Quem tem medo do “silêncio eterno”? Encontro com o astrônomo do Vaticano

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01 Agosto 2017

O jesuíta Guy Consolmagno vive com a cabeça nas nuvens. Ele nos assegura: "O universo tem um grande desejo de ser imenso, mas nós não somos pequenos aos olhos de Deus".

A reportagem é de Sylvain d'Orient, publicada por Aleteia França, 27-07-2017. A tradução é de Ramiro Mincato.

Em uma noite plenamente estrelada, sob a cúpula de um observatório, ao pé de um telescópio, um brilhante estudioso coça a barba, que ainda não era grisalha ... está ansioso. A pergunta que o persegue não é a expansão do universo, nem as estrelas gigantes, e nem mesmo o mistério dos buracos negros, mas o "para que eu sirvo na Terra?".

"Por que incomodar-se com as luas de Júpiter, quando há gente morrendo de fome na Terra?", pergunta-se. A questão é tão séria que o jovem astrônomo, em 1983, decidiu levar o telescópio de volta para o sótão, não obstante estivesse inserido em uma brilhante carreira, ensinasse no Observatório da Universidade de Harvard e no MIT. Apesar disso, apresentou-se, com sua preocupação, ao Peace Corps, organização humanitária americana, para tornar-se voluntário. Disse aos responsáveis pela seleção dos recursos humanos: “Vou para onde me mandarem. Farei o que me disserem. Só quero ajudar as pessoas”.

E foi assim que ele acabou no Quênia... ensinando Astronomia aos estudantes universitários de Nairóbi... Nestas alturas, espana o telescópio, sem preocupação. Em 1991 faz seus votos como irmão jesuíta e torna-se astrônomo no Observatório do Vaticano.
Quem tem medo do "silêncio eterno"?

Guy Consolmagno não vê contradição entre seu trabalho como astrônomo e seu estado de vida religiosa. Ele nos garante que estes dois componentes da sua de vida nutrem-se reciprocamente. No entanto, a contemplação do grande preto pontilhado de estrelas jogou muita gente na inquietação, começando por Blaise Pascal, aterrorizado pelo "silêncio eterno dos espaços infinitos". Mas, - lembra-nos o jesuíta – se em geral conhecemos a frase da angústia, não nos lembramos, muito frequentemente, como o texto continua, no qual Pascal garante que aquela vertigem leva à salvação: o homem, entre os dois abismos do infinito e do nada, é forçado a mudar sua curiosidade científica em admiração, e trepidando diante das maravilhas que observa, "estará mais disposto a contemplá-las em silêncio do que a pesquisá-las com presunção". O Irmão Consolmagno vê nas vertiginosas dimensões do universo a expressão da imensidão do poder criador de Deus. E, apesar desta imensidão, a humanidade, tão pequena, é preciosa aos olhos de Deus! "É uma velha história, basta ler o Salmo 8", disse ele, referindo-se aos versos:

Se eu considerar as obras das tuas mãos;
a lua e as estrelas que criaste,
o que é o homem, para que te lembres dele,
e o filho do homem, para que com ele te ocupes?

E a criação não é apenas grande, assegura-nos nosso astrônomo, mas também é linda: "Olhando para as estrelas contempla-se Deus em sua majestade". A ciência nos ajuda a tocar com mão a harmonia subjacente ao espetáculo das constelações. "Em nenhum caso a natureza é caótica", garante. Mesmo quando um fenômeno parece imprevisível e arbitrário - não há nada de mais interessante para o cientista. A fé em nada reduz a perspectiva científica:

“Pelo contrário, assegura-nos, ela amplifica a perspectiva, inserindo a pessoa em uma história que a transcende, e que dá sentido aos sofrimentos do momento presente”.

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