Estados Unidos acumulam derrotas

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03 Outubro 2026

A visão de Trump sobre a retirada das tropas estadunidenses do Iraque “reflete a desconexão com a realidade que o leva a insistir em apresentar fracassos como triunfos”, afirma o editorial do jornal mexicano La Jornada, 01-10-2026.

Eis o editorial.

O presidente estadunidense, Donald Trump, declarou que a retirada do Iraque das últimas tropas de ocupação de seu país representa “um grande dia” para os Estados Unidos. Classificou a saída dos 2.500 militares que permaneciam como assessores das forças armadas iraquianas como uma grande vitória, alcançada porque “estabeleci uma missão clara, forneci aos nossos comandantes as ferramentas para concluí-la e me recusei a permitir que uma presença temporária se tornasse permanente”. Da mesma forma, comparou essa manobra ordenada com a caótica debandada do Afeganistão ocorrida no primeiro ano de mandato de Joe Biden.

O que o republicano omitiu é que a saída do Iraque foi acordada e organizada durante o governo de seu antecessor, ao passo que o fiasco do Afeganistão foi resultado do acordo que ele assinou com o regime talibã quando este ocupava parcelas cada vez maiores do país. De maneira mais ampla, a visão de Trump sobre o ocorrido ontem reflete a desconexão com a realidade que o leva a insistir em apresentar fracassos como triunfos.

E não há nenhuma dúvida de que a retirada deverá ser inscrita na lista de fracassos de Washington: sai quando ainda há naquele território grupos armados hostis aos Estados Unidos; perde mais uma base de operações no Oriente Médio, depois que o Irã destruiu ou danificou seriamente suas instalações no Golfo Pérsico; deixa à deriva um governo aliado cuja capacidade de se manter sem a presença estadunidense não pode ser considerada certa.

Por fim, abandona sua aventura colonial sem ter cumprido os objetivos com os quais a empreendeu há 23 anos e após desperdiçar 770 bilhões de dólares apenas em operações militares, valor que ultrapassa 3 trilhões de dólares se forem considerados os juros da dívida e a assistência médica aos veteranos.

Também é preciso destacar a incompatibilidade da retirada com a aparente obsessão de Trump em aniquilar as capacidades militares do Irã e erradicar sua influência na região.

Do mesmo modo que a caça aos migrantes nos Estados Unidos é inconciliável com o propósito de revitalizar a indústria local, é inevitável que o fim da ocupação do Iraque facilite os movimentos da população majoritariamente xiita que simpatiza com Teerã e fortaleça as milícias da mesma tendência.

Por isso, a retirada é vista como uma admissão de que Washington não podia garantir a segurança de seu exíguo contingente e não dispõe dos recursos necessários para elevar essa presença a um nível remotamente semelhante aos 170 mil militares que chegou a mobilizar em 2011.

Além disso, embora o magnata fale em uma vitória definitiva, não há nenhuma garantia de que ela represente o fim dos reveses iniciados com a invasão de 2003 e a derrubada de Saddam Hussein. Cabe lembrar que a superpotência já havia se retirado durante o governo Obama, mas precisou voltar ainda sob a mesma administração para evitar que todo o Iraque caísse nas mãos do Estado Islâmico, então o mais poderoso e extremista dos grupos armados surgidos do caos semeado pelas próprias aventuras belicistas estadunidenses.

Como já foi dito, as autoridades iraquianas são frágeis e nada garante sua continuidade. Nesse sentido, pouco ajuda ao primeiro-ministro Ali al-Zaidi que Trump se refira a ele como “alguém que apoiei desde o início e a quem dei meu total respaldo”. Ao contrário, essa suposta afinidade enfraquece sua legitimidade aos olhos do povo iraquiano e corrói sua posição em um cenário de sectarismo e fragmentação político-territorial.

Pouco surpreendente, mas nem por isso menos indignante, é a ausência de qualquer menção às vítimas. Somente nos cinco primeiros anos da ocupação estadunidense, mais de um milhão de iraquianos morreram por causa da violência direta, da destruição dos sistemas de saúde e da infraestrutura de eletricidade e água potável. O número de feridos, desnutridos e deslocados é incalculável. Milhares de outros morreram desde então em razão do extremismo e do desaparecimento prático do Estado.

Todo esse sofrimento para que um grupo de falcões da classe política estadunidense consumasse sua intenção, há muito planejada, de se apropriar do petróleo do Iraque e repartir o país entre as grandes companhias de hidrocarbonetos e as empresas do setor de defesa.

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