Cooperativas: por uma revolução copernicana do trabalho

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12 Junho 2020

“No momento em que o mundo pós-pandemia está se plasmando, concluamos a revolução copernicana do trabalho iniciada durante o confinamento, facilitando a criação e a transferência de empresas em Sociedades Cooperativas e Participativas (SCOP) e em Sociedades Cooperativas de Interesse Coletivo (SCIC). Porque a desindustrialização e o desemprego não são uma fatalidade”. A reflexão é de Maxime Quijoux, em artigo publicado por Alternatives Économiques, 10-06-2020. A tradução é de André Langer.

Maxime Quijoux é sociólogo e pesquisador do CNRS. É autor de, entre outros livros,  Adieux au Patronat. Lutte et gestion ouvrières dans une usine reprise par ses salariés, Editions du Croquant, 2018.

Eis o artigo.

Depois da excepcional crise de saúde que a França acaba de enfrentar, os projetos de autogestão de fábricas, como o que atualmente envolve a fábrica de máscaras de Plaintel (Côtes d'Armor), nos lembram que o valor de uma empresa consiste no apego e nas habilidades dos trabalhadores – e nada mais.

Em uma época marcada pelo signo da inovação a qualquer preço, encarnado pelo startupper jovem, intrépido e urbano, os trabalhadores das classes mais baixas parecem mais do que nunca pertencer a um “mundo derrotado”. Trancafiados em uma espécie de atraso social, que os tornaria incapazes de compreender a marcha da história econômica, são facilmente descritos como voltados aos seus territórios e seus ganhos sociais, e inclinados a todos os instintos populistas vis.

Graças a uma excepcional crise de saúde, esse olhar infeliz conheceu alguns desvios bem-vindos: percebemos o quanto a sociedade depende de uma infinidade de profissões mal pagas, penosas e desprezadas, realizadas essencialmente pela força da coragem e da abnegação dos trabalhadores – muitas vezes mulheres – que ocupam posições subalternas da divisão do trabalho e da sociedade. Graças ao conhecimento detalhado de suas atividades, de sua equipe e de seu estabelecimento, esses trabalhadores contribuíram muito para conter a doença, encher nossos carrinhos de compras, aliviar nossos idosos e participar da continuidade educacional do país.

Trâmites inovadores

Esta revolução copernicana do trabalho conheceu prolongamentos mais pontuais no setor industrial: assim, grupos de trabalhadores, muitas vezes liderados por ativistas sindicais, tentaram destacar a natureza essencial de sua atividade econômica e de suas habilidades. Os trabalhadores da fábrica de máscaras de Plaintel (Côtes d'Armor) são um caso emblemático: produtora histórica na França de máscaras AFPP, a empresa foi desmantelada e os equipamentos cortados quando foi fechada em 2018 pela multinacional estadunidense Honeywell, que a comprou alguns anos antes. Durante oito anos, a empresa perseguiu escrupulosamente a “maximização” da sua compra, reduzindo empregos, custos e investimentos. Enquanto a planta era lucrativa, o grupo decidiu fechá-la e realocá-la para a Tunísia, empurrando 300 trabalhadores ao desemprego. Em meio a uma crise de saúde, quando o governo não conseguiu fornecer máscaras, os membros do sindicato Solidaires lançaram o projeto de reabertura da empresa.

A ideia rapidamente encontrou eco entre as autoridades locais e o ex-diretor da planta. Foi criado um projeto de Sociedade Cooperativa de Interesse Coletivo (SCIC), que reúne colégios de acionistas de trabalhadores, usuários e poderes públicos. A emergência sanitária certamente ajudou a reabilitar a empresa; mas também se beneficiou de um coletivo de trabalhadores experientes e qualificados, detentores de conhecimento único... e ligado à sua empresa. Além disso, a iniciativa foi disputada por um investidor libanês-suíço, fazendo com que ex-trabalhadores receassem viver novamente o trauma de um fechamento injusto.

Diante desta perspectiva, coletiva e inovadora, há grandes chances infelizmente de que “o novo mundo”, de antes ou de depois, privilegiará, apesar de tudo, as receitas antigas. E se, por acaso, o projeto de SCIC viesse a ser escolhido e funcionasse, é igualmente provável que fosse minimizado ou isolado, não sendo o senso comum, em última análise, propício à novidade e à reversão das perspectivas, inclusive entre os encantadores da “disrupção”. No entanto, se a Plaintel conta com um ambiente sociopolítico favorável – com o apoio de coletividades locais e de um ex-secretário da Economia Solidária – a fábrica compartilha as características socioeconômicas de centenas de outras unidades de produção na França.

“Nossa fábrica de açúcar é linda”

Basta, para se convencer disso, confiar nos muitos trabalhos de história e de sociologia sobre o mundo dos operários e empregados. Quando este último é capaz de garantir a promessa de condições de vida satisfatórias, mediante condições aceitáveis de trabalho, salários e emprego, os trabalhadores, incluindo aqueles que ocupam os cargos menos qualificados, desenvolvem fortes ligações com sua empresa. Essas disposições, por sua vez, contribuem para a produção de conhecimentos profissionais específicos. Em alguns casos, esse conhecimento se aprofunda e generaliza por conta do sindicalismo. E mesmo quando essas expectativas falham, os trabalhadores geralmente querem continuar a realizar sua tarefa, muitas vezes sob o risco de sua integridade física ou mental.

Mais recente, o caso da refinaria de açúcar de Toury é um belo exemplo dessa história comum do trabalho popular: uma usina rural e centenária, que nos apressamos a integrar durante gerações, antes que uma multinacional decidiu fechá-la após uma crise temporária que ocorreu em 2019. No entanto, a usina é lucrativa e até bate recordes de produtividade quando os trabalhadores, em uma explosão de dignidade, mandam os chefes de volta aos seus escritórios: “nossa refinaria de açúcar é linda. São eles que não sabem como fazê-la funcionar. Vamos mostrar a eles do que somos capazes”, declaram, enquanto a produção está sendo retomada, entre outras coisas, pela demanda de gel hidroalcoólico.

Agradeçamos, a esse respeito, ao neoliberalismo. Ao procurar, por todos os meios, priorizar a produtividade sobre a atividade, e a lucratividade sobre a utilidade, conseguiu destacar o que 150 anos de militância dos trabalhadores estavam tentando demonstrar: o capital é profundamente improdutivo. O desempenho econômico depende exclusivamente do conhecimento dos trabalhadores.

A cooperativa, um modelo para o nosso tempo

Não é de se admirar que o movimento das sociedades cooperativas e participativas (SCOP e SCIC) – que se baseia em um modelo de propriedade coletiva e eletiva da empresa – esteja experimentando um entusiasmo crescente. Conhecido pelo público em geral por algumas lutas midiáticas de retomadas de empresa, esse estatuto empresarial reúne mais de 3 mil sociedades e 63 mil funcionários, incluindo principalmente empresas ex-nihilo, reunindo, às vezes, várias centenas de trabalhadores (a maior delas, a fábrica Acome, especializada na produção de cabos, conta com 1.300 trabalhadores).

Esse estatuto foi atualizado a cada crise ao longo do último século. No entanto, a crise atual vai muito além da ordem econômica. Diante da incompetência e da iniquidade do capitalismo financeirizado, o modelo cooperativo não responde apenas às aspirações por uma distribuição mais justa do valor agregado: ele abraça acima de tudo uma realidade sociológica de grande parte das empresas francesas, especialmente as industriais.

No momento em que o mundo pós-pandemia está se plasmando, concluamos a revolução copernicana do trabalho iniciada durante o confinamento, facilitando a criação e a transferência de empresas em Sociedades Cooperativas e Participativas (SCOP) e em Sociedades Cooperativas de Interesse Coletivo (SCIC). Porque a desindustrialização e o desemprego não são uma fatalidade.

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