"O livro de Jó, clássico da literatura sapiencial, também tem algo a nos dizer sobre o drama da 'guerra justa' envolvendo a Ucrânia e a Rússia e os cristãos que foram batizados na mesma pia batismal em Kiev".
O comentário é de Patricia Fachin, jornalista, graduada e mestre em Filosofia pela Unisinos.
No livro de Jó, Deus põe seu servo fiel à prova. Ele permite que Satanás o tente para ver se ele continuaria fiel no infortúnio. Abatido pela miséria que cai sobre sua casa e sobre si próprio, a ponto de ficar completamente sozinho, Jó grita para ver se alguém responde às suas preces. Ao invés de Deus respondê-lo ou enviar algumas consolações para aliviar o seu sofrimento, permite que ele sofra ainda mais, a ponto de perder absolutamente tudo.
Em sua aflição, Jó inicia um ciclo de diálogos com seus amigos, os sábios. Enquanto estes explicam e justificam a Jó as razões de Deus para tudo que está acontecendo, reivindicando para si o melhor entendimento e compreensão sobre os fenômenos que o atormentam, o servo fiel não cessa de clamar e dirigir-se ao Senhor, reconhecendo nele a fonte de todas as coisas, inclusive naquelas que são incompreensíveis, tentando compreendê-las. Mas ele sabe da sua ignorância e limitação diante da Sabedoria divina. Assim, ignora os sábios e entrega-se a Iahweh, lamentando por tê-Lo mal compreendido, apesar de, diferentemente de seus amigos, ter se mantido junto ao Senhor:
"Reconheço que tudo podes
E que nenhum dos teus desígnios fica frustrado,
Sou aquele que degradou teus desígnios,
Com palavras sem sentido.
Falei de coisas que não entendia,
De maravilhas que me ultrapassam.
(Escuta-me, que vou falar;
Interrogar-te-ei e tu me responderás)
Conhecia-te só de ouvido,
Mas agora viram-te meus olhos:
Por isso, retrato-me
E faço penitência no pó e na cinza".
Depois de reconhecer Jó como o servo fiel, porque mesmo na provação permaneceu ao seu lado, Iahweh dirige-se aos sábios:
"Estou indignado contra ti e teus dois companheiros, porque não falastes corretamente de mim, como o fez meu servo Jó".
O livro de Jó, clássico da literatura sapiencial, também tem algo a nos dizer sobre o drama da "guerra justa" envolvendo a Ucrânia e a Rússia e os cristãos que foram batizados na mesma pia batismal em Kiev.
Assim como os sábios amigos de Jó, que querem eles próprios justificar a razão de todos os acontecimentos e responder e determinar o melhor modo de solucioná-los, lamentavelmente, os sábios de nossa era, inclusive dentro das igrejas cristãs, justificam a "guerra justa" na palavra de Deus. Esquecem-se que ainda não vivemos na pátria celeste, mas, como cristãos, devemos contribuir para a sua construção no ambiente inóspito e doente em que vivemos.
Que o mundo é "atacado pelas forças do mal", como disse o Patriarca Kirill, não é novidade, para crentes e descrentes. Basta abrir os olhos para verificar as nossas misérias, mas o combate às fraquezas humanas e à "desorientação moral", como justificou o Patriarca Kirill o seu apoio à "guerra justa", não serão "combatidos" desobedecendo a Deus:
"Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno. Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta. Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão". (Mateus 5:21-25)
Do outro extremo da Europa, grita o sucessor de Pedro:
“A guerra é uma loucura! Parem, por favor! Olhem essa crueldade!”
Na manhã deste domingo, 06-03-20202, na Oração do Ângelus, o Papa Francisco se dirigiu a toda a humanidade:
"Caros irmãos e irmãs,
Na Ucrânia correm rios de sangue e lágrimas. Não se trata apenas de uma operação militar, mas de uma guerra, que semeia morte, destruição e miséria. As vítimas são cada vez mais numerosas, assim como as pessoas em fuga, principalmente mães e crianças. Naquele país atormentado, a necessidade de assistência humanitária aumenta dramaticamente a cada hora".
E nos convidou a vivermos verdadeiramente a Quaresma:
"Rezemos juntos pela Ucrânia: temos suas bandeiras diante de nós. Rezemos juntos, como irmãos, a Nossa Senhora Rainha da Ucrânia. Ave Maria...".
É sempre Ela quem intercede por nós.