O catolicismo não está sempre certo

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03 Julho 2019

Caros amigos e amigas, enquanto o cardeal alemão Brandmüller, um dos quatro redatores dos "dubia" sobre a ortodoxia da "Amoris laetitia", acusa de heresia até mesmo o Sínodo da Amazônia, que ainda não foi realizado, e enquanto o Papa Francisco conta - e a Civiltà Cattolica publica - ter perguntado brincando a uma mulher que lhe disse rezar por ele todos os dias: "diga-me a verdade, reza por mim ou contra mim?", um sinal do clima de assédio em que vive hoje o Evangelho na Igreja, é absolutamente necessário ler o discurso do Papa Francisco a Posillipo sobre teologia e o Mediterrâneo, "tenda da paz".

A opinião é de Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, em artigo publicado em Chiesa di Tutti, Chiesa dei Poveri, 28-06-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Foi uma blitz que o Papa fez em 21 de junho, partindo às 7h50 de helicóptero do Vaticano, falando à Faculdade de Teologia, e retornando a Nápoles às 13h12. Os jornais mal notaram, mas foi um acontecimento capital para a história deste pontificado e da própria Igreja no atual nó histórico. Formalmente, era um discurso sobre teologia, não no abstrato, mas no contexto do Mediterrâneo e a partir das novidades introduzidas pela Constituição Apostólica "Veritatis Gaudium" nos estudos eclesiásticos de 2017, mas de fato foi uma resposta à questão persistente formulada pelo Papa Paulo VI durante o Concílio: "Igreja de Cristo, o que falas sobre ti mesma?". Precisamos ler esta resposta, que também é uma resposta àqueles que gostariam de embalsamar a fé nos manuais, o kerygma na escolástica decadente e a evangelização no proselitismo; e é também uma resposta aos prelados e aos porta-vozes que acusam o papa de heresia, e também àqueles que, muçulmanos ou cristãos, ainda se sentem em clima de cruzada.

Precisamos ler o discurso, fluente, familiar e fundacional, sinal do tempo, capaz de prever o futuro; aqui nós indicamos apenas alguns pontos cruciais:

1. Francisco encerra o incidente em Regensburg, quando Bento XVI citou Manuel Paleólogo, que atribuía a Maomé "apenas coisas más e desumanas", e o faz invertendo o discurso ao relembrar as perseguições cometidas em nome de uma religião "que nós também fizemos". E citou a Chanson de Roland, onde se diz que "depois de vencer a batalha os muçulmanos eram alinhados, todos diante da pia batismal; havia um sujeito com uma espada, e os faziam escolher: ou você se batiza ou adeus ". E contra essa escolha, "o batismo ou a morte", o Papa Francisco apelou à não-violência "como horizonte e saber sobre o mundo", elemento constitutivo de toda teologia, de toda religião.

2. Francisco não reivindica o Mediterrâneo como um "mare nostrum" judeu-cristão, mas o celebra como o mar da mestiçagem, multicultural e multirreligioso, e, portanto, precisamente por isso mar para o diálogo e "grande tenda da paz".

3. Francisco nega que o patrimônio da fé possa ficar imóvel nos manuais, como acontecia "no tempo da teologia decadente, da escolástica decadente", quando ele estava estudando e se dizia brincando, mas não tanto, que todas as teses teológicas podiam ser provadas com um silogismo cujo termo médio era que "o catolicismo está sempre certo". A fé, pelo contrário, cresce com o diálogo. Um diálogo com as pessoas, com a Tradição, e também com textos sagrados, lendo na realidade, na criação e na história os sinais e referências teológicas ao mistério do caminho de Jesus que o leva à cruz, à ressurreição e ao dom do Espírito. Não é, portanto, uma apologética de controvérsia, mas uma hermenêutica do amor de Deus por todos os homens, por toda a fraternidade humana.

4. Francisco inclui a evangelização no diálogo, que é um testemunho não apenas das palavras (e cita São Francisco que dizia aos frades: "preguem o Evangelho, se fosse necessário também com palavras") e é acolhimento; não é, ao contrário, proselitismo: que "é a peste", como "peste" é a síndrome de Babel que consiste não na diferença das línguas, mas em não mais se escutar uns aos outros.

5. Francisco diz que a teologia deve ser interdisciplinar, compassiva, capaz de discernir no patrimônio recebido o que foi veículo da intenção misericordiosa de Deus e quanto, ao contrário, foi infiel; a teologia deve estar em solidariedade com todos os naufragados da história, começando com Jonas até os de hoje com quem devemos retomar a estrada sem medo. Tal teologia propiciará um novo Pentecostes teológico na liberdade de pensamento - para experimentar novos caminhos - no pressuposto da história, no convívio das diferenças, no trabalho comum de homens e mulheres e no acolhimento kerigmático de pessoas e povos, no Mediterrâneo e não somente.

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