Uma casa estreita. Artigo de Gianfranco Ravasi

Imagem de Santo Agostinho na Igreja Dominicana de Sta Maria Minerva em Roma. (Foto: Lawrence OP/Flickr)

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29 Agosto 2026

"Mesmo para o não crente, Agostinho evoca duas dimensões. De um lado, há a necessidade de retornar e se alojar in interiore homine, ou seja, nas profundezas da consciência, rompendo o véu da exterioridade superficial, nível para o qual uma vida frenética e banal nos conduz. Do outro lado, há a busca pela transcendência, isto é, por um sentido último do ser e do existir", escreve Gianfranco Ravasi, ex-prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 28-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Estreita é a casa de minha alma para que venhas até ela: que seja por ti dilatada. Está em ruínas; restaura-a. Há nela nódoas que ofendem o teu olhar: confesso-o, pois eu o sei; porém, quem haverá de purificá-la? A quem clamarei senão a ti? Livra-me, Senhor!

O próprio título desta coluna alude ao livro oficial de orações da Igreja, o Breviário, hoje conhecido como "Liturgia das Horas", devido à forma como marca a passagem do dia. É legítimo, portanto, introduzir uma oração que extraímos daquela obra-prima, as Confissões de Santo Agostinho, um gênio da humanidade graças à sua imensa produção teológico-filosófica e literária (ele chegou até a interessar-se por música). Em 28 de agosto, aniversário de sua morte, ocorrida em 430 d.C., aos 75 anos, na cidade argelina de Hipona, onde serviu como bispo, o calendário comemora a sua pessoa, amada tanto por crentes como Petrarca quanto por muitos agnósticos como Camus.

De fato, essa invocação dirige-se a Deus - como frequentemente ocorre em suas obras, mesmo nas de caráter teórico, que se dirigem ao "Tu" divino -, mas também abriga um olhar para as profundezas interiores da pessoa humana. Naquela casa íntima e estreita, aguarda-se a chegada de um Salvador. É a certeza de que o "Eu" e Deus poderão encontrar-se naquele espaço estreito e despojado. Mesmo para o não crente, Agostinho evoca duas dimensões. De um lado, há a necessidade de retornar e se alojar in interiore homine, ou seja, nas profundezas da consciência, rompendo o véu da exterioridade superficial, nível para o qual uma vida frenética e banal nos conduz. Do outro lado, há a busca pela transcendência, isto é, por um sentido último do ser e do existir, como confessava o citado ateu Camus: "Sou Agostinho antes da conversão, às voltas com o problema do mal".

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