A guerra de Macri contra o povo mapuche

Fonte: Wikimedia Commons

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19 Agosto 2017

“Esta é a nova Campanha do Deserto, não com a espada, mas com a educação”, disse Esteban Bullrich, então ministro da Educação e Esporte, ao inaugurar um hospital-escola, em setembro do ano passado. Para além da brutalidade das palavras do atual candidato a senador, que competiu com Cristina Fernández na província de Buenos Aires, a frase desnuda o que pensam os de cima a respeito dos povos originários.

A reportagem é de Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, publicada por La Jornada, 18-08-2017. A tradução é do Cepat.
 
A Campanha ou Conquista do Deserto foi um genocídio perpetrado pelo Estado argentino, entre 1878 e 1885, quando arrancou grandes extensões de território dos povos mapuche, ranquel e tehuelche. Os indígenas derrotados pelas forças comandadas por Julio Argentino Roca foram forçadamente deportados para campos de concentração, exibidos em museus ou transferidos para servir como mão de obra forçada.

O objetivo de fundo, esse que não se pode expressar em público, mas que é a força motriz obscura das ações, foi a expropriação de seus territórios para incorporar terras ao mercado e expandir a república em regiões que, antes e agora, são consideradas como deserto, porque são espaços pouco férteis para a acumulação de capital.

Os Bullrich (o candidato macrista e sua tia Patricia, atual ministra da Segurança) fazem parte de uma distinta família da oligarquia argentina, que teve um papel direto na Campanha do Deserto.

O historiador Osvaldo Bayer demonstrou, com base em documentos da Sociedade Rural, que entre 1876 e 1903 foram concedidos quase 42 milhões de hectares a 1.800 familiares e empresários amigos do presidente Roca. Algumas famílias, como a do ex-ministro da Economia da última ditadura, Martínez de Hoz, obtiveram gratuitamente 2,5 milhões de hectares.

Segundo um informe da BBC, uma boa parte dessas terras pertencem atualmente a Benetton, que possui quase 1 milhão de hectares, sendo um dos principais donos da Patagônia, em conflito permanente com as comunidades mapuches, já que a multinacional ocupa parte de seus territórios ancestrais.

O extrativismo é a continuação da Campanha do Deserto. Segundo o jornalista Dario Aranda, de 40 projetos mineiros em estudos (em 2003), avançou-se para 800 projetos (em 2015); de 12 milhões de hectares com soja transgênica, passou-se para 22 milhões no mesmo período. A Anistia Internacional contabilizou uma média de 250 casos de conflitos, entre os quais detectou um ponto em comum: por trás, sempre há empresas (agropecuárias, petroleiras e mineiras, entre outras) que atuam em cumplicidade, por ação ou omissão, com os governos.

Os meios de comunicação fazem um trabalho sujo ao vincular os mapuches às FARC, a grupos curdos e ao grupo ETA, sem prova alguma, só apoiados em declarações do governador de Chubut, a serviço do avanço da fronteira de extração. A ministra da Segurança, Bullrich, deu um passo a mais ao destacar que os mapuches são um problema para a segurança nacional e ao acusá-los de terroristas, ao mesmo tempo em que afirma que empunham um projeto secessionista.

“Não iremos permitir uma república autônoma e mapuche no meio da Argentina. Essa é a lógica que estão buscando, o desconhecimento do Estado argentino, a lógica é a lógica anarquista”, disse quem nos anos 1970 militava no ambiente da organização armada Montoneros.

Por trás de todo este alardeio, há uma realidade que é a que realmente incomoda: nos últimos 15 anos, após esgotar a instância administrativa e judicial, o povo mapuche recuperou 250.000 hectares que estavam nas mãos de grandes latifundiários, afirma Aranda. Ou seja, apesar da repressão, da criminalização e da difamação, os mapuches estão ganhando.

O conflito do Estado com a comunidade mapuche Pu Lof em Resistência, na localidade de Cushamen, província de Chubut, se intensificou em 2015, diante da repressão e criminalização de seus líderes. O lonko Facundo Jones Huala, autoridade mapuche da comunidade, foi preso no dia 28 de junho deste ano, no mesmo dia em que os presidentes Mauricio Macri e Michelle Bachelet se reuniam, sendo acusado pelos governos de terrorismo, incêndios, roubos, ameaças e, inclusive, de ter declarado guerra ao Chile e Argentina.

No dia primeiro de agosto, efetivos da Guarda Nacional destruíram e queimaram instalações da comunidade. No marco da repressão, desapareceu o ativista solidário Santiago Maldonado, quando não conseguiu cruzar um rio junto com seus companheiros perseguidos pelos policiais. Até agora, nada se sabe de seu paradeiro, o governo se nega a responder, ao passo que se fortalecem as marchas e concentrações exigindo seu aparecimento com vida.

Há três fatos que deixam em desespero os de cima e explicam a brutalidade repressiva.

Primeiro, o povo mapuche continua vivo, não se rende e recupera terras, que é a base de sua reconstrução como nação.

Segundo, a campanha nacional e internacional em seu apoio. Uma centena de organizações de povos originários, a Anistia Internacional, o Serviço de Paz e Justiça e a Assembleia Permanente de Direitos Humanos emitiram um comunicado intitulado “A luta indígena não é crime”, onde dizem que o Estado privilegia os interesses das petroleiras e criminaliza o povo mapuche.

Terceiro, os mapuches construíram as mais diversas organizações, entre elas a Resistência Ancestral Mapuche (RAM), dedicada a recuperar terras. Daniel Loncon, integrante da Cátedra Livre de Povos Originários, disse que entre os mapuches “alguns preferem a via diplomática, mas também fomos testemunhas de nossos avós que morreram indo de escritório em escritório buscar a legitimação de suas terras. Neste sentido, a RAM é uma expressão do povo mapuche, cansado desta injustiça histórica, mas consciente de onde está o poderio econômico que manipula tudo isto. Porque a recuperação não é feita de um vizinho, mas de uma multinacional”.

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