Vaticano aos bispos alemães: leigos não devem pregar homilias na missa

Foto: Vatican Media

Mais Lidos

  • Sem sermão para leigos: escolha certa, argumentos errados. Artigo de Andrea Grillo

    LER MAIS
  • Venezuela abalada por um duplo evento sísmico: um século de energia liberada em uma hora

    LER MAIS
  • As críticas a esta edição da Copa do Mundo “sugerem a existência de movimentos políticos e pessoas preocupadas com outras questões que não só o futebol ou o lucro da copa, como é o caso da FIFA”, avalia o antropólogo

    Copa da diáspora, dos encontros fugazes e das dificuldades de interação com a diferença. Entrevista especial com Arlei Damo

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

24 Junho 2026

O Vaticano rejeitou um pedido dos bispos alemães de uma permissão especial (um "indulto") para permitir que leigos e leigas pregassem homilias durante a missa.

A reportagem é de Colleen Dulle, publicada por America, 23-06-2026.

“Os fiéis leigos não podem pregar durante a celebração da Eucaristia no local destinado à homilia”, escreveu o cardeal Arthur Roche, prefeito do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos do Vaticano, em carta de 17 de junho em resposta ao pedido.

A carta de 17 de junho, juntamente com o pedido original dos bispos alemães, foi publicada em alemão no site da Conferência Episcopal Alemã em 23 de junho. No mesmo dia, o Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos do Vaticano publicou um comunicado de imprensa sobre o assunto, tomando a medida incomum de publicá-lo exclusivamente em inglês.

A decisão do dicastério parece proibir qualquer pregação leiga imediatamente após o Evangelho, argumentando que seu “lugar” e “função… coincidem essencialmente com os da própria homilia”, levantando questões sobre a pregação leiga, que é praticada atualmente na vizinha Suíça.

O pedido dos bispos alemães

Desde 1970, os bispos alemães têm solicitado periodicamente permissão ao Vaticano para diversas formas de pregação leiga. Em 1973, o Vaticano concedeu-lhes permissão temporária para que leigos pregassem durante a missa “em casos especiais”. Em 1977, essa permissão foi renovada até 1982.

Em 1983, foi promulgado um novo Código de Direito Canônico que permitia às conferências episcopais autorizar leigos a pregar durante a Missa, mas não lhes permitia proferir a homilia após a leitura do Evangelho. O pedido dos bispos alemães ao Vaticano detalha como, “após longas discussões com a Santa Sé”, em 1988, a Santa Sé aprovou uma “Ordem para o Ministério da Pregação dos Leigos” que permitia aos leigos pregar sobre as leituras no início da Missa. Essa norma permanece em vigor desde então.

O Caminho Sinodal alemão, um processo de reforma e discernimento que envolve leigos e bispos e que já havia apresentado tensões com o Vaticano, debateu amplamente o ministério leigo. Ao final, 90% dos bispos participantes do Caminho Sinodal — a maioria dos bispos alemães — votaram a favor de solicitar ao Vaticano que permita que leigos “teológica e espiritualmente qualificados”, “encarregados pelo bispo”, preguem a homilia aos domingos e dias santos.

Dom Heiner Wilmer, SCJ, bispo de Münster e presidente da Conferência Episcopal Alemã, enviou o pedido em carta ao Dicastério para o Culto Divino em 30 de março. Em uma explicação do pedido anexa à carta, Wilmer expôs o histórico e os argumentos a favor da permissão de homilias leigas. Ele argumentou que a pregação leiga sobre as leituras, atualmente permitida, ocorre em um momento inconveniente da Missa, antes da proclamação das leituras. Isso, segundo ele, impediu que a prática fosse aplicada de forma mais ampla.

Ao mesmo tempo, argumentou ele, devido à escassez de sacerdotes, “a situação pastoral na Alemanha se intensificou a tal ponto que surgem cada vez mais situações em que sacerdotes presidem a celebração dominical da Eucaristia e que — seja por idade avançada, fragilidade física, barreiras linguísticas ou outros obstáculos — não conseguem proferir a homilia de maneira adequada”. Ele argumentou que “não é defensável perante os fiéis proibir homilias leigas nessas situações”.

Ele também rebateu o argumento — reiterado na resposta do Arcebispo Roche — de que a homilia faz parte da liturgia, dizendo que ela não foi proferida em latim como o restante da liturgia, e que pregar a homilia não é reservado exclusivamente aos sacerdotes, pois já está aberto aos diáconos que não estão celebrando a missa.

Resposta do Vaticano

O Cardeal Roche iniciou sua carta de 17 de junho aos bispos alemães expressando sua “sincera gratidão pela preocupação pastoral subjacente a este pedido e pelo desejo de assegurar o devido cuidado espiritual às comunidades que lhes foram confiadas”. Contudo, afirmou que nenhum indulto poderia ser concedido, pois a homilia é “parte integrante da liturgia” e “inseparavelmente ligada à proclamação do Evangelho e à presidência da celebração”, sendo, portanto, reservada a sacerdotes e diáconos. Citou uma instrução da época de São João Paulo II, Redemptionis Sacramentum, reafirmando que os leigos não podem proferir a homilia durante a Missa, “mesmo sob designação”.

O prefeito escreveu que uma exceção não poderia ser justificada pelas “sérias considerações pastorais” ou pela “melhor preparação teológica ou capacidade comunicativa por parte dos fiéis leigos” que Wilmer havia mencionado.

Em uma passagem fundamental que pode ter implicações além da Alemanha, o Cardeal Roche escreveu que a proibição de homilias leigas se aplica a qualquer pregação que ocorra logo após o Evangelho, “já que o lugar proposto — imediatamente após o Evangelho — e a função exercida coincidem essencialmente com as da própria homilia”.

Em 2005, os bispos suíços emitiram uma carta pastoral afirmando que leigos qualificados poderiam proferir reflexões “em substituição à homilia” durante a missa, quando necessário. Em diversas dioceses suíças de língua alemã, incluindo as de Basileia e São Galo, essa prática tornou-se comum; resta saber se o Vaticano poderá restringir essas reflexões, que, segundo a lógica da carta de Roche, são essencialmente homilias.

Leia mais