Bento XVI destaca a preocupação da Igreja sobre vários desenvolvimentos da sociedade e defende a objeção de consciência

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11 Janeiro 2013

Direito à objeção de consciência, à crítica ao capitalismo “sem regulamentação”, à promoção da liberdade religiosa, à defesa da família, do casamento “entre um homem e uma mulher”, à denúncia do fundamentalismo religioso, ao apelo à paz: Papa Bento XVI aproveitou-se de uma série de discursos tradicionalmente pronunciados entre o Natal e o início do mês de janeiro para recordar os temas de preocupação da Igreja católica em nível mundial.

A reportagem é de Stéphanie Le Bars e publicada no jornal Le Monde, 09-01-2013.

Em relato publicado na conta Twitter do Papa, ativada em 12 de dezembro de 2012, o discurso de segunda-feira, 7 de janeiro, na frente de 179 embaixadores credenciados junto à Santa Sé, foi a oportunidade para renovar os apelos para a paz na Síria. Mas o Papa também recordou as suas preocupações a respeito da evolução da sociedade, em específico da sociedade ocidental, – insistiu particularmente sobre a cultura da autonomia e do individualismo em contradição com a concepção da Igreja Católica dos direitos e dos deveres dos indivíduos. A Igreja acredita, de fato, que eles são regidos pelas “leis morais inscritas por Deus na consciência de cada homem” e não o fruto de uma “moral totalmente autônoma”. “Os direitos são frequentemente confundidos com aqueles das manifestações exacerbadas de autonomia da pessoa que se torna autorreferencial, não mais aberta para o encontro com Deus e com os outros e dobra-se sobre si própria, procurando somente satisfazer as próprias necessidades.”.

Denunciando a “marginalização da religião na vida social”, ou mesmo “a violência” para com os crentes e para com as instituições religiosas, Bento XVI ainda sustentou a necessidade da liberdade religiosa e da objeção de consciência. Referindo-se implicitamente às leis que autorizam o aborto, a eutanásia, o casamento entre casais do mesmo sexo, Bento XVI considera que a proibição da objeção de consciência “em nome da liberdade e do pluralismo abriria paradoxalmente as portas à intolerância e ao nivelamento forçado”.

No seu discurso de 1.° de janeiro, que celebra a cada ano o “Dia da Paz”, Bento XVI mostrou-se ainda mais explícito, referindo-se ao projeto de “casamento para todos”, previsto na França.

“A estrutura natural do matrimônio deve ser reconhecida e promovida, isto é, a união de um homem com uma mulher”.

Em sustentação da sua tese, desde 21 de dezembro, na ocasião dos votos de Natal para a Cúria, havia longamente tomado, de maneira inédita, os argumentos apresentados pelo Grão-Rabino de França, Gilles Bernheim. Denunciando “o ataque à autêntica forma da família”, o Papa havia censurado “a profunda falsidade da teoria dos gêneros e da revolução antropológica que lhe subjaz”.

Enquanto isso, os discursos de oposição dos responsáveis católicos no debate atual em França são considerados de ordem “antropológica”, o Papa apoiou essa abordagem. Ele reafirmou que as posições defendidas pela Igreja sobre o matrimônio não são “verdade de fé", mas “aqueles princípios que estão inscritos na natureza humana”. Sobre esses temas, a ação da Igreja não seria ainda “de ordem confessional, mas se refere a todos”.

Diante de um “agnosticismo intolerante”, Bento XVI ainda afirmou que “os bispos devem ter coragem de contradizer o espírito dominante”. “A aprovação das ideias mais difundidas não é critério ao qual nos submetemos”, recordou domingo, na ocasião da ordenação de quatro bispos em Roma.

Neste início de ano, Bento XVI também desenvolveu os conceitos sobre as condições necessárias para o estabelecimento da paz no mundo. “É o esquecimento de Deus, e não a sua glorificação que gera a violência”. As suas críticas dizem respeito também à situação econômica mundial, pouco propícia, segundo ele, à justiça e à paz. Criticando em voz baixa as escolhas econômicas da União Europeia, o Papa assegurou que não necessita “resignar-se ao spread – à diferença – do bem-estar social” entre países ricos e países “irremediavelmente mais pobres”. A crítica do “capitalismo financeiro sem regulação” é um assunto recorrente no Vaticano.