Bruno Latour e uma sociologia planetária

Fonte: Wikimedia Commons

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14 Outubro 2022

 

“Daí a interessante e eclética crítica pós-humanista feita por Bruno Latour a uma longa tradição sociológica que empobreceu a noção do social, que foi reduzido às relações exclusivamente entre seres humanos, como se a sociedade fosse um domínio autônomo e capaz de se sustentar por si mesmo”. A reflexão é de Andrés Kogan Valderrama, sociólogo, em artigo publicado por Observatório Plurinacional de Águas, 12-10-2022. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

A recente morte do pensador francês Bruno Latour é, sem dúvida, uma grande perda para aqueles que acompanham sua obra por sua enorme contribuição para os tempos atuais e que acreditam na necessidade urgente de uma mudança na forma como tradicionalmente entendemos a sociologia.

 

Em nível pessoal e biográfico, minha aproximação com a obra de Latour se deu em 2008, após me formar em Sociologia no Chile e ler a versão espanhola de seu livro Reagregando o social. Uma introdução à teoria do ator-rede (Edufba; Edusc, 2012).

 

A leitura deste livro transformou radicalmente a minha forma de conceber a disciplina e ampliar um cânone de pensamento que historicamente dominou por uma concepção antropocêntrica daquilo que entendemos como social e uma visão específica do meio ambiente, como se fosse uma mera subdisciplina.

 

Assim, embora minha formação como sociólogo, em nível teórico e metodológico, tenha incorporado as grandes tradições epistemológicas das Ciências Sociais europeias, a maioria delas não conseguiu se esquivar da moderna separação histórica entre cultura e natureza, sejam elas funcionalistas, estruturalistas, fenomenológicas, marxistas ou sistêmicas.

 

Trata-se de revisar alguns conceitos sociológicos fundamentais para a disciplina, como os da luta de classes, diferenciação funcional, divisão do trabalho, campos sociais, sistemas sociais, mundos da vida, aparelhos sociais, estruturas sociais, que excluíram de sua análise a capacidade de agência do não-humano.

 

Daí a interessante e eclética crítica pós-humanista feita por Bruno Latour a uma longa tradição sociológica que empobreceu a noção do social, que foi reduzido às relações exclusivamente entre seres humanos, como se a sociedade fosse um domínio autônomo e capaz de se sustentar por si mesmo.

 

Diante disso, Latour propôs uma visão construtivista de um mundo socionatural e sociotécnico, mas que incorpora de maneira simétrica os não humanos na produção do planeta, o que é, sem dúvida, uma enorme ruptura com a separação e a dicotomia entre Ciências Sociais e Ciências Naturais.

 

Não é por acaso, portanto, que Latour tenha se tornado um autor fundamental para responder à crise ambiental em que nos encontramos, a qual se tornou a principal ameaça do nosso tempo e um problema impossível de compreender a partir de uma perspectiva reducionista do conhecimento.

 

Em outras palavras, a perspectiva de Latour nos ajuda a compreender as causas e as consequências ecológicas do Antropoceno, entendido este como uma época geológica causada pela ação humana, que começou com o surgimento da agricultura e se aprofundou com a Revolução Industrial, que está colocando em risco as condições mínimas para a reprodução da vida no planeta.

 

Infelizmente, o meio ambiente segue sendo visto como uma área específica de pesquisa ou intervenção, onde a política institucional não tem sido capaz de nos fornecer alternativas sustentáveis para viver na Terra, aprofundando assim modelos econômicos produtivistas e extrativistas, que herdaram as bases antropocêntricas do projeto moderno.

 

Consequentemente, continuamos vivenciando o mundo como se não fôssemos parte dele, mas como meros indivíduos completamente separados daquilo que entendemos por Natureza, a qual vivenciamos como algo exterior a nós, apesar dos efeitos cada vez mais frequentes da crise ambiental.

 

Diante disso, Latour toma a noção de Gaia, que, como outras denominações mais abrangentes e relacionais, como Pachamama ou Mãe Terra, é muito mais ampla do que a ideia ocidental e colonial de Natureza, pois é construída por todos os seres vivos de maneira conjunta e entrelaçada, e não como algo exterior a nós.

 

Pela mesma razão, fenômenos gerados pela crise ambiental, como a desertificação, o desmatamento, a migração climática, o derretimento das calotas polares, a extinção da flora e fauna, a falta de água doce, o aumento de incêndios e os furacões, nos obrigam a repensar como estamos vivendo e assim construir um horizonte diferente.

 

Levando em consideração tudo isso, a forma como nos relacionamos sócio-ambientalmente é fundamental, e ainda mais em uma região como a América Latina e o Caribe, por conta da sua enorme biodiversidade e da importância de seus bens comuns naturais para toda a Terra, razão pela qual a leitura de Latour torna-se um convite para conceber e experimentar o planeta a partir de um lugar do qual parece que queremos continuar a nos distanciar apesar de tudo o que aconteceu.

 

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