E se agora os africanos desafiarem o Ocidente. Artigo de Lucio Caracciolo

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19 Setembro 2023

"Hoje os colonos não existem mais, ou pelo menos não se ostentam como tais. No entanto, a mentalidade colonial resiste, como a discriminação por raça. Mesmo entre africanos brancos e africanos negros. No Magrebe árabe os primeiros costumam se definir ahrar (homens livres) enquanto aplicam o pejorativo abid (escravos) aos negros. E muitas vezes os tratam em conformidade, sem reciprocidade, com pleno conhecimento dos governos europeus que remuneram os "de pele clara" para que impeçam por qualquer meio possível que os subsaarianos embarquem em direção à Itália", escreve Lucio Caracciolo, jornalista e analista geopolítico italiano, diretor da revista Limes, em artigo publicado por La Stampa, 16-09-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Nós, europeus, olhamos a África de cima para baixo. Isso quando a olhamos. Não apenas porque o padrão cartográfico desenha a África abaixo da Europa. É que nos consideramos superiores aos africanos em todos os sentidos. Verdade que não merece explicação. Postulado que pode, na melhor das hipóteses, transformar-se em exotismo - hic sunt leones – e na pior, na exploração bestial de povos e recursos, quase como se os africanos fossem coisas à disposição. Complexo de superioridade estruturado em torno do essencialismo mais desenfreado: nós estamos na História, vocês nunca entraram; nós, pessoas abastadas evoluídas, vocês, pobres e atrasadas; nós, nações, vocês tribos. Resumindo: nós, brancos, vocês, negros. Racismo instintivo, tão imediato e espontâneo que quase nem o percebemos. Endurecido pelo politicamente correto que gostaria de mascará-lo enquanto perpetua a sensação de sentimento a ser velado.

Nada a fazer: “O Negro não é homem, o Negro é um homem negro”. Assim Frantz Fanon, gênio martinicano, há setenta anos lamentava-se sobre a neurose da pessoa de cor diante do olhar branco do colono que a tornava prisioneira. De forma que aspirava à “lactificação”. Teria desejado branquear-se, cobrir a pele negra com máscara branca. Fanon aspirava libertar o homem negro de si mesmo. Ser reconhecido pelo homem branco e assim reconhecê-lo. Dialética da condição humana: o racismo apaga a pessoa, que o colono reduz ao valor de uso que dela pode extrair.

Hoje os colonos não existem mais, ou pelo menos não se ostentam como tais. No entanto, a mentalidade colonial resiste, como a discriminação por raça. Mesmo entre africanos brancos e africanos negros. No Magrebe árabe os primeiros costumam se definir ahrar (homens livres) enquanto aplicam o pejorativo abid (escravos) aos negros. E muitas vezes os tratam em conformidade, sem reciprocidade, com pleno conhecimento dos governos europeus que remuneram os "de pele clara" para que impeçam por qualquer meio possível que os subsaarianos embarquem em direção à Itália. Gaddafi e Ben Ali fizeram disso um triste comércio, alguns de seus seguidores um massacre transferido das costas do Mediterrâneo para a linha das palmeiras. Verdadeira fronteira entre África e Europa.

Nesse contexto, as relações entre africanos e ocidentais estão piorando a galope. Especialmente entre as ex-colônias francesas e Paris. Nos últimos três anos, o antigo império africano da França foi atingido por uma epidemia golpista. Da Françafrique, sistema pós-colonial de influência francesa no continente, só a sombra permanece. Sete regimes mudaram um após o outro no Chade, Mali, Guiné e Burkina Faso (golpe duplo), Níger e Gabão. Todos na antiga África francesa. O primeiro coberto e conduzido por Paris, os outros contra. Com prevalência de ditaduras militares “transitórias”. Os dois últimos, especialmente o nigerino, suscitaram uma resposta internacional sem precedentes. Eventos que antigamente seriam registrados nas páginas internas ou nos serviços secundários da mídia "global" - com exceção dos francófonos (empire oblige) - estão concentrando um feixe de luz não muito efêmero sobre entidades de que a maioria dos ocidentais ignorava a existência. Na França, além disso, é uma emergência nacional. “Vivemos num mundo de loucos”, Macron afirmou soberanamente perante os seus embaixadores.

Rota de imigração para a Itália (Foto: Wikimedia Commons)

O que mudou? O contexto, em primeiro lugar. Em suma, o mundo (não Macron). A crise estrutural do império estadunidense excita os protagonismos dos maiores adversários, China e Rússia, as inquietudes dos ambíguos ocidentais de periferia, como nós, italianos e outros europeus parecemos para a torre de controle de Washington, as aspirações das médias e pequenas potências, reavaliadas pelo outono da máxima. Depois de séculos de marginalização, os africanos estão descobrindo o gosto pelo protagonismo. A Itália não tem interesse nenhum na humilhação da França. Estamos simplesmente demasiado ligados por proximidade, dossiês cruzados e memórias comuns, para imaginar que a desgraça de um não venha de ser, em grau variável, também a do outro. A incontrolável francofobia das nossas elites é pouco inteligente e muito autodestrutiva. Especialmente nessa conjuntura, quando necessitamos do apoio francês contra o retorno à austeridade germânica na zona euro, grave para Paris, desastrosa para Roma.

Em vez de nos massacrarmos sobre a questão da migração, sobre a qual cultivamos interesses opostos - a serem geridos para que não se transformem em guerrilhazinhas fronteiriças em Ventimiglia - podemos, por exemplo, tornar-nos úteis na frente militar. Paris deve reduzir drasticamente as suas bases africanas se não quiser ser expulsa. Será necessário um plano de retirada gradual, mas não excessiva, já objeto de negociações informais com a junta nigerina. A Itália poderia contribuir para a "europeização" (por assim dizer) do contingente francês em alguns países africanos juntamente com alemães, espanhóis e outros parceiros OTAN/UE. No entanto, a sério, não como aconteceu até agora, em que cada um se entrincheira na sua mônada para não fazer quase nada (nós) ou muito (os franceses, que nem mesmo nos avisaram sobre o golpe nigerino do qual sabiam quase tudo primeiro, exceto para depois tentar nos alistar em seu fantástico contragolpe). Desde que seja no contexto de uma abordagem colaborativa com os governos africanos – aqueles efetivos, "legítimos" ou não – sobre os principais dossiês econômicos, começando pelo perdão da dívida. Atento a estados de espírito e necessidades das comunidades locais, existencialmente interessados ​​na segurança de seus territórios. Quem sabe, talvez um dia os líderes do neo-anti-imperialismo africano nos considerem mais confiáveis ​​do que os russos.

Se, no entanto, a França fincar o pé, ou quiser se livrar apenas com alguma evacuação simbólica, será expulsa do Sahel. Derrotada no campo. Catábase inglória de efeitos estratégicos talvez comparáveis ​​à retirada da Rússia. Com Putin triunfante na África como Alexandre I em Paris. Só que esse “czar”, menos místico que aquele verdadeiro, não gosta da França. E o que pega, não larga. Principalmente quando o damos a ele de presente.

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