Rubens se desdobra em três e dá origem ao Barroco. Artigo de Tomaso Montanari

O Massacre dos Inocentes de Peter Paul Rubens. (Foto: Creative Commons)

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

20 Mai 2023

Aqui nasce algo completamente novo, uma nova retórica da imagem, baseada no movimento e na cor, e funcional para construir uma fortíssima empatia emocional com o espectador. Graças ao diálogo de olhares e de gestos e à unidade da ação que une estes três quadros, atravessando o espaço real do presbitério, este último se torna uma espécie de palco onde se agita perenemente uma representação sagrada: nascera o Barroco.

O comentário é do historiador da arte italiano Tomaso Montanari, professor da Universidade Federico II de Nápoles. O artigo foi publicado no caderno Il Venerdì, do jornal La Repubblica, 12-05-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em setembro de 1606, Peter Paul Rubens recebeu – “com tanta glória, contra as pretensões de todos os primeiros pintores de Roma” (como ele escreveu) – a encomenda de pintar o retábulo do altar-mor da Chiesa Nuova, fundada pelos oratorianos de Filipe Néri, um dos lugares mais notáveis da Roma sacra pós-tridentina.

Em maio do ano seguinte, a tão apreciada obra foi colocada sobre o altar, onde, no entanto, ficou quase ilegível devido às “perversas lumes” da abside da igreja. O artista não desanimou e criou uma nova versão, desta vez concebida como um tríptico e pintada em grandes placas de ardósia para evitar os reflexos.

Além das restrições ambientais, as iconográficas também eram pesadas, já que o cardeal oratoriano Cesare Baronia havia pedido que fossem representados alguns dos santos cujas relíquias a igreja possuía e que o venerado ícone da Madonna della Vallicella, que existia antes da igreja construída por Neri, fosse colocado em seu centro.

Peter Paul Rubens, “La Madonna della Vallicella tra angeli e santi”, óleo sobre três placas de ardósia, 1606-1608, Chiesa Nuova, Roma. (Imagens: Wikimedia)

Rubens dividiu os santos em dois grupos: no quadro à esquerda dos fiéis, pintou São Gregório Magno entre os santos Mauro e Papiano, recortando-os contra um fundo preto típico de Caravaggio. No da direita, representou Santa Domitila, entre seus dois escravos Nereu e Aquileu, mergulhando-os em uma paisagem inconfundivelmente típica de Carracci.

No centro, porém, Rubens pintou uma imagem de Nossa Senhora com o Menino (acima de uma tampa deslizante que pudesse permitir mostrar e ocultar o ícone), alçada em voo por querubins angelicais em um redemoinho de nuvens paradisíacas e adorada por um círculo de grandes anjos ajoelhados no primeiro plano, logo acima da mesa do altar.

E aqui nasce algo completamente novo: o ateliê de Correggio e Ticiano gerou uma nova retórica da imagem, baseada no movimento e na cor, e funcional para construir uma fortíssima empatia emocional com o espectador. Mas a grande novidade do retábulo de Vallicelli reside precisamente em sua articulação em três partes distintas: graças ao diálogo de olhares e de gestos e à unidade da ação que une os três quadros, atravessando o espaço real do presbitério, este último se torna uma espécie de palco onde se agita perenemente uma representação sagrada: nascera o Barroco.

O aspecto verdadeiramente paradoxal é que ninguém pareceu se dar conta disso: nem os seguidores de Caravaggio nem os alunos de Annibale estavam prontos para transfigurar aquilo que acabavam de aprender: e seria necessário esperar mais 10 anos para que as obras deixadas em Roma por Rubens (que em 1608 abandonou para sempre a Cidade Eterna e a Itália) fossem verdadeiramente compreendidas e dessem fruto. Por meio de um escultor: Gian Lorenzo Bernini.

Leia mais