João Gilberto: um artista guiado pela simplicidade

Foto: Claudio Lobos | Flickr CC

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14 Outubro 2021

 

Quando pensamos em um artista, logo imaginamos que ele nos levará, a partir da sua arte, a ter pensamentos complexos acerca do mundo. Essa complexidade até pode aparecer na obra de diversos artistas, mas ela não é necessariamente algo que deve ser proposto. E é isso que diferencia o trabalho do músico João Gilberto: para ele, a simplicidade é o que importa.

A reportagem é de André Cardoso, estagiário e aluno do curso de Jornalismo da Unisinos.

Foi a partir da simplicidade de João Gilberto e, consequentemente, sua ligação com o Zen Budismo, que o professor Faustino Teixeira conduziu a terceira aula do curso livre “Mística e Espiritualidade”. Falando pela primeira vez, em um curso, sobre João Gilberto, o doutor em Teologia afirma que ao ouvir as músicas do artista, sentimos algo semelhante à poesia Haikai no coração.

 

 

Essa ligação com a cultura Zen e asiática foi manifestada, segundo Teixeira, em uma visita que João Gilberto fez ao Japão em 2003. Lá, ele estabeleceu uma sintonia com o povo japonês, que foi retribuída em um show com uma sessão de aplausos que durou 25 minutos ininterruptos. “João Gilberto buscou trazer simplicidade em sua música, que é marcada pela leveza, pelo tom menor no sentido de não ter barulho; é para ser ouvida na calma. É uma música que provoca calma.”

 

Contemplação

 

Segundo Faustino, no Zen Budismo há espaço para contemplação, para admirar as belezas naturais e da vida. Uma síntese da compreensão Zen seria algo como o modo de viver o real cotidiano sem complicá-lo com ideias. “Na base de tudo isso está uma visão contemplativa do mundo. Em um depoimento de 1959, ele [João Gilberto] disse: gostava de ficar horas e horas à beira do rio, ouvindo o coaxar dos sapos e vendo a luz, a claridade, os reflexos do sol na água. Tentava compreender tudo aquilo, consegui sentir, compreender; não compreendi. Aquilo ficou em mim e ainda hoje carrego comigo um bocado de todo aquele alumbramento”.

A contemplação de João Gilberto é aliada a um perfeccionismo na busca pela perfeição do canto e do toque do violão. “Vocês podem reparar que tem momentos em sua música em que quase não o ouvimos; ele só sussurra e provoca uma emoção única na vida”.

 

 

A relação de João Gilberto com o Zen Budismo fez, de acordo com Teixeira, um dos maiores admiradores do músico, o japonês Toshimitsu Aono, afirmar que ele não é brasileiro, mas, sim, japonês, por causa da sua estética suscinta, exata, repetindo-se infinitamente. “Ele canta num ritmo que não bate com o que está tocando e ainda assim tudo se encaixa. Como se nascesse um instrumento novo”, destaca.

O que fica, para Faustino, além de toda conexão do artista com o Zen Budismo, é um homem que “nunca se deixou corromper por dinheiro, indústria ou pelo público. Nunca aceitou nada que não quisesse e nunca se apresentou onde não queria, nunca conversou com quem não quisesse conversar, porque ele sabia que a grande arte é dádiva e dever ao mesmo tempo”.

 

 

O curso livre “Mística e Espiritualidade” segue nesta quinta-feira, 14-10-2021, com uma aula sobre “A arte de Heraldo do Monte e o Quarteto Novo”. Ela será realizada das 14h às 16h, com transmissão na página eletrônica do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, no Canal no YouTube e nas redes sociais do IHU.

 

 

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