Catadores denunciam higienização e interesses de contratos milionários na coleta do lixo

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

22 Março 2017

A legitimidade e a legalidade do trabalho de catação de material reciclável em Porto Alegre foi tema de um seminário nesta terça-feira (21), no auditório do Ministério Público do Trabalho, que reuniu representantes dos catadores, da Defensoria Pública, advogados, juízes, procuradores e outras autoridades. Promovido pelo Movimento Nacional de Catadores de Material Reciclável, pelo Fórum Independente das Catadoras e Catadores de Porto Alegre e pelo Fórum Justiça, o seminário teve como objetivo envolver atores do sistema de Justiça, do poder Executivo e de entidades representativas para debater a situação dos catadores na capital gaúcha. O encontro teve a mediação do advogado Rodrigo de Medeiros, integrante do Fórum Justiça, e levantou também propostas para o encaminhamento da luta em defesa dos direitos dos catadores.

A reportagem é de Marco Weissheimer, publicada por Sul21, 21-03-2017.

Os catadores estão mobilizados em defesa do direito de continuarem seu trabalho diário nas ruas de Porto Alegre. O projeto original da chamada Lei das Carroças, de autoria de Sebastião Mello (PMDB), previu a retirada dos catadores do serviço de reciclagem e a sua “inserção no mercado de trabalho” por meio de cursos profissionalizantes. Um projeto do vereador Marcelo Sgarbossa (PT) conseguiu prorrogar o prazo dessa proibição até o dia 10 de março deste ano. Apesar do prazo já ter se esgotado, o líder do governo na Câmara de Vereadores, Claudio Janta (Solidariedade), anunciou que o Executivo não pretende colocar em vigor por enquanto a proibição do trabalho dos catadores.

Viés de higienização

Alex Cardoso, do Movimento Nacional dos Catadores de Material Reciclável (MNCR), destacou que os catadores estão diretamente ligados à vida da cidade e não são corpos estranhos a ela. Para ele, a lei que acabou sendo aprovada em Porto Alegre tem um claro viés de higienização e está relacionada também a interesses econômicos, pois a coleta do lixo gera contratos multimilionários. “A coleta convencional gera para as empresas envolvidos cerca de R$ 26 milhões por ano. O transporte dos resíduos de Porto Alegre para Minas de Leão rende cerca de R$ 28 milhões por ano. Por fim, o trabalho de enterrar esse lixo em Minas do Leão, rende R$ 32 milhões. Aí a gente vê os interesses que estão em jogo”, assinalou Cardoso.

Hoje, em Porto Alegre, acrescentou o representante do MNCR, há um sistema diferenciado, com contêineres, instalado nos dez principais bairros da cidade. “A população desses bairros passou a descartar todo o seu lixo nestes contêineres e tudo está indo para o aterro sanitário. Quem faz o transporte até lá ganha por tonelada transportada. A cada tonelada que os catadores coletam, é uma tonelada a menos para quem faz o transporte. O problema, então, não é entre os catadores e as unidades de triagem. Estamos falando de uma disputa entre catadores que não têm salário e empresas que ganham milhões com esse material”. “A nossa luta”, disse ainda Alex Cardoso, “não é por uma cesta básica. Nós criamos um lema. Se os carrinhos pararem, os carros também vão parar”.

Rogério Fleischmann, Procurador-Chefe do Ministério Público do Trabalho, defendeu a construção de uma proposta para garantir que os catadores entreguem o material coletado para as unidades de triagem e não para atravessadores. “Há uma acusação de que a catação nas ruas está tirando material das unidades de triagem. Podemos resolver isso. Minha proposta é de aproximação e construção coletiva. Continuar a catação e aprimorá-la, aproximando-a das unidades de triagem”, sugeriu Fleischmann.

Advogada e assessora jurídica do Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS), Jucemara Beltrame disse, por sua vez, que a lei proposta por Sebastião Mello implica o impedimento de um exercício profissional, de uma atividade legalizada desde 2002 e reconhecida pelo Ministério do Trabalho. “A Prefeitura anuncia a possibilidade de um fundo para os catadores. Quem fará a gestão desse fundo? E diz que pretende continuar com o programa Somos Todos Porto Alegre, que foi um fracasso, não atingindo os seus objetivos”. A advogada propôs a criação de um grupo de trabalho para analisar os dados do programa Somos Todos Porto Alegre e ver como foram aplicados os recursos. “Os valores pagos a esse programa foram escandalosos”, disse Jucemara Beltrame.

Representando a Associação Juízes para a Democracia (AJD), a juíza federal Ana Inés Algorta Latorre expressou a solidariedade da entidade à luta dos catadores pelo direito ao trabalho. “O poder público não pode querer impedir esse trabalho que é uma atividade lícita. O argumento da Prefeitura, segundo o qual o trabalho dos catadores atrapalha o trânsito, é indefensável. Ou será que a real motivação dessa proposta é a higienização mesmo? O curioso é que, de um modo geral, as pessoas que mais reclamam do trabalho dos catadores são as que mais produzem lixo”, afirmou a magistrada que lembrou ainda o contexto nacional no qual esse debate ocorre: “Os direitos dos trabalhadores estão sendo atacados como um todo no país. Hoje à tarde pode ser votada a lei das terceirizações que praticamente acaba com o direito do trabalho”.

Silvio Jardim, Procurador do Estado, representante da Comissão Estadual Para Erradicação do Trabalho Escravo (Coetrae), também criticou a intenção de proibir o trabalho dos catadores. “A Prefeitura, ao invés de querer proibir essa atividade, deveria estar implementando a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Aliás, já deveria ter sido ajuizada uma ação civil pública para exigir do prefeito a implementação dessa política”, disse o procurador que deixou essa ideia como proposta a ser construída pelas entidades que participaram do seminário.

Marcelo Sgarbossa lembrou que, em tese, desde o dia 10 de março, a circulação dos carrinhos está proibida, mas o governo disse que não pretende acelerar o projeto e não fará nada por enquanto. “Estamos vivendo uma situação insólita em Porto Alegre. A lei (das Carroças) está em vigor, existe a proibição, mas o prazo para ela entrar em vigor foi prorrogado de fato”, observou Jacques Alfonsin, da Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (Renap). Alfonsin defendeu o direito dos catadores seguirem trabalhando e lembrou o que a Lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos fala sobre esse trabalho. “Estamos desperdiçando o que essa lei nos oferece. Ela define o trabalho dos catadores como um instrumento gerador de trabalho e renda e produtor de cidadania. Isso não pode ser proibido pelo poder público. Ela também exalta o princípio da ecoeficiência, o estímulo à rotulagem ambiental e ao consumo sustentável relacionado a esse trabalho”.

Leia mais