Jesus não vira as costas para seus seguidores e para a forma como eles são recebidos

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26 Junho 2026

"Tomar a cruz e seguir a Jesus supõe uma identificação com o Mestre. Assumir seu projeto com todas as suas consequências. Neste caso "tomar" (lambánô) não faz referência a carregá-la, nem a arrastá-la, mas a fazê-la própria, tomar posse. Trata-se de assumir a cruz e seguir a Jesus."

O comentário é de Eduardo de la Serna, sobre a leitura do Segundo Livro dos Reis (4,8-11.14-16), publicado por Religión Digital, 22-06-2026.

Eduardo de la Serna é padre argentino e membro do Grupo de Padres na Opção pelos Pobres.

Eis o comentário.

Resumo: O relato de Eliseu, em meio a outras ações do profeta, mostra uma mulher importante acolhendo-o hospitaleiramente, e a recompensa que receberá ao gerar um filho.

No chamado "ciclo de Eliseu" é frequente encontrar milagres; nenhum profeta de Israel é tão portentoso quanto ele nesse aspecto.

A hospitalidade — tema importantíssimo no ambiente do deserto — da mulher (e de seu marido; embora seja de notar que é ela, e não ele, quem ocupa um lugar preponderante no relato) não se limita a acolhê-lo quando "passa", mas chega a edificar-lhe um quarto. A razão é que se trata de "um santo homem de Deus" (îsh 'elohîm qadôsh); a mulher é qualificada de "grande mulher" ('ishah gedôláh) e no relato é ela quem toma a iniciativa, toma as decisões e age em consequência.

Não era bem visto, naquele tempo, aparecer como ingrato, e assim quer agir Eliseu, manifestando sua gratidão por ter sido "recebido como profeta" (o tema, ao qual alude o texto do Evangelho, é o que motiva sua inclusão neste dia). Guejazí, o servo de Eliseu — que tem importância neste capítulo, mas age de modo negativo no seguinte —, que atua como intermediário nessas unidades, o inteira da situação: a mulher não tem filhos e seu marido é ancião. Vale ressaltar que o relato é mais extenso e complexo (vv. 8-37): em um primeiro diálogo Eliseu lhe oferece interceder junto ao rei ou ao exército, o que a mulher recusa. O anúncio de um nascimento se concretiza, e o menino nasce. Mas adoece e morre, razão pela qual a sunamita vai buscar Eliseu e lhe reclama que "não pediu" um filho, o que motiva Eliseu a devolver-lhe a vida. Esta revivificação do menino é o centro do relato (paralelo a Elias, 1 Rs 17,17-24), mas está omitida no texto litúrgico, centrado apenas em "quem recebe um profeta" e sua recompensa.

Leitura da Carta de São Paulo aos Romanos (6,3-4.8-11)

Resumo: Estar imersos em Cristo nos faz morrer ao passado, morrer à morte para nos introduzir em uma vida nova; morrer ao pecado para viver na vida de Cristo.

Após uma importante unidade (1,16–5,11) na qual Paulo quer destacar para as comunidades de Roma que, embora "todos tenham pecado", Deus não descarregou sobre eles a justa cólera, mas agiu com "justiça" (= misericórdia), ele dedicará o restante da unidade teórica a mostrar as consequências dessa justiça sobre os crentes (5,12–8,39). A leitura da semana passada havia mostrado que "todos" somos livres do pecado porque "onde abundou o pecado, superabundou a graça" (5,20); agora (cap. 6) quer mostrar que somos igualmente "livres da morte".

O texto litúrgico, após a apresentação temática (vv. 3-4), omite o "pois, se…" para continuar no "e se…" (v. 8), destacando a consequência do fato para a comunidade. O jogo visual de Paulo não é facilmente percebido em português: "os que fomos batizados (= imersos) em Cristo Jesus" fomos imersos (= batizados) em sua morte [sabe-se que "batizar" significa "imergir"]. A dinâmica morte-sepultura-ressurreição de Cristo integra aqueles que foram batizados em Cristo. A imagem da pessoa que desaparece da vista ao imergir na água para o batismo — e que nesse gesto faz "morrer" o homem velho (v. 6) — permite que, ao emergir, se levante (= ressuscite) uma vida nova.

Breve nota sobre o "homem novo": Paulo não fala do "homem novo", mas contrasta o "homem velho" com "uma vida nova". Os discípulos de Paulo, que escreveram Colossenses e Efésios, falam de "homem novo", mas de "um único homem novo", Cristo (Ef 2,15). No entanto, Paulo tem claro que, embora tenhamos morrido ao pecado, isso não significa que possuamos um estado definitivo. Daí que assinala: "os que morremos com Cristo, cremos que também viveremos com Ele" (v. 8).

"Se morremos com Cristo", Ele morreu "de uma vez para sempre", daí o poder da ressurreição que aniquila o "senhorio" da morte:

Assim, Ele morreu — ao pecado, morreu para sempre.
Mas Ele vive — vive para Deus (v. 10).

A conclusão é evidente: "assim, pois, vós também" (houtôs kaì hymeîs), aludindo precisamente a essa morte e essa vida, como as de Cristo. Devemos nos considerar: mortos ao pecado; vivos a Deus. É precisamente tudo o que se vive a partir do batismo (indicativo) o que devemos (imperativo) viver em consequência. É importante notar que em Paulo "o pecado" não se trata de algo que se "comete", não se entende em nosso sentido habitual de tal ou qual pecado, mas como um "poder" (= senhorio) que domina sobre a humanidade, ou que perdeu sua capacidade e "autoridade". E tudo isso — como é frequente em Paulo — deve ser "em Cristo".

Evangelho segundo São Mateus (10,37-42)

Resumo: Uma série de ditos de Jesus sobre como ser discípulos e como se comportar com eles destaca a estreita relação entre o mestre e os seus. Deus e seu enviado não se desentendiem dos discípulos, embora estes devam caracterizar-se por uma série de notas que os colocam em estreita relação com Jesus.

No longo discurso aos enviados em missão, Mateus finaliza com uma série de ditos isolados (logia) que parecem não ter relação entre si, mas indicam que quem viver de determinada maneira é discípulo, enquanto não o é quem não o faz. Podem ser qualificados de "ditos que garantem a fidelidade":

logion de "amar mais" do que à família; logion de "não tomar a cruz"; logion da vida perdida ou encontrada; logion de ser recebido como recepção de Jesus; logion da recepção de profetas e justos; logion de dar de beber.

Os três primeiros formam uma certa unidade: "aquele que" alude a características (ativas) que devem ter os seguidores de Jesus. Estes são seguidos por uma tripla referência (passiva) a "receber". A conclusão refere-se aos "pequenos" (mikroi), ou seja, aos membros da comunidade de Mateus (18,10.14), os "discípulos".

Algumas anotações sobre esses ditos de Jesus:

Amar pais/mães/filhos/filhas "mais do que" a Jesus é algo sumamente razoável em Israel. O amor expresso aos pais está assinalado no próprio Decálogo. Jesus se coloca acima da família. Lucas utiliza o verbo "odiar" (14,26) mas trata-se de um semitismo no sentido de "amar menos". Trata-se do que chamaríamos uma "escala de valores", e Jesus se coloca acima do valor soberano da família. Em geral, nos evangelhos é habitual a relativização da família, o que manifesta um esquema contracultural ante o valor quase absoluto da família em seu tempo. Não se trata de que Jesus não a valorize, certamente, mas que a coloca em lugar secundário com relação aos valores do Reino. Trata-se do que alguém chamou de "fidelidades em conflito".

Tomar a cruz e seguir a Jesus supõe uma identificação com o Mestre. Assumir seu projeto com todas as suas consequências. Neste caso "tomar" (lambánô) não faz referência a carregá-la, nem a arrastá-la, mas a fazê-la própria, tomar posse. Trata-se de assumir a cruz e seguir a Jesus.

O contraste entre encontrar e perder é habitual (o texto se repete em 16,25). Deve-se entender no mesmo sentido do anterior: Jesus deve estar acima, já não da família, mas até mesmo da valorização da própria "vida" (psyjê). Assim como era impossível amar "mais do que a mim", "não é digno de mim", neste caso trata-se de perder a vida "por mim"; a centralidade de Jesus é a chave de interpretação desses logia.

A união entre Cristo e os seus é habitual em Mateus. Jesus está juridicamente onde dois ou mais se reúnem "em meu nome" (18,20), e aquele que expressamente se havia apresentado como "Deus conosco" (1,23) afirma que "estarei convosco todos os dias até o fim do mundo" (28,20). Por outro lado, receber a Jesus é receber ao Pai que o enviou (cf. Mc 9,37). "Receber" é acolher os enviados de Jesus (10,14), assim como também se acolhe uma criança "em meu nome" (18,5).

A "recompensa" é termo apreciado por Mateus (1x em Marcos, 3x em Lucas e 10x em Mateus; 1x em João e 1x em Atos). A recompensa pode ser eterna (5,12) ou terrena (6,1.2.5.16). "Profetas" e "justos" são uma bina própria de Mateus (10,41; 13,17; 23,29), aqui talvez paralelos.

Dar um "copo de água fresca" aos pequenos é fazê-lo ao próprio Jesus ("tive sede e me deram de beber", 25,35) porquanto levam o nome de discípulos. Se na primeira parte o acento estava posto no compromisso e no modo de ser do discípulo, aqui se destaca a atitude de "outros" frente a eles, e o posicionamento de Deus, que não se desentende dos seus amigos.

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