O corvo e a águia. Artigo de Gianfranco Ravasi

Foto: Mohamed Nohassi/Unsplash

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03 Outubro 2026

"A expectativa média de vida humana aumentou em comparação com os padrões do passado. No entanto, permanece inalterada a verdade de que não importa quantos anos de vida se tem, mas sim quanta vida há nesses anos", escreve Gianfranco Ravasi, ex-prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 27-09-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Dizem que o corvo vive 300 anos, alimentando-se de carniça, enquanto a águia vive apenas 33 anos, nutrindo-se de sangue fresco. Certo dia, a águia decidiu experimentar o modo de vida do corvo. Ambos mergulharam sobre um cavalo morto. O corvo começou a bicar com voracidade. A águia bicou uma vez, tentou mais uma vez, mas depois disse ao corvo: "Meu irmão, em vez de me alimentar de carniça por trezentos anos, é melhor beber o sangue vivo nem que seja apenas uma vez e, depois, seja o que Deus quiser!" Essa é uma fábula citada pelo escritor Alexander Pushkin (1799–1837) em seu famoso romance A Filha do Capitão (1836). Sua lição moral é transparente: é mais satisfatório viver um único instante autêntico do que arrastar-se por anos na corrupção. De fato, existem pessoas que passam uma longa existência alimentando-se apenas de carniça, isto é, de realidades contaminadas, feitas de vício, de torpe egoísmo, de prazeres insensatos. E há vidas que, embora breves, são ricas em beleza, criatividade e luz.

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Essa é também a mensagem transmitida por um sábio bíblico, o autor do Livro da Sabedoria, que provavelmente viveu em Alexandria, no Egito, por volta de 30 a.C.: "A honra da velhice não provém de uma longa vida, e não se mede pelo número dos anos. Mas é a sabedoria que faz as vezes dos cabelos brancos; é uma vida pura que se tem em conta de velhice." (4,8–9).

A sociedade contemporânea valoriza, justamente a saúde, enquanto a medicina empenha-se apaixonadamente na erradicação das doenças, de forma que as estatísticas confirmam que a expectativa média de vida humana aumentou em comparação com os padrões do passado.

No entanto, permanece inalterada a verdade de que não importa quantos anos de vida se tem, mas sim quanta vida há nesses anos. Na célebre Antologia de Spoon River, o poeta estadunidense Edgar Lee Masters nos lembrava que "a vida sem sentido é uma tortura, de desassossego e de desejo vago".

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