de escorregar para fora da ortodoxia, e do fundamentalismo mais torto, por meio da ironia e do sarcasmo.

Escrevia, então, aqueles breves textos que confluíram depois no Diário mínimo, que, com suas atiradas e gracejos (pena que a arte das piadas tornou-se inviável depois de Berlusconi e os seus abusos) continua a ser uma das suas obras essenciais. Quero dizer seriamente: há um Umberto Eco "mínimo", que merece ser considerado como um grande educador da juventude italiana.

Além da memória do seu espírito, em todos os sentidos, do mais alto ao mais baixo da palavra, a lição de Eco merece ser lembrada, também entre laicos, pelos impulsos que, juntamente com outros grandes católicos "adultos" e não "alinhados" que o conheceram (de Arturo Paoli, teólogo da libertação, por anos no Brasil; ao médico Mario Rossi, que liderou a luta contra o fundamentalismo de Pio XII e do professor Gedda; a Carlo Carretto, lendário presidente da GIAC, anos cinquenta) foi capaz de dar aos católicos, chamando-os à liberdade de espírito e ao compromisso político, de que hoje a Igreja tem imensa necessidade.

Exatamente Santo Tomás, disse Eco recentemente, ajudou-o a libertar-se da fé religiosa. Outro paradoxo daqueles que ele amava? Talvez. Mas se é verdade, como diz o Credo, que Jesus (a instituição da Igreja?) está sentado à direita do Pai, o próprio Pai, como Criador, é de esquerda. Também isso nos ensinou o Eco "ragazzo di via Pò".