18 Agosto 2026
Relatório revela que o planeta em ebulição não transforma apenas o clima. Ele acelera a propagação de vírus, bactérias e fungos que antes estavam longe de nós. A boa notícia é que a ciência já sabe como agir.
O artigo é de Henrique Cortez, jornalista e ambientalista, publicado por EcoDebate, 17-08-2026.
Eis o artigo.
A estação que não reconheço mais
Você já parou para reparar que o outono parece cada vez mais um verão prolongado? Que o inverno chega tarde e vai embora cedo, deixando um rastro de dias quentes onde antes era frio? Não é impressão sua. Eu também tenho sentido isso nas últimas temporadas e não estou falando apenas de desconforto térmico. Estou falando de algo muito mais silencioso e perigoso.
Essa virada no ritmo da natureza não está apenas bagunçando nossos calendários. Está reescrevendo, em tempo real, o mapa das doenças que nos cercam. O que antes era um problema de geleiras e ursos polares agora entrou pela porta da frente, no posto de saúde mais próximo, no boletim de dengue da sua cidade.
O relatório global “Role of Climate Change on Emerging and Reemerging Infectious Diseases: From Attribution to Action in Global Health Preparedness”, coloca isso em números e em palavras que não podemos mais ignorar: a mudança climática antropogênica, aquela que alimentamos a cada dia com nossa forma de produzir, consumir e viver, tornou-se uma ameaça fundamental à saúde pública. Não é uma ameaça futura. É atual, presente, e já está fazendo vítimas.
O motor invisível das epidemias
Quando falamos em aquecimento global, costumamos imaginar ondas de calor, secas, enchentes. Raramente pensamos em vírus. Mas a ciência hoje é categórica ao afirmar que o clima não é o cenário onde a vida acontece; ele é o motor principal da dinâmica das doenças infecciosas.
Microrganismos que antes estavam confinados a regiões tropicais, equilibrados por cadeias ecológicas estáveis, estão encontrando novos lares. Mosquitos migram para altitudes mais altas, pulgas sobrevivem a invernos mais curtos, fungos se adaptam a temperaturas que antes os inativariam. Não é ficção científica. É ecologia em movimento, impulsionada por nós.
O relatório me chamou a atenção para um campo que considero fascinante e ao mesmo tempo assustador: a Ciência da Atribuição. Diferente das afirmações vagas de que “o calor favorece doenças”, os cientistas estão agora quantificando com precisão o quanto de cada surto pode ser debitado diretamente à nossa interferência no clima.
Sabe aquela sensação de que todo ano a dengue chega mais forte? Ela tem lastro matemático. Os pesquisadores estimam que cerca de 18% da carga global de dengue entre 1995 e 2014 pode ser atribuída às mudanças climáticas. Não é um detalhe. É quase um quinto de todas as infecções. Em 2023, o Ciclone Yaku no Peru desencadeou chuvas extremas que tornaram o maior surto de dengue da história daquele país, 189% mais provável justamente por causa da interferência humana no clima.
Não são números frios. São leitos de UTI, famílias de luto, crianças com febre, idosos desidratados. Cada porcentagem ali tem um rosto.
Doenças que nunca pediram visto
O relatório elenca uma lista de velhos conhecidos que estão ganhando novo fôlego. O Vírus do Nilo Ocidental, que considerávamos um problema restrito a algumas regiões da África e Oriente Médio, agora se espalha pela Europa, aproveitando verões mais longos e invernos que não matam mais seus vetores. A própria peste, a mesma que dizimou populações na Idade Média, está reemergindo em focos pontuais porque roedores e pulgas encontram condições favoráveis em climas alterados.
Mas o que mais me impactou foi o alerta sobre infecções fúngicas invasivas, como a candidemia. Fungos sempre foram uma ameaça para pessoas imunossuprimidas, mas agora estão se adaptando ao calor do nosso planeta. E, como sabemos, fungos são particularmente difíceis de tratar. Há poucos medicamentos disponíveis e a resistência aumenta.
Parece um enredo de filme de suspense, mas é a realidade da pesquisa médica hoje. O calor ensina os patógenos a sobreviverem dentro de nós.
O que a COVID-19 nos ensinou e ainda não colocamos em prática
Se tem uma coisa que a pandemia de COVID-19 deixou muito clara é que sistemas de saúde frágeis e a desinformação matam tanto quanto o próprio vírus. Mas também nos mostrou o poder da ciência quando ela age rápido, de forma colaborativa e transparente.
O relatório sugere que o caminho para nos prepararmos para o que vem pela frente não é construir muros, mas sim pontes. Pontes entre laboratórios e comunidades, entre dados ambientais e registros médicos, entre governos e cidadãos.
Isso significa investir em diagnósticos acessíveis. Soa básico, mas muitas comunidades carecem dos testes mais simples para identificar um surto antes que ele se alastre. Significa também Vigilância Genômica, o monitoramento do material genético de patógenos, inclusive no esgoto das cidades, para detectar ameaças quando ainda são apenas um sinal fraco. E, acima de tudo, significa união global e local. O clima não respeita fronteiras e as doenças também não. Dados abertos, compartilhamento justo, cooperação entre países e entre vizinhos de bairro.
O que eu posso fazer?
É a pergunta que sempre faço quando o tema parece grande demais. Mudança climática, emergência sanitária, vigilância genômica, parecem assuntos de cientistas em jalecos brancos e diplomatas em salas fechadas. Mas o relatório enfatiza que a transformação passa pelo engajamento comunitário.
E isso inclui você e eu
Profissionais de saúde precisam ser treinados para reconhecer essas “novas” doenças que estão ressurgindo e nós, como cidadãos, precisamos confiar na ciência, mas também cobrar políticas públicas de adaptação. Exigir que nosso posto de saúde tenha testes rápidos. Apoiar a ciência aberta. Entender que o ar que respiramos e a água que bebemos não são vetores de medo, mas de vida e que protegê-los é uma escolha coletiva.
A ciência da atribuição já nos mostra os números. A ciência da convergência nos mostra o caminho: integrar climatologia, medicina, ecologia e ciências sociais. Não dá mais para tratar cada área separadamente.
Um futuro que ainda podemos escrever
Fecho o relatório com uma mistura de inquietação e esperança. Inquietação porque os dados são incontornáveis. Esperança porque a ciência já sabe o que fazer. Diagnósticos acessíveis, vigilância genômica inteligente, sistemas de resposta rápida e, acima de tudo, humanidade.
Não é uma tarefa para laboratórios. É uma escolha de cada um de nós, todos os dias, ao votar, ao consumir, ao cobrar, ao cuidar do quintal e da saúde do vizinho.
O planeta está aquecendo, sim. Mas nosso coração e nossa razão também podem aquecer, no sentido de se mover, de agir, de se antecipar.
Porque, no fim, a maior vacina contra as doenças do amanhã é o conhecimento compartilhado hoje. E a melhor barreira contra o caos é a solidariedade.
Referência
Role of Climate Change on Emerging and Reemerging Infectious Diseases: From Attribution to Action in Global Health Preparedness: Report on an American Academy of Microbiology Colloquium held on Oct. 9 and 10, 2025. Washington (D.C.): American Society for Microbiology; 2026. Acesse aqui.
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