29 Agosto 2026
Entre o tudo e o nada. A nuvem é sinal da divindade e da comunhão dos justos com Deus para além da morte. Um levantamento de passagens dos textos sagrados para verificar a riqueza dessa metáfora
O artigo é de Gianfranco Ravasi, ex-prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, publicado por Il Sole 24 Ore, 23-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Aldous Huxley, o autor inglês do romance Admirável Mundo Novo (1932) - uma antecipação visionária de uma era hipertecnológica em que os anos não eram mais contados a partir de Cristo, mas sim de Henry Ford, proprietário de uma imponente indústria mecânica - estava convencido de que "a Nuvem do Não Saber era a coisa mais preciosa que nos chegou da Idade Média". Que texto era esse com um título tão paradoxal quanto o seu conteúdo? Tratava-se de um original guia espiritual, composto no final do século XIV por um autor anônimo no inglês médio daquela época.
A nuvem simbólica em questão era a mesma que envolveu Moisés quando ele subiu ao Monte Sinai para encontrar Deus, tornando-o invisível ao povo. Para apreender a essência divina em sua nudez, é preciso mergulhar na "nuvem do esquecimento", que apaga paixões, vícios e virtudes em uma catarse absoluta, pois é nesse Nada que se descobre o Tudo divino.
Aqueles que creem suspensos nessa nuvem, imóveis, despojados de apegos mundanos e silenciosos como a Maria dos Evangelhos irmã de Marta (Lucas 10,38-42), que se abstraia de toda realidade externa, eram absorvidos pela quietude própria do "não lugar"; ali, descobriam a Palavra suprema e abraçavam Deus, o Eterno e o Infinito.
Por trás dessa obra fascinante, onde o Nada e o Tudo se cruzam no homem e até mesmo em Deus, percebe-se um simbolismo muito difundido nas páginas sagradas, especialmente do Antigo Testamento, mas também naquelas cristãs, a nuvem; o termo grego nephélê aparece vinte e cinco vezes no Novo Testamento, ao lado do hapax néphos que na Epístola aos Hebreus (12,1), representa a comunidade das testemunhas da fé como gotículas através das quais transparece a luz divina.
Naturalmente, há também referências concretas ao fenômeno atmosférico em si, como nesta passagem de um hino do Eclesiástico, um sábio bíblico do século II a.C.: "O Senhor lança os raios do seu julgamento, se abrem seus depósitos, e as nuvens voam como pássaros" (43,13–14). O próprio Jesus valia-se das previsões meteorológicas: "Quando vedes uma nuvem vinda do ocidente, logo dizeis que vem chuva" (Lucas 12,54). Na Carta de Judas, a imagem de "nuvens sem chuva, levadas pelos ventos" torna-se um paradigma metafórico moral (v. 12).
De qualquer, porém, a nuvem permanece como um símbolo por excelência da teofania, sobretudo porque permite representar a dialética entre imanência e transcendência divina. De um lado, ela vela Deus e o Seu mistério, protegendo-o dos olhares humanos impuros ou movidos pelo desejo de conquistar o seu poder. Assim, no Sinai - no relato do Livro do Êxodo, referência textual capital a esse respeito - o próprio Moisés não pode ver o Senhor cara a cara, pois tal visão seria mortal diante do abismo avassalador da luz divina; ele só consegue intuir a sua presença para além do véu de nuvens, que são também consideradas uma "carruagem" real sagrada.
Do outro lado, justamente por essa presença velada, o povo sabe que um Deus que o salva habita lá no alto. Eis, então, a famosa imagem da coluna de nuvem que acompanha Israel em sua jornada pelo deserto rumo à Terra Prometida, após deixar para trás a opressão faraônica. "E o Senhor ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem para os guiar pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo para os iluminar" (Êxodo 13,21). Avançando sob o sol abrasador do deserto, as nuvens se tornam quase um dossel protetor; à noite, iluminadas por um sol milagroso, permitem proceder ao longo das trilhas da estepe.
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Assim, as nuvens encarnam tanto a distância transcendente e onipotente do Salvador quanto a sua proximidade imanente e salvífica.
Sugestiva é a confissão de Moisés sobre sua experiência no topo do Sinai ao receber o Decálogo, uma experiência que, de longe, também o povo pode perceber: "Estas palavras falou o Senhor a toda a vossa congregação no monte, do meio do fogo, da nuvem e da escuridão" (Deuteronômio 5,22).
Como é evidente, Deus não é uma figura estática como uma estátua, mas uma voz que fala através de uma coexistência de nuvens e fogo, isto é, relâmpagos e trovões, tal como havia acontecido quando Israel chegou pela primeira vez ao pé do Sinai: "Vieram trovões e relâmpagos, e espessa nuvem sobre o monte, e som de trombeta muito forte " (Êxodo 19,16).
Por essa razão também, o Templo de Salomão, no momento de sua consagração, foi coberto por um véu de nuvens, por trás das quais pulsa a presença divina. Entre os muitos símbolos associados às nuvens divinas, o símbolo messiânico merece menção especial. Ele se encontra em uma passagem famosa do Livro de Daniel, retomado com força por Cristo em várias ocasiões, inclusive durante seu julgamento perante o Sinédrio: "Eis que alguém semelhante a um filho do homem vinha com as nuvens do céu", chegando diante de Deus para receber "um domínio eterno que não acabará", ao passo que "todos os povos, nações e línguas o adoram" (7,13–14). Palavras reafirmadas por Jesus quando o Sumo Sacerdote lhe pergunta se ele se considera "o Cristo, o Filho de Deus": "Tu o disseste; digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu" (Mateus 26,63-64).
A referência ao trono divino e às nuvens celestiais evoca a natureza divina desse Messias (Cristo); de fato, a passagem de Daniel nunca foi adotada pelo judaísmo em relação ao Messias - sempre considerado uma criatura humana - justamente por causa dessa dimensão transcendente.
Jesus, porém, aplica-a a si mesmo, provocando assim a acusação de blasfêmia: "O Sumo Sacerdote rasgou as suas vestes e disse: 'Ele blasfemou!'" (26,65).
Uma confirmação gloriosa e epifânica da divindade de Cristo já havia ocorrido no cume do Monte da Transfiguração, quando "uma nuvem resplandecente os envolveu, e dela saiu uma voz que dizia: 'Este é o meu Filho amado'" (17,5). Essa mesma revelação se cumprirá no fim dos tempos, quando "todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória" (24,30). Então, “nós seremos arrebatados nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor" (1 Tessalonicenses 4,17). A nuvem é, portanto, sinal da divindade e da comunhão dos justos com Deus para além da morte.
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