Uma Jornada Mundial da Juventude como samaritanos. Artigo de Romina Gobbo

Foto: Vatican News

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26 Setembro 2026

"Enquanto o K-pop – o pop coreano - se tornou um fenômeno cultural global e também a prática do tae-kwon-do já superou as fronteiras nacionais, existem aspectos da Coreia que permanecem pouco conhecidos."

O artigo é de Romina Gobbo, publicado por Avvenire, 23-09-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

"Porque é tudo e o contrário de tudo", afirma o padre Vincenzo Bordo, natural de Viterbo, de 67 anos, da congregação dos Missionários Oblatos de Maria Imaculada, na Coreia do Sul há 36 anos. O que não é muito conhecido é que existem 250 mil jovens em situação de rua e 70 mil pessoas sem-teto. "É um fenômeno enorme. Elas não vêm até nós, então nós vamos até elas." O Padre Vincenzo tirou a carteira de motorista aos 60 anos para poder dirigir um ônibus nas periferias.

"Todos os dias, das 16h às 23h, realizamos o nosso atendimento de rua. Levamos comida e jogos para as crianças, mas também especialistas para oferecer atendimentos de saúde, psicológicos e jurídicos. Diariamente, encontramos de 100 a 120 jovens em situação de rua que, se não fossem ajudados, acabariam na criminalidade e na prostituição. Um jovem que vive nas ruas representa uma injustiça social. Os jovens têm o direito de ser amados, acolhidos e educados. Se isso não acontece, é um fracasso para todos. Cada dia é um desafio, porque também recebemos insultos, mas buscamos força na pedagogia de Jesus, que andava pelas ruas da Palestina ao encontro das pessoas”.

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Vincenzo escreveu sobre essa experiência, conhecida como “Azit”, em seu livro “Vi aspetto a Seul” (Vejo vocês em Seul), um instrumento de catequese em preparação para a próxima Jornada Mundial da Juventude, que, conforme desejado pelo Papa Francisco durante sua viagem apostólica ao país em 2014, será realizada na capital coreana de 3 a 8 de agosto de 2027. “Nessa ocasião, apresentarei o modelo ‘Azit’ à Igreja universal. Pois hoje é preciso ‘vestir o avental’ e sair das igrejas”.

O padre também fundou a “Casa de Anna”, uma organização sem fins lucrativos, financiada em 45% pelo governo, com o restante proveniente de doações privadas, que administra cerca de dez casas para jovens em situação de rua (desde menores até jovens adultos de 27 ou 28 anos), um refeitório para os pobres, que atende 500 pessoas diariamente, um abrigo para cerca de trinta pessoas sem-teto, um dormitório, uma pequena fábrica e diversos serviços que atendem a todas as necessidades. “Em primeiro lugar, alimentação, abrigo e trabalho. Para que se possa começar uma vida nova”. Alguns jovens das dioceses de Viterbo e Arezzo e de uma paróquia de Roma, ficarão hospedados justamente nas instalações da “Casa de Anna”. “Eles poderão se colocar a serviço dos nossos pobres. Será uma experiência significativa para eles, assim como será a JMJ, um evento que o governo e a Igreja local estão organizando de forma excelente”.

Ao longo das décadas também os pobres mudaram. “No início, havia uma pobreza no sentido clássico: os ‘mendigos’, sujos, maltrapilhos e pedindo esmola. Hoje, existem as novas pobrezas: são os outsiders de uma sociedade demasiado veloz, complexa e intrincada. Aqueles que não conseguem acompanhar o ritmo ficam para trás. A Coreia registra a maior taxa de suicídio do mundo, afetando principalmente idosos e jovens. Os primeiros porque não existem rede de proteção social, aposentadorias e não querem ser um fardo para os filhos. Os jovens porque a sociedade é extremamente competitiva e por vezes não conseguem atender às expectativas dos pais”.

A Coreia também vive o problema da secularização. Em 1990, quando Vincenzo chegou, 80% dos católicos (que, juntamente com os cristãos, representam cerca de 25% da população) frequentavam a missa dominical, hoje, esse número caiu para 17%. "Embora o número de fiéis já não seja o mesmo do passado, a Igreja permanece viva. Em 1990, éramos cerca de setenta missionários italianos, agora, somos seis.

Já não há tanta necessidade da nossa presença. O país conta com 2.500 paróquias e mais de seis mil sacerdotes locais. Além disso, a mudança cultural é inegável. Um exemplo: quando cheguei, as pessoas falavam em 'nossa família', 'nosso país', 'nossa nação' ou 'nosso bairro', ou seja, se usava o 'nós' para enfatizar o sentimento de pertencimento. Hoje, esse 'nós' foi substituído pelo 'eu'. Passou-se de um forte senso de comunidade para o individualismo. Alguns valores tradicionais se perderam." No entanto, outros parecem se manter.

"Nas tardes de sábado, muitos jovens vêm fazer trabalho voluntário. Pergunto-lhes: 'Por que vocês vêm?' Respondem: 'Porque servir à comunidade é importante. Compartilhar é uma alegria. Amar é algo belo. Porque isso me dá uma sensação de liberdade. Os pobres são importantes'. Falam de amor, justiça, liberdade e partilha. São nomes de Deus. Estão tendo uma experiência de Deus e não o sabem."

Esse país, onde o catolicismo é nativo, fundado por um grupo de leigos fascinados pelas Sagradas Escrituras, desde o início havia sido o sonho do padre Vincenzo. Hoje, ele é considerado um "coreano entre os coreanos" e ganhou o nome local Kim Ha-Jong, que significa "Servo de Deus". "Cada pessoa sozinha, abandonada é uma ferida aberta de Cristo Ressuscitado. Tenho a honra, a alegria e a graça de cuidar dessas feridas. A Casa de Anna não é apenas uma obra social, é uma experiência mística onde acolhemos, cuidamos e amamos."

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