Para nós é o que dizem as escrituras. O valor específico de Maria segundo a moderadora da Távola Valdense

(Foto: Reprodução | Fé em Cristo)

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

06 Dezembro 2022

Uma figura feminina extraordinária, “cuja grandeza corre o risco de ser empobrecida, em vez de valorizada, pelos dogmas e pela devoção popular". Máximo respeito, mas referência exclusiva à Bíblia, às escrituras do Novo Testamento como fonte de conhecimento: a posição das Igrejas Protestantes sobre a Mãe de Jesus é bem conhecida.

Conversamos sobre isso com a moderadora da Távola Valdense, Alessandra Trotta, advogada de Palermo e diaconisa, a segunda mulher nesta função, uma das três mulheres (entre as quais duas pastoras) entre os sete membros do corpo diretivo nacional da Igreja Evangélica Valdense – União das igrejas metodistas e valdenses, que também as representa nas relações com o estado.

A entrevista com Alessandra Trotta, moderadora da Igreja Evangélica Valdense, é editada por Antonella Mariani, foi publicada por revista Donne Chiesa Mondo, edição de dezembro de 2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Moderadora Trotta, quem é Maria para o protestantismo?

A Igreja Valdense, assim como as Igrejas que aderiram à Reforma Protestante no século XVI, é a Igreja da "Sola Scriptura". Isso significa que para nós Maria é o que as Escrituras falam sobre ela. O que foi construído fora das Escrituras muitas vezes nos deixa perplexos porque nos parece que corre o risco de provocar um desvio e até de trair uma figura cujo valor reside precisamente naquilo que as Escrituras falam sobre ela.

Descreva-nos algumas passagens do Evangelho em que, segundo você, Maria aparece em toda a sua grandeza.

Em primeiro lugar o Magnificat (Lucas 1, 46 ss.), passagem maravilhosa, poética, reveladora. Maria apresenta-se como a serva cuja baixeza o Senhor contemplou para realizar a sua obra de misericórdia, explicitando a consciência de ter sido escolhida não por um mérito particular ou por uma pureza específica.

E é isso que acontece frequentemente na Bíblia: o Senhor escolhe os outsiders, aqueles em quem menos se apostaria. Maria é uma adolescente e a posição da mulher na sociedade em que Jesus nasceu é bem conhecida e, infelizmente, em muitos aspectos também na nossa. O Magnificat fala o essencial de Maria: ela é a crente que aceita (conscientemente, depois de ter feito perguntas!) colocar-se à disposição do Senhor.

Que outros episódios você considera que sejam particularmente significativos sobre Maria?

Acredito que sejam aqueles que trazem à tona sua simples humanidade: ainda no Evangelho de Lucas, por exemplo, encontramos o episódio em que os pais foram procurar o menino Jesus, com doze anos, que tinha se afastado sem autorização, demonstrando que não tinha compreendido o destino do próprio filho.

Por outro lado, nas bodas de Canaã (João 2), Maria aparece como uma mulher insistente e confiante, a ponto de fazer Jesus mudar de ideia sobre o momento certo de se revelar. O filho diz: ainda não chegou a minha hora, mas com a sua insistência Maria permite compreender que, na presença de Jesus, é sempre o momento oportuno para a salvação. Mas o testemunho dos Evangelhos também nos leva a excluir a exaltação em si dos papéis familiares, com a redefinição da dimensão da "família" que o próprio Jesus realiza.

Vamos pensar em quando Jesus está no meio da multidão e alguém lhe fala que sua mãe, seus irmãos e irmãs estão procurando por ele para levá-lo para casa. E Ele responde: “Quem é minha mãe, quem são meus irmãos? Quem faz a vontade de meu Pai”. Jesus redefine as identidades familiares, fazendo com que os laços de sangue percam importância diante da visão de uma nova comunidade estruturada em outros fundamentos e em laços horizontais. Por fim, Maria é encontrada aos pés da Cruz, na dor extrema de uma mulher que está prestes a perder o filho daquela forma atroz e no amor tão humano de um filho que confia a mãe a outro filho.

É isso, o que os protestantes pensam de Maria está nessas passagens bíblicas. E parece-nos que aqui tudo é essencial.

Os protestantes não acreditam nos dogmas da virgindade perpétua, da Imaculada Conceição, da Assunção ao céu, não rezam a Ave Maria... Então, qual é o julgamento sobre a grande devoção mariana que distingue o catolicismo?

Quanto aos dogmas, parece-nos que não tenham fundamento bíblico e correm o risco de empobrecer o significado da figura de Maria, em vez de enriquecê-lo. Por exemplo, em nossa opinião, atribuir importância ao nascimento sem pecado original a distancia daquele elemento de humanidade que torna Maria tão verdadeira e próxima de nós.

Ela é uma mulher que está no topo de sua Igreja; você não acha que uma figura feminina como Maria poderia ser uma inspiração para as mulheres de hoje?

Tenho a sensação de que a valorização de Maria como figura de referência, enfatizando sua virgindade, inclusive eterna (o que expressa o desconforto de aceitar a existência de irmãos e irmãs, como nos diz a Bíblia) corre o risco de vincular o valor da mulher a um imaginário que olha para a sexualidade como algo impuro e escandaloso.

Paradoxalmente, nada garante que uma figura feminina carregada desse significado seja efetivamente uma inspiração nas lutas pela afirmação da igual dignidade e dos direitos iguais das mulheres na sociedade e nas igrejas.

Mas a figura de Maria hoje também tem outros valores: por exemplo, ela é mulher protagonista num mundo masculino...

Claro. De fato, o diálogo com o anjo Gabriel na Anunciação é belíssimo também por isso.

Pede-se o consenso a uma figura feminina em uma época em que ninguém jamais o teria feito. Mas lembro que a Bíblia está repleta de figuras femininas de extraordinário valor, recuperadas aliás no filão da Teologia feminista.

Então, qual é o valor específico de Maria?

Maria exprime o máximo do seu valor confiando-se e tornando-se instrumento do possível de Deus que irrompe no impossível humano. Pois bem, o nascimento virginal, como o nascimento de uma mulher estéril, representa isso. Maria é uma mulher e uma mãe com quem nos podemos identificar. É a humanidade que Deus ama e não é preciso carregá-la de outros significados para podermos amá-la nós mesmos, apreciá-la e senti-la próxima.

Leia mais