Antonio Banderas ao Papa: "Estou aqui hoje confessando ter sido vítima do feitiço de Deus"

Foto: Papa em sua visita à Madri | Reprodução: Vatican Media

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08 Junho 2026

"A arte tem sido (...) o espelho que reflete vidas que passam despercebidas por nossos semelhantes feridos. É também uma denúncia de credos vazios que se esqueceram do amor. É um alerta para sociedades que se acostumaram à injustiça."

Antonio Banderas foi um dos convidados para saudar o Papa Leão XIV na sua visita a Madri. 

José Antonio Domínguez Bandera (Málaga, 10 de agosto de 1960) é um ator, produtor, cantor e diretor de cinema espanhol. É amigo íntimo do Pedro Almodóvar e esteve em vários filmes do diretor, como Matador, Ata-me!, Mujeres al borde de un ataque de nervios e La ley del deseo, entre outros. Só depois de atuar em vários filmes europeus é que o ator estreou em filmes comerciais dos Estados Unidos, como A Máscara do Zorro e outros filmes de ação, se tornando o ator espanhol mais famoso do cinema mundial. Estreou na direção com Loucos do Alabama, em 1999 e em 2020 foi indicado ao Oscar por sua atuação em Dor e Glória.

O discurso é publicado por Religión Digital, 07-06-2026.

Eis a íntegra do discurso.

Santo Padre.

Autoridades.

Caros amigos.

Existem encontros que não são medidos apenas pelo tempo, mas também pelo seu significado.

Sua presença em Madri hoje, Santo Padre, não é apenas uma visita. É um gesto. Um gesto de escuta, de proximidade, de diálogo com a sociedade civil, e a sociedade civil, sem dúvida, lhe é grata.

Esse diálogo, por vezes, precisa ser reforçado através do uso de uma linguagem comum.

Essa linguagem é, e tem sido em muitas ocasiões ao longo da história, arte. A relação entre a Igreja Católica e a arte não só tem sido frutífera: tem sido decisiva. Não temos receio de errar ao afirmar que a Igreja foi a maior produtora de arte na história da humanidade.

No cerne desse impulso criativo está aquele que transcende séculos, estilos e culturas, e que sem dúvida tem sido a figura mais representada na história da arte: Jesus Cristo. O grande protagonista da história da vida. Em todas as artes, Cristo é uma presença constante. Não como uma imagem repetida, mas como um ícone de paz, amor e sacrifício, envolto em um mistério inexaurível.

Eu poderia reduzir minha intervenção simplesmente a listar os grandes artistas que, com suas obras, amplificaram a mensagem da palavra de Jesus.

Eu poderia simplesmente apresentar uma série de fatos que ilustram o caminho percorrido entre a Igreja, os artistas, os intelectuais, os filósofos… mas hoje, Santo Padre, sinto uma certa obrigação de oferecer uma breve reflexão em voz alta sobre a minha própria experiência.

Para isso, preciso voltar no tempo às celebrações da Semana Santa na minha amada Málaga, na década de 1960.

Essas manifestações populares tomam as ruas, desdobrando um majestoso ritual de arte e fé, de raízes e devoção. Um poliedro multicolorido de elegante beleza, uma liturgia teatral que a cada ano transforma a cidade em um espaço onde o artístico e o espiritual se fundem.

A arte não é apenas beleza. A arte é questionamento. É reflexão. É contraste. É revolução.

E foi ali, Santo Padre, dentro desse contexto de arte popular anônima, quando eu tinha apenas 4 ou 5 anos, nasceu em mim uma pergunta que continha apenas uma palavra: Deus?

Aos poucos, encontrei respostas, algumas tão simples quanto aquela que reconheci nos olhos da minha mãe enquanto ela fixava o olhar e o coração devoto na Virgem da Esperança, que passava em seu trono naqueles anos distantes. Ou através das vozes que cortavam o ar límpido da primavera, cantadas pelos grupos de saeta(1). Ou entre as pessoas humildes e boas da minha cidade que todos os anos saíam, e ainda saem, às ruas com o seu bairro nos ombros, carregando as imagens que as ajudam a encontrar a si mesmas enquanto buscam a Deus. E fazem isso deixando para trás o "eu", para se apegarem ao "nós"... do "nós" passam para o "eles", do "eles" para o "todos", do "todos" para o mundo, do mundo para o universo, do universo para Deus, para então retornarem à terra, sentindo que Deus pode estar em cada partícula, em cada molécula de cada gota d'água, de cada mar, de cada pétala de rosa, de cada batida de coração, de cada suspiro.

Mas a arte não é apenas beleza. A arte é uma pergunta.

É reflexão.

É o contraste.

É uma revolução.

É uma tensão entre o que sabemos e o que intuímos.

A arte tem sido — e deve continuar a ser — o espelho que reflete vidas que passam despercebidas por nossos semelhantes feridos. É também uma denúncia de credos vazios que se esqueceram do amor. É um alerta para sociedades que se acostumaram à injustiça.

A arte deve ser uma alternativa à violência. A todas as formas de violência.

Assim como o próprio Cristo, o artista deve agir com coragem e não deixar de ser um agente crítico da sociedade, da própria arte e da própria religião.

Santo Padre… temos uma obrigação comum. Somos obrigados a olhar, a ver, a tentar compreender as complexidades da alma humana.

Todos os seres humanos enfrentam as grandes questões da nossa existência: Quem somos nós?

Qual é o sentido da vida e da dor?

O que significa amar verdadeiramente o seu próximo como a si mesmo?

O que existe além?

E nessa busca, todos nós nos aproximamos, talvez sem saber, do transcendente.

Santo Padre.

Num mundo acelerado, fragmentado e, por vezes, excessivamente simplificado, a arte ajuda-nos a recuperar a profundidade e a alma que nos são roubadas pelas inteligências artificiais, que deveriam estar ao serviço dos seres humanos e não o contrário.

Uma alma que nos sussurra que existe algo mais.

O sussurro constante da esperança por algo mais.

Este encontro entre a Igreja e a sociedade civil não é apenas oportuno: é necessário. Precisamos continuar criando e compartilhando. Precisamos continuar fazendo perguntas.

Continue buscando a beleza, sim… mas também a verdade.

Porque onde quer que ousemos perguntar em profundidade, sempre surge um caminho, um caminho que pode nos conduzir ao espiritual, que nada mais é do que a fraternidade que pulsa no coração de cada ser humano e no misterioso coração de Deus.

“Você diz que os tempos estão difíceis. Seja melhor e os tempos melhorarão. Você é os tempos.”

Santo Agostinho disse.

Santo Padre, estou aqui por causa de Godspell. Godspell é uma peça de teatro musical criada em seu país de origem. A tradução de Godspell para o espanhol é "El Hechizo de Dios" (O Feitiço de Deus). Estou aqui hoje confessando ter sido vítima do feitiço de Deus.

Muito obrigado.

Nota do IHU

1.- Tradicional música religiosa espanhola.

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