Nicarágua. Onde está D. Alvarez, bispo de Matagalpa? “Ele está em uma cela escura e faz suas necessidades em um buraco”

Bispo Rolando Alvarez. (Foto: Vatican Media)

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10 Mai 2023

Um estudo relata a violência sofrida pela Igreja Católica nas mãos do ditador Ortega. E o assédio contra o bispo de Matagalpa, de quem se tem poucas notícias.

A reportagem é de Paolo Manzo, publicada por Tempi – Rádio Maria, 09-05-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Um bispo nicaraguense na prisão, 37 sacerdotes no exílio, incluindo outro bispo e 32 religiosas de várias congregações expulsas. Esses são alguns dos números das 529 violências contra a Igreja Católica na Nicarágua perpetradas pela ditadura cada vez mais feroz de Daniel Ortega e sua esposa "copresidenta", como o sandinista chama Rosario Murillo.

Para analisar esses números o estudo "Nicarágua: uma Igreja perseguida?", da pesquisadora nicaraguense Martha Patricia Molina, apresentado há poucos dias e que descreve em detalhes os 529 ataques ocorridos entre abril de 2018, quando irromperam as manifestações antigovernamentais no país, reprimidas de forma sangrenta por Ortega, e o final de março deste ano: 84 em 2018, 80 em 2019, 59 em 2020, 55 em 2021, 161 em 2022 e já 90 no primeiro trimestre de 2023.

O estudo, dividido em quatro capítulos, começa com as hostilidades que a Igreja sofreu nos últimos cinco anos, para depois detalhar a proibição de 3.176 procissões durante a última Semana Santa. O terceiro capítulo conta como as violências se tornaram sistemáticas e o último enumera a cronologia de "profanações, sacrilégios, roubos e atentados contra a Igreja". Molina, forçada ao exílio e membro do comitê de redação do jornal nicaraguense La Prens, explica que o número de atentados é "certamente maior" porque "há poucas denúncias das autoridades religiosas e cresce o medo dos fiéis em documentá-los".

O bispo na prisão

A mesma pesquisadora garante que tem poucas informações sobre monsenhor Rolando Álvarez, bispo da diocese de Matagalpa condenado a mais de 26 anos de prisão por se recusar a embarcar em um avião junto com outros 222 presos políticos no último dia 9 de fevereiro: “Não tenho informações sobre ele, mas sei que algumas autoridades do sistema prisional de Chipote (a prisão de tortura de Ortega, ndr) não concordam com o tratamento injusto reservado a cada um dos presos políticos e que estão em desacordo com essa atitude da ditadura".

E acrescenta: “Ninguém que se encontre nas condições de mons. Álvarez e dos demais presos políticos pode estar bem. Torturas cruéis, desumanas e degradantes são praticadas nas prisões da Nicarágua”.

A jornalista nicaraguense Tifani Roberts, residente nos Estados Unidos, confirmou ao jornal independente La Prensa, do qual resta apenas a versão online porque a sede foi ocupada pelo regime, que uma fonte confiável lhe revelou que o bispo da diocese de Matagalpa é mantido "numa cela escura e faz suas necessidades biológicas em um buraco". Como se não bastasse, como parte do tratamento cruel, desumano e degradante ordenado por Ortega, monsenhor Álvarez "se limpa com as mãos" porque "não lhe permitem usar papel higiênico".

Crimes contra a humanidade

Gonzalo Carrión, advogado do Coletivo Nicaraguense de Direitos Humanos Never+, aponta que "se trataram os presos políticos de maneira cruel e brutal em geral, o caso do bispo confirma o nível de opressão no mais alto nível, ordenado por Ortega e Murillo, os responsáveis pelos atos de tortura, pelo tratamento cruel, desumano e degradante a que está sendo submetido Monsenhor Álvarez, tratamento que constitui um crime contra a humanidade".

Para o advogado Danny Ramírez Ayerdis, secretário-executivo do Centro Interamericano de Assistência Jurídica para os Direitos Humanos, o que a ditadura busca "é quebrar a moral do bispo que está sofrendo graves violações do direito internacional, são crimes contra a humanidade no âmbito da perseguição geral que a Igreja Católica está vivendo na Nicarágua".

Um monsenhor que carrega a cruz

Segundo Carrión, a crueldade da ditadura contra monsenhor Álvarez se deve "à sua voz de coerência com os oprimidos, que aliás é o único bispo da Nicarágua que até o momento em que foi privado da liberdade, em agosto do ano passado, manteve em seu trabalho pastoral uma clara identificação com o povo oprimido. E precisamente por ser um pastor empenhado em estar perto do povo, tiraram-lhe a liberdade, depois de o terem sistematicamente assediado, molestado e ameaçado”.

Segundo o ex-embaixador da Nicarágua na Organização dos Estados Americanos, Arturo McFields Yescas, com a prisão de monsenhor Álvarez a ditadura fica ainda mais manchada perante o mundo: “Só a escória da humanidade aprisiona um bispo que não pode lhe fazer nenhum mal. Que medo eles têm de um monsenhor que carrega a cruz?”, ele se pergunta. Para depois acrescentar, entrevistado pelo site 100% Noticias: "Querem tirá-lo da prisão, mas não sabem como, porque ele não quer sair da Nicarágua, mas a pressão internacional e interna fará com que sua libertação ocorra em breve".

No entanto, o otimismo de McFields contrasta com a nova onda de prisões de mais de 60 opositores do regime, todos acusados de atentar contra a integridade nacional e espalhar notícias falsas. Entre eles três jornalistas e dezenas de agricultores, ativistas e professores e até Marycruz Bermúdez a mãe da primeira vítima das manifestações de 2018, Richard Eduardo Pavón Bermúdez.

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