Padres casados, sim... mas para qual Igreja? Da reforma superficial à conversão evangélica. Artigo de José Carlos Enríquez Díaz

Foto: Michel Grolet/Unplash

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23 Julho 2026

"O chamado sacerdócio comum dos fiéis não é uma ideia abstrata, mas uma realidade viva: todos são chamados a ser uma presença de Deus no mundo. Nesse contexto, a ordenação de homens casados pode fazer sentido... mas apenas se fizer parte de uma transformação mais profunda. Caso contrário, será simplesmente uma nova engrenagem em um mecanismo velho", escreve José Carlos Enríquez Díaz, téologo, em artigo publicado por Religión Digital, 19-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

As palavras de Dom Luc Terlinden, Arcebispo de Mechelen-Bruxelas, em favor da ordenação de homens casados, são sem dúvida um gesto corajoso e necessário. Reconhecer que a tradição católica abrange modelos diversos – como o das Igrejas Orientais – é um passo rumo a uma Igreja mais aberta e menos uniforme. Contudo, a questão crucial não é apenas disciplinar. A pergunta fundamental continua sendo: basta mudar as normas, ou devemos transformar o próprio modelo de Igreja?

Pois existe um risco evidente: a introdução de padres casados no sistema clerical existente poderia deixar inalterados o que é essencial. Se o ministério continuar a ser entendido como espaço de poder, de distinção ou de prestígio, a mudança será mais cosmética do que real. Um padre casado poderá continuar a desempenhar as mesmas funções que um padre celibatário se a lógica que sustenta o sistema não for questionada. Até mesmo os sinais exteriores revelam isso. Surge, então, uma pergunta incômoda, porém necessária: faz sentido um padre — casado ou não — continuar se diferenciando pelas vestimentas que o separam do resto da comunidade? Não se trata de um detalhe insignificante. É um símbolo. E os símbolos moldam a mentalidade.

Sobre esse ponto, o Evangelho convida a uma profunda reflexão. Jesus não se distinguia pela sua aparência exterior. Ele não usava vestimentas que o identificassem como autoridade religiosa. Aliás, quando foram buscá-lo para o prender, Judas teve que identificá-lo com um beijo (cf. Mt 26,48-49), porque não havia nada em sua aparência que o diferenciasse do grupo. Jesus não se destacava por sinais visíveis, mas pelo seu modo de viver, de acolher e de libertar.

E é justamente nisso que reside a chave. Jesus não estava interessado em prestígio religioso ou triunfo institucional. Ele se importava com a liberdade das pessoas, especialmente dos oprimidos: "O Espírito do Senhor está sobre mim... ele me ungiu para pregar boas-novas aos pobres e proclamar libertação aos oprimidos" (Lc 4,18). Seu projeto não era consolidar uma estrutura, mas abrir percursos de vida. Ele desejava uma comunidade que fosse uma casa aberta, onde todos — especialmente os excluídos — pudessem encontrar acolhimento, dignidade e esperança: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados” (Mt 11,28).

Por isso, não basta focar apenas no debate sobre o celibato. A verdadeira questão é mais profunda: a Igreja está a serviço da vida das pessoas ou da preservação do seu próprio sistema?

Hoje, em muitos contextos, testemunhamos uma hipertrofia das práticas religiosas ao lado de uma atrofia das convicções evangélicas. Grande atenção é dedicada aos ritos, às normas e às formas... mas nem sempre com a mesma intensidade às pessoas que mais sofrem. No entanto, o critério de Jesus é claro: “Eu estava com fome, e vocês me deram de comer ... eu estava nu, e vocês me vestiram” (Mt 25,35-36). Nas paróquias, nos conventos e em outras estruturas eclesiais, o centro da atenção muitas vezes não está nos feridos pela vida, mas na manutenção da atividade religiosa. Em relação a isso, o Evangelho propõe uma lógica diferente. O centro não é o culto ou o ritual, mas a pessoa. Não a instituição, mas a vida. Não a regra, mas a misericórdia: "Misericórdia quero, e não sacrifícios" (Mt 9,13).

As primeiras comunidades cristãs compreenderam isso muito bem. Não eram simplesmente grupos que compartilhavam crenças, mas espaços de vida em comum onde as pessoas encontravam apoio, cuidado e sentido: "E era um o coração e a alma da multidão dos que criam [...] mas todas as coisas lhes eram comuns (At 4,32-34). Eram comunidades que funcionavam como uma verdadeira rede de solidariedade. Acolhiam viúvas, órfãos, doentes e pobres, oferecendo algo que o mundo não oferecia: pertencimento, dignidade e esperança.

Numa sociedade como a nossa, marcada pelo desenraizamento, isso continua sendo profundamente atual. Muitas pessoas hoje vivem uma solidão radical, uma sensação de não ter nenhum valor para ninguém. E aqui a Igreja tem uma oportunidade imensa... se for capaz de retornar às suas raízes.

Qual seria, então, a alternativa? Não se trata simplesmente de reformar as estruturas, mas de reorientar o coração da Igreja. Trata-se de passar de um modelo centrado no poder para um centrado no serviço. De uma Igreja que protege a si mesma para uma Igreja que se doa aos mais vulneráveis.

Isso implica diversas transformações concretas.

Primeiro, devemos recuperar o significado do diaconato como princípio: a Igreja existe para servir, seguindo aquele que disse: "Eu estou entre vocês como quem serve" (Lucas 22,27).

Todos os ministérios — ordenados ou não — devem ser entendidos como formas de serviço, não como posições de superioridade.

Segundo, devemos fortalecer comunidades reais, vivas, onde as pessoas se conheçam, cuidem umas das outras e apoiem-se mutuamente: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" (Jo 13,34). Comunidades onde ninguém é invisível, onde todos têm um lugar. Uma Igreja que gera laços, não apenas atos religiosos.

Terceiro, colocar os mais frágeis no centro. Não como destinatários secundários, mas como critério de autenticidade: "tudo o que fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes" (Mt 25,40). Uma Igreja que não relega os pobres às margens, mas os coloca no centro.

Quarto, simplificar os sinais de poder e de diferenciação, lembrando-se: "Vós, porém, não sejais chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos." (Mt 23,8). Não para empobrecer a tradição, mas para torná-la mais evangélica. Menos aparência, mais verdade. Menos distância, mais proximidade.

E, finalmente, recuperar a consciência de que todos os fiéis compartilham a mesma dignidade: "vós sois a geração eleita, o sacerdócio real" (1 Pd 2,9). O chamado sacerdócio comum dos fiéis não é uma ideia abstrata, mas uma realidade viva: todos são chamados a ser uma presença de Deus no mundo.

Nesse contexto, a ordenação de homens casados pode fazer sentido... mas apenas se fizer parte de uma transformação mais profunda. Caso contrário, será simplesmente uma nova engrenagem em um mecanismo velho.

O desafio não é pequeno. Mas é evangélico. Pois Jesus não veio para fundar uma instituição fechada, mas para abrir um caminho de vida: "Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância" (Jo 10,10).

Portanto, a pergunta continua sendo: queremos adaptar a Igreja para fazê-la funcionar melhor... ou transformá-la para torná-la mais fiel ao Evangelho?

Somente quando a Igreja voltar a ser uma casa aberta, uma mesa partilhada e uma comunidade onde todos cuidam uns dos outros, ela será realmente capaz de responder às perguntas do nosso tempo.

E então sim —casados ou celibatários — os seus ministros não serão homens de poder, mas servidores da vida.

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