E o pontífice escuta os depoimentos do mal-estar

Mais Lidos

  • Guerra contra o Irã: o “início do fim do governo” de Trump

    LER MAIS
  • Regret Nothing: a fotografia de um masculinismo capturado. Artigo de Jacqueline Muniz

    LER MAIS
  • Ao transformar a Palestina em um experimento de aniquilação sem consequências, EUA e Israel desenham o futuro da realidade: um mundo onde a força bruta substitui as leis e a sobrevivência humana está sob risco absoluto, salienta o jornalista

    Gaza: o laboratório da barbárie do Ocidente em queda aponta para o futuro da humanidade. Entrevista especial com Raúl Zibechi

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

20 Fevereiro 2012

Viçoso como uma rosa, depois de séculos, o Consistório mais uma vez deu provas da sua eficácia. Herdado do Império Romano, o Consistório reúne em torno do bispo de Roma não um órgão colegial, mas sim o "Senado do Papa", composto por clérigos tão importantes que merecem o cargo de "cardeais", ou escolhidos no Orbe ou incorporados com o barrete à Igreja de Roma.

A reportagem é de Alberto Melloni, publicada no jornal Corriere della Sera, 19-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Desde 1049, cabe a esses cardeais "da Santa Igreja Romana" a tarefa de eleger o sucessor de Pedro e Paulo, quando a cátedra fica vacante por causa da morte, da renúncia ou da deposição do papa. A eles também cabe a tarefa de assistir o pontífice com o conselho, sozinhos e, exatamente, no Consistório. Uma reunião que, entre os séculos XVI e XIX, progressivamente se diluiu, até se tornar um rito nu: mas que, em muitas circunstâncias, também é a ocasião para uma troca de ideias abrangente. Ter acesso e ser ouvido pelo papa e pelos outros é, de fato, a prerrogativa dos cardeais.

E 27 dos 125 (como um debate parlamentar com centenas de discursos) se fizeram ouvir nesse vivaz Consistório de 2012, que "funcionou" perfeitamente. As imprecisões sentimentais, os espiritualismos autoabsolutórios, a arrogância típica das instituições em declínio não foram a linguagem, ou pelo menos a linguagem predominante da reunião do Sacro Colégio com Bento XVI.

Não houve "atas" (embora se deva lembrar que a transparência é a quimioterapia da indiscrição). No entanto, pelo que se sabe, muitos purpurados assumiram de peito aberto as mesquinhezes que há muitos meses vazam dos desiludidos e dos ambiciosos. Eles disseram na presença do papa – que as ouviu ao vivo e não por meio de sínteses ou resenhas – palavras de sincero desânimo e de motivada preocupação.

Na Itália, de fato, também se pode subestimar o efeito do clima que se criou dentro da catolicidade. Mas quem olha para as coisas a partir da América Central, da Europa do Norte ou da África, vê um desastre incompreensível. Os ultraconservadores e os anticonciliares têm a impressão de que nem o papa, que consideravam mais favorável à tão esperada restauração, consegue pôr ordem nessa confusão. Para aqueles menos conservadores e para os idosos cardeais conciliares, a demonstração de que a tepidez em que o Vaticano II foi fervido despotencializou o impulso reformador.

Em grande parte de uns e de outros, no entanto, só se confirma a ideia de que a escolha do papa "estrangeiro" – feito no Conclave inesperado de 1978 e reiterada naquele ventoso de 2005 – foi pura providência, que retirou das mãos dos italianos coisas que eles só sabem arruinar. E até mesmo os muitos cardeais italianos não podem, por bem, deixar de abordar o problema.

É possível explicar que esse juízo grosseiro, que faz chover descrédito sobre justos e injustos, é filho de uma simplificação que personaliza os problemas, ao invés de levá-los de volta ao seu coração institucional: e, assim, hoje, incumbe uma nova tarefa tanto sobre esses cardeais italianos, cujo nome povoa as "fofocas" (o cardeal Sodano a chamaria assim com razão) sobre a Igreja pós-ratzingeriana, quanto sobre aqueles purpurados que, com eles, compõem hoje cerca de metade do Sacro Colégio. Isto é, restituir autoridade espiritual à Igreja italiana, ao seu episcopado, aos seus cardeais. Ou a Itália sai da "libido denegridora" dos muitos lugares valorizados como se fossem sucursais do magistério, ou ela volta a ter grandes figuras como as que marcaram a história eclesiástica – de Borromeu a Lambertini, de Ferrari a Lercaro, de Dalla Costa a Pellegrino, para calar vivos e papas – ou estará condenada a uma marginalidade que só poderá se tornar fragilidade da Igreja universal.

Não é possível pensar em fazer a Festa Mundial da Família, o Ano da Fé, a Jornada Mundial da Juventude e se contentar com uma Igreja de separados em casa, agarrados ao poder, indiferentes à rugosidade da Esposa embelezada pelo olhar do Esposo. Encerrando a discussão entre os cardeais, o papa disse que o lema do Ano da Fé pode ser o de "viver a verdade na caridade": uma inversão clamorosa do título de uma encíclica sua e um retorno ao ditado simples do Novo Testamento simples. Mais do que um slogan, é uma rota.