Mendonça intensifica politização do STF às vésperas da eleição

Foto: André Mendonça | Agência Brasil

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09 Setembro 2026

A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar preventivamente o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa, elevou a um novo patamar a crise na mais alta Corte do país.

A reportagem é publicada por ExtraClasse, 08-09-2026.

A menos de um mês das eleições, a intervenção na cúpula da PF acentua a politização de uma disputa que já extrapolou os limites do tribunal e coloca no centro do debate os possíveis efeitos eleitorais da atuação do ministro relator do caso Master.

O afastamento do diretor-geral da PF ocorre em um momento de forte protagonismo da corporação. Sob a direção de Andrei Rodrigues desde 2023, foram realizadas algumas das investigações de maior repercussão do país.

Nesse período, a PF avançou sobre a tentativa de golpe de Estado e a chamada "Abin paralela", investigou desvios de emendas parlamentares na Operação Overclean e o esquema de descontos ilegais de aposentados e pensionistas do INSS. Mais recentemente, atingiu estruturas financeiras do crime organizado. Com as sucessivas fases da Operação Compliance Zero, que passaram a alcançar suspeitas de fraudes bilionárias, lavagem de dinheiro e corrupção de agentes públicos, o Banco Master entrou no centro das investigações que culminaram com a prisão de Daniel Vorcaro.

Almada foi o principal encarregado de comandar o que ficou conhecido como a "investigação da investigação" da morte da vereadora Marielle Franco. O trabalho do delegado que comandou a superintendência da PF no Rio apontou os motivos que levaram à suposta impunidade dos responsáveis pelo assassinato até então.

Tomada a menos de um mês das eleições, a medida atinge dois dos principais integrantes da instituição subordinada ao governo Lula e foi provocada por petições apresentadas pelo Partido Novo nos dias 2 e 3 de setembro. O episódio ocorre ainda em meio ao confronto entre os ministros Mendonça e Alexandre de Moraes e depois de manifestações públicas do próprio Mendonça que suscitaram questionamentos sobre a neutralidade política esperada de um magistrado.

Para juristas ouvidos pelo Extra Classe, embora não existam elementos que permitam afirmar uma intenção eleitoral por trás da decisão, sua dimensão política e seus possíveis efeitos sobre a campanha presidencial não podem ser ignorados. A repercussão chegou à própria PF: integrantes enxergam motivação política no afastamento e 11 diretores colocaram seus cargos à disposição em solidariedade aos afastados.

Mendonça justificou a medida pela "superlativa gravidade" dos fatos relacionados à produção de relatórios de inteligência que teriam acompanhado sua atuação e sua relação com o advogado-geral da União, Jorge Messias. O ministro afirma ter sido submetido a um "monitoramento sistemático e ilegal" por mais de um mês.

Decisão política

Lenio Streck, jurista, professor de Direito e procurador de Justiça aposentado do Ministério Público do Rio Grande do Sul, considera que a politização começou na própria provocação feita ao Supremo.

"Um partido não poderia ter pedido isso. Ao pedir, politizou ao máximo a questão. E a decisão igualmente foi política", afirma. Sobre os possíveis reflexos eleitorais, Streck é taxativo: "Qualquer decisão política tem reflexos eleitorais. E o prejuízo será do governo. Será ou já é", entende ele, um dos mais renomados juristas do país.

Um constitucionalista ouvido pela reportagem sob condição de anonimato faz uma avaliação ainda mais contundente. Para o jurista, o STF estaria entrando diretamente no debate eleitoral. Ele chama atenção para o fato de Mendonça ter decidido sem ouvir previamente a Procuradoria-Geral da República (PGR) e avalia que o episódio acaba arrastando também para o centro da crise o advogado-geral da União, Jorge Messias.

Suspeição de Mendonça entra no debate

A controvérsia política se soma a outra questão: se Mendonça deveria decidir sobre autoridades responsáveis pela produção de relatórios de inteligência nos quais ele próprio aparece e que considera resultado de um monitoramento ilegal.

Para a advogada Evelyn Melo Silva, mestre em Direito Público pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e integrante da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), esse é um ponto central.

"Na minha opinião, nesse caso, o ministro é suspeito", afirma. Segundo ela, a questão decorre do fato de o próprio Mendonça se considerar atingido pelos relatórios que fundamentaram sua decisão. "Como ele é um dos, entre aspas, investigados nesses relatórios de monitoramento, ele tem interesse direto na causa", explica.

Evelyn faz, porém, uma distinção importante em relação à ausência de manifestação prévia da PGR. Na opinião dela, esse fato, isoladamente, não invalida juridicamente a decisão. Em pedidos liminares, explica, o magistrado pode, diante da urgência e dos requisitos legais, decidir antes de ouvir as demais partes ou o Ministério Público.

A pequena divergência à parte, não tira a contundência de Streck. Para ele, a própria intervenção sobre a direção da PF é inconstitucional.

"A decisão é ilegal e inconstitucional. A PF não está subordinada ao Poder Judiciário", afirma Streck. Segundo ele, o controle externo da atividade policial é atribuição constitucional do Ministério Público. "Fora disso, é ingerência no Poder Executivo."

Sinais trocados

A crise também produz uma inversão de papéis em relação ao governo Jair Bolsonaro. Em 2020, Alexandre de Moraes suspendeu a nomeação do delegado Alexandre Ramagem para a direção-geral da PF, após Sergio Moro acusar Bolsonaro de tentar interferir politicamente na instituição. Moraes apontou possível desvio de finalidade na indicação e violação aos princípios da impessoalidade, moralidade e interesse público.

Meses depois, já sob o comando de André Mendonça no Ministério da Justiça, a Secretaria de Operações Integradas (Seopi) produziu um relatório sigiloso com informações sobre 579 servidores da segurança pública identificados como integrantes do movimento antifascista, além de professores universitários. Mendonça negou tratar-se de um dossiê e sustentou que o documento fazia parte das atividades de inteligência do Estado.

A controvérsia chegou ao STF, que, por 9 votos a 1, proibiu o Ministério da Justiça de produzir ou compartilhar informações sobre cidadãos identificados por posições políticas ou pelo exercício legítimo das liberdades de expressão, reunião e associação.

Seis anos depois, os sinais aparecem trocados. Mendonça afasta a direção da PF justamente sob a acusação de uso indevido de relatórios de inteligência para monitorar autoridades, entre elas ele próprio. Os casos são juridicamente distintos, mas expõem a inversão de posições em torno de duas questões que atravessam ambos os episódios: os limites da interferência sobre a Polícia Federal e do uso da inteligência do Estado.

Mendonça vira símbolo bolsonarista

A discussão sobre os efeitos eleitorais da crise ganhou contornos mais concretos nos dias que antecederam as manifestações de 7 de Setembro. Enquanto lideranças políticas e religiosas ligadas ao bolsonarismo promoviam correntes de oração e manifestações de solidariedade a André Mendonça, o ministro passava a ser apresentado como contraponto a Alexandre de Moraes na disputa que divide o Supremo.

Na sexta-feira, 4, três dias antes dos protestos, Mendonça divulgou um vídeo no qual se dirigiu a "irmãos e irmãs", agradeceu as orações e mensagens de carinho que vinha recebendo e afirmou que elas estavam sendo fundamentais para sustentá-lo e à sua família. A manifestação ocorreu quando campanhas de apoio ao ministro já circulavam nas redes sociais, inclusive impulsionadas por lideranças políticas e religiosas alinhadas à oposição.

A mensagem não convocava explicitamente a população a participar de manifestações. Acabou, porém, inserida em uma mobilização política que desembocaria nos atos de domingo. No 7 de Setembro, o ministro apareceu como um dos símbolos dos protestos que dirigiam críticas ao governo Lula e a Alexandre de Moraes. Na Avenida Paulista, o ato convocado por Flávio Bolsonaro tinha como mote "Fora Lula, Fora Moraes" e manifestações de apoio a Mendonça.

Apesar da intensa mobilização política e religiosa que antecedeu o 7 de Setembro, o ato na Avenida Paulista foi esvaziado em comparação com as principais manifestações anteriores do bolsonarismo. O Monitor do Debate Político estimou 28,5 mil pessoas no momento de pico, 32,5% menos que as 42,2 mil registradas no 7 de Setembro de 2025.

O contexto ajuda a dimensionar a preocupação manifestada por Evelyn Melo. Para a especialista em Direito Eleitoral, a questão não está apenas na possibilidade de demonstrar uma intenção eleitoral do ministro, mas na neutralidade que deve orientar a conduta pública de um magistrado, ainda mais quando ocupa posição de destaque na Justiça Eleitoral.

"A fala dele viola a neutralidade, que é um dever do juiz", afirma Evelyn. A advogada ressalva que não existem elementos que permitam afirmar que Mendonça esteja deliberadamente atuando para beneficiar determinada candidatura. Mas considera inevitável a repercussão eleitoral de suas decisões. "É óbvio que isso vai repercutir eleitoralmente negativamente contra o Lula", avaliou ao comentar especificamente o afastamento da cúpula da PF.

Reação na PF e julgamento interrompido

A questão sobre a politização não elimina outra discussão provocada pelo episódio: até onde pode ir um ministro do Supremo ao intervir diretamente na direção de um órgão subordinado ao Poder Executivo.

Além de afastar Andrei Rodrigues e Leandro Almada, Mendonça determinou a apuração de possíveis irregularidades relacionadas à produção dos relatórios de inteligência e restringiu a elaboração de novos documentos destinados a analisar a atuação de magistrados, integrantes da advocacia pública e agentes envolvidos em investigações policiais.

A reação dentro da corporação foi imediata. Onze integrantes da direção da PF colocaram seus cargos à disposição em solidariedade aos dois dirigentes. A manifestação conjunta repudiou as acusações contra Rodrigues e Almada, enquanto integrantes da cúpula classificaram a decisão como politicamente motivada.

Mendonça submeteu sua própria liminar à Segunda Turma do STF. Luiz Fux e Nunes Marques acompanharam o relator, formando maioria de três dos cinco integrantes pela manutenção dos afastamentos. O julgamento, entretanto, foi interrompido por pedido de vista de Gilmar Mendes. Dias Toffoli ainda não havia votado. Enquanto o julgamento não é concluído, permanece válida a decisão de Mendonça.

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