Ecumenismo após Karlsruhe

Foto: jcomp | Freepik

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

17 Outubro 2022

 

O Secretariado de Atividades Ecumênicas organizou em 29 de setembro último um webinar dedicado à Assembleia do Conselho Ecumênico de Igrejas - CEI - realizado em Karlsruhe, Alemanha, de 31 de agosto a 8 de setembro passado. Mediado pelo teólogo Simone Morandini, contou com as intervenções do pastor valdense Michel Charbonnier e do monge da Comunidade Ecumênica de Bose Guido Dotti, estes últimos participantes diretos da assembleia.

 

A reportagem é de Andrea Cappelletti, publicada por Settimana News, 16-10-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Simone Morandini destacou o caráter particular da Assembleia Ecumênica de Karlsruhe, considerando o momento dramático em que se realizou, precisamente no continente europeu. De fato, nos confrontamos com os desafios da guerra, das mudanças climáticas e das tensões nas relações entre as confissões cristãs.

 

Karlsruhe foi um momento significativo para compreender em que direção caminha o ecumenismo e o diálogo na comunhão eclesial.

 

A seguir reproduzimos alguns trechos das intervenções de Michel Charbonnier - reeleito membro do Comitê Central do CEI - e de Guido Dotti, colaborador do CEI.

 

Cristianismo das Diferenças

 

Michel Charbonnier relatou em primeiro lugar as sensações produzidas pela beleza das celebrações litúrgicas, em particular pelos cantos que remetem imediatamente à polifonia do encontro entre diferentes Igrejas.

 

Um aspecto que sempre impressiona, participando da Assembleia, é uma sensação de inesperada proximidade e benevolência entre todos os participantes e as participantes.

 

Claro que existem diferenças: culturais, éticas e teológicas, muitas vezes difíceis de entender e aceitar. Mas as crises mundiais mais prementes - especialmente a climática - contribuíram para "suavizar as arestas" para chegar às convergências da Assembleia.

 

Em Karlsruhe assistimos a um mundo que tenta conversar consigo mesmo e que tenta fazê-lo - mesmo que nem sempre consiga - de forma inclusiva. Além disso, conversar entre quatro mil pessoas não foi fácil.

 

Demasiada cautela?

 

Como delegado, Charbonnier viu todas as limitações organizacionais do evento.

 

As manhãs eram dedicadas a sessões plenárias temáticas, muitas vezes com sessões bastante "espetaculares", em que foram acolhidas as figuras ecumênicas de prestígio, ou entoados cantos, exibidos vídeos, etc.: todas atividades boas, que, no entanto, tiraram tempo à discussão dos documentos e ao exercício das decisões.

 

Os delegados receberam pouco menos de três horas por dia para realizar uma tarefa tão exigente. Essa é uma das razões - não secundária - por que saímos da Assembleia com grande cautela - talvez demasiada – nos temas mais importantes, especialmente aquele da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, ou o eterno conflito palestino-israelense.

 

O texto sobre a Ucrânia seguiu basicamente a linha do Comitê Central do CEI anteriormente realizado em Assis. Não há dúvida de que isso levou a um "fogo cruzado" entre os membros ucranianos e os membros russos da Assembleia, com estes últimos criticando duramente tal documento porque, em sua opinião, é o resultado da desinformação ucraniana.

 

Sobre o Oriente Médio, o debate se cristalizou sobre o uso do termo apartheid, em relação à política israelense para com os palestinos: em essência, o texto simplesmente propôs ao comitê central que estudasse com a Anistia Internacional e outras associações a legitimidade do uso da expressão.

 

Ecologia e Paz

 

A Declaração sobre Justiça Climática é um forte lembrete do desastre ecológico em curso e conclama as Igrejas a tomarem medidas urgentes com seus respectivos governos, propondo, por exemplo, importantes tributações sobre os grandes patrimônios. O documento alerta para o risco de que a transição ecológica - tão anunciada - resulte em mais uma exploração do chamado Terceiro ou Quarto Mundo, onde se encontram os maiores recursos necessários para a chamada economia verde.

 

O documento sobre a paz é, segundo Chabonnier, o mais detalhado, pois vem denunciar a responsabilidade da indústria armamentista que continua a alimentar os conflitos no mundo, denunciando, em termos inequívocos, o risco nuclear: algo que não acontecia há tempo!

 

Charbonnier, não esconde a fragilidade atual do CEI e uma certa "incoerência sistêmica" infelizmente atribuível à influência de elementos externos, políticos: emblemática, nesse sentido, a intervenção do representante das Religiões pela paz que convidou a Assembleia a retornar ser uma consciência crítica e profética do nosso mundo, em vez de "ser ditada pela agenda” dos governos.

 

Apesar das fragilidades, dos esforços e, justamente, das inconsistências, o CEI continua sendo um instrumento precioso da relação entre as Igrejas cristãs e do diálogo entre estas e as outras religiões.

 

Tensões não resolvidas

 

Conforme previsto por Simone Morandini, o webinar deu atenção especial ao que na Assembleia do CEI de Karlsruhe, foi gasto sobre a guerra na Ucrânia. Charbonnier, como membro do comitê central, falou da hipótese- efetivamente circulada - da expulsão da Igreja Ortodoxa Russa.

 

A posição que se afirmou no confronto, no entanto, reitera que a tarefa do Conselho Ecumênico não é remover os problemas com as exclusões, mas sim assumir a responsabilidade por eles, criando um espaço de diálogo persistente e sem julgamentos.

 

Nessa circunstância, porém, o Conselho não demonstrou ser capaz de suportar adequadamente a tensão entre os dois polos - russo e ucraniano - ou seja, ser um lugar de diálogo efetivo e de parrésìa. Representantes da Igreja Ortodoxa Russa, em junho, haviam reclamado que o conselho ecumênico estivesse à mercê da propaganda pró-ucraniana.

 

Em Karlsruhe reclamaram da mesma coisa. Mas, entretanto, não fizeram nada para trazer à discussão as questões centrais do CEI. Essa parte faltou totalmente. Permanece a confiança de que o que faltou possa ser recuperado durante o próximo mandato.

 

Moscou na defensiva

 

Guido Dotti confirmou as atitudes particularmente fechadas e defensivas do Patriarcado de Moscou. Mas salientou que não se deve subestimar que as "novas" Igrejas Ortodoxas na Ucrânia - a que ainda está em comunhão com o Patriarca de Moscou e a autocéfala chefiada por Constantinopla - pediram para aderir ao CEI. Isso criará para elas inevitavelmente, problemas com o Patriarcado de Moscou.

 

A primeira já era, de fato, membro do Conselho, mesmo que nunca tenha participados dos encontros; enquanto, para a segunda, a aceitação pelo Conselho significará o pleno reconhecimento da autocefalia.

 

Os representantes das duas Igrejas ucranianas, portanto, em vez de se culparem mutuamente pelo que não funcionou entre elas, preferiram colocar o interesse humanitário comum na frente da tragédia da guerra.

 

Os episódios de abusos mútuos são bem conhecidos - de antes e independentemente da guerra: agora destacam o desejo de cuidar, juntos, dos fiéis ucranianos, em vez de buscar culpas e responsabilidades.

 

Pode ser, sem dúvida, uma posição um pouco mais do que diplomática, mas o fato de se manifestar diante de todas as Igrejas – e que, portanto, estejam se expondo em uma modalidade “não beligerante” – é extremamente positivo.

 

Leia mais