10 Setembro 2026
Quirno (Pablo Quirno Magrane, ministro argentino das Relações Exteriores) se recusa a divulgar o discurso que fez na reunião convocada por Marco Rubio, alegando que isso poderia prejudicar as relações exteriores. No entanto, outra oradora publicou o seu discurso online.
A reportagem é de Luciana Bertoia, publicada por Página|12, 10-09-2026.
Nem o Ministério das Relações Exteriores nem a Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE) estão dispostos a divulgar quais compromissos foram assumidos durante a cúpula sobre o “ressurgimento do terrorismo político”, convocada pelos Estados Unidos em julho passado. A contradição reside no fato de que, embora o Ministério das Relações Exteriores da Argentina afirme não ter assinado nenhum acordo, recusa-se a revelar o que foi discutido, alegando que tudo está sujeito a sigilo.
O argumento apresentado em resposta aos pedidos de informação dos deputados peronistas e da Frente de Esquerda (FIT) foi que a divulgação desses dados poderia afetar as relações internacionais, de acordo com o que o Página|12 conseguiu reconstruir.
Em 16 de julho, o Ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno, participou de uma conferência organizada por Marco Rubio no Departamento de Estado. Na reunião, o chefe da diplomacia do governo Donald Trump expressou preocupação com um suposto aumento do terrorismo político de extrema-esquerda.
Longe de oferecer um discurso inovador, Rubio mencionou grupos como os Montoneros e os Tupamaros, afirmando que eles poderiam ser derrotados novamente, como já havia acontecido no passado. Para isso, argumentou, o compartilhamento de informações e os esforços coordenados entre as forças armadas eram essenciais. A proposta evocava a Operação Condor, a repressão coordenada das décadas de 1970 e 80.
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Durante a conferência, Quirno fez um discurso. José Lago Rodríguez, segundo em comando da SIDE, também esteve presente e destacou em suas redes sociais que a Argentina havia sido um dos cinco países escolhidos para apresentar no evento.
Tanto Agustín Rossi (Fuerza Patria) quanto Myriam Bregman (FIT-U) solicitaram informações. A resposta foi a mesma: os discursos e documentos preparados durante a cúpula estavam classificados como secretos por poderem afetar as relações internacionais.
No entanto, Rossi constatou que nem todos os países seguem essa lógica. A ministra das Relações Exteriores da Geórgia, Maka Botchorishvili, publicou suas declarações agradecendo a Marco Rubio por colocar a questão do terrorismo no topo da agenda.
A SIDE respondeu à FIT que todas as informações relativas à cúpula eram classificadas como confidenciais e que, se essas informações fossem divulgadas, o Sistema Nacional de Inteligência (SIN) poderia ser comprometido.
Segundo o contador Cristian Auguandra, a única informação disponível ao público foi a divulgada pelo Departamento de Estado. É curioso, pois foram Quirno e Lago Rodríguez que, por meio de suas redes sociais, mencionaram a intervenção na cúpula. O ministro das Relações Exteriores chegou a afirmar que estava disposto a cooperar com os Estados Unidos.
Não está claro o que essa colaboração implicaria, pois o Ministério das Relações Exteriores afirma que nenhum acordo foi firmado. Ao mesmo tempo, recusa-se a divulgar o conteúdo da reunião, alegando confidencialidade.
Diante da falta de resposta, Rossi levou o assunto à Agência de Acesso à Informação Pública (AAIP) para que este órgão pudesse analisar a recusa do Ministério das Relações Exteriores em fornecer informações.
Entre os pontos levantados pelo congressista, estão o fato de o Ministério das Relações Exteriores não ter explicado quais compromissos assumiu ou o motivo da presença da Argentina na cúpula. O governo também não esclareceu sua definição de terrorismo político nem se houve troca de informações com os Estados Unidos.
Se as informações ainda não tiverem vindo à tona após a intervenção da AAIP, Rossi poderá entrar com uma ação judicial. O juiz Walter Lara Correa decidiu recentemente que o Centro de Estudos Jurídicos e Sociais (CELS), as Avós da Praça de Maio e a Memoria Abierta tinham o direito de acessar documentos armazenados no SIDE referentes aos anos de terrorismo de Estado.
Auguádra e Lago Rodríguez compareceram perante a Comissão Bicameral de Supervisão das Agências e Atividades de Inteligência (CBI) em 25 de agosto. Nessa reunião, afirmaram que não estavam trabalhando em uma hipótese de terrorismo político — como a que motivou o encontro em Washington. A versão da SIDE contrasta com a do próprio Javier Milei, que vê terroristas disfarçados de estudantes e professores em universidades e denuncia o que alega serem atos terroristas nas ruas.
A FIT também solicitou informações ao Ministério da Segurança sobre as consequências da cúpula. No entanto, o ministério, chefiado por Alejandra Monteoliva, alegou desconhecer a situação. Pouco depois da conferência do Departamento de Estado, Monteoliva apresentou uma queixa contra aqueles que protestaram contra a Lei sobre a Inviolabilidade da Propriedade Privada e solicitou que fossem processados com a agravante de terrorismo.
Na última sexta-feira, por meio de um Decreto de Emergência (DNU), Milei aumentou o financiamento para o SIDE (Secretaria de Inteligência do Estado). A agência de espionagem recebeu um adicional de 30 bilhões de pesos. Ela já havia recebido quase 50 bilhões de pesos em julho.
Marco Rubio visitou recentemente a Colômbia, onde discutiu o chamado Escudo das Américas — ostensivamente voltado para o combate ao narcoterrorismo. O Secretário de Estado tem viagens agendadas para o Equador e o Peru. Lá, Keiko Fujimori anunciará a adesão de seu país a essa coalizão militar, da qual a Argentina já faz parte.
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