13 Agosto 2026
"Segurar as Sagradas Escrituras em uma mão e um fuzil na outra constitui uma insustentável contradição teológica. O Deus de Jesus Cristo caracteriza-se pela rejeição absoluta da violência das armas e da coerção militar ou estatal. Quando o Evangelho narra a prisão de Jesus e a reação violenta no Getsêmani, sua resposta foi decisiva: "Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão" (Mt 26,52)."
Artigo de Jesús Lozano Pino, missionário e filósofo em formação, publicado por Religión Digital, 11-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O mapa político da região está sendo alterado pela ascensão ao poder do novo presidente da Colômbia. Sua vitória não apenas reconfigura as dinâmicas de poder na América do Sul, mas também reabre um debate ético e teológico urgente: a instrumentalização do Evangelho a serviço de agendas autoritárias. Durante a campanha eleitoral, o presidente transformou em marca registrada de seu discurso um slogan tanto perturbador quanto explícito: a promessa de governar “com a Bíblia em uma mão e o fuzil na outra”, eliminar a chamada “ideologia de gênero” para “trazer a nação de volta a Deus” e colocar a fé divina no centro de cada decisão operacional.
Para compreender a envergadura desse fenômeno, é essencial analisar a trajetória espiritual singular do presidente e o contexto religioso de sua proposta de governo.
Da incredulidade à fé: a virada pessoal e a busca por uma identidade teológica
O perfil do novo presidente revela um detalhe de importância fundamental: durante grande parte de sua vida, ele se declarou abertamente ateu. No entanto, uma crise pessoal decorrente de sua história familiar redefiniu sua postura, levando-o a uma experiência de fé que alteraria radicalmente sua visão de mundo e sua compreensão da política.
Contudo, no âmbito teológico, sua profissão de fé levanta questionamentos fundamentais: a qual Deus se dirige seu discurso? Embora ele se identifique com o cristianismo em termos gerais, sua fé não parece aderir à dogmática ou à tradição viva de uma denominação específica, como o catolicismo ou o protestantismo histórico. Trata-se de um cristianismo à la carte: uma experiência espiritual utilitarista e desvinculada do rigor da tradição das Igrejas.
Sua teologia não nasce do discipulado evangélico ou do diálogo ecumênico, mas sim de uma compreensão individual na qual Deus é instrumentalizado como garantia de ordem, de autoridade e de impunidade moral.
A guinada para o cristianismo de direita: da experiência privada à cruzada pública
O problema ético não reside na conversão pessoal de um cidadão, mas na metamorfose dessa experiência privada em um programa político de extremismo confessional. O presidente adotou o esquema típico do neofundamentalismo de direita: a substituição do debate laico e social por um conflito de caráter espiritual.
Ao querer colocar Deus no centro das decisões do poder executivo, absolutiza-se o poder político: o debate cívico é eliminado. Se as decisões do Estado são apresentadas como sendo "tomadas com Deus", qualquer oposição democrática ou controle institucional é automaticamente rotulado como uma ofensa divina. Mina-se assim o Estado laico; o princípio republicano da laicidade garante a liberdade religiosa para todas as pessoas. A imposição de uma visão particular do cristianismo por parte do chefe de Estado destrói o pluralismo e a paz social.
O sacrilégio do "fuzil e a Bíblia"
Segurar as Sagradas Escrituras em uma mão e um fuzil na outra constitui uma insustentável contradição teológica. O Deus de Jesus Cristo caracteriza-se pela rejeição absoluta da violência das armas e da coerção militar ou estatal. Quando o Evangelho narra a prisão de Jesus e a reação violenta no Getsêmani, sua resposta foi decisiva: "Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão" (Mt 26,52). Associar a Bíblia - cujo núcleo insubstituível é o amor ao inimigo, o perdão e a opção preferencial pelos desfavorecidos - à ameaça das armas não é devoção; é uma profanação ideológica que degrada o Evangelho, transformando-o em instrumento de repressão e controle social.
A armadilha do "inimigo interno" e o álibi antigênero
O discurso que invoca o fuzil e as Escrituras exige um bode expiatório para canalizar os medos coletivos e consolidar sua base eleitoral. A promessa de erradicar a "ideologia de gênero" para "retornar a Deus" funciona como um artifício ideológico para legitimar retrocessos nos direitos humanos e a perseguição de minorias e grupos diversos.
Diante dessa manipulação, a autêntica coerência bíblica desmantela toda tentativa de exclusão, lembrando que o cerne do ministério de Jesus residia precisamente em colocar a dignidade humana no centro, priorizando o acolhimento daqueles marginalizados pela ortodoxia religiosa de sua época; da mesma forma, o supremo mandamento do amor expresso nas Escrituras afirma com absoluta clareza que "quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê" (1 João 4,20). Portanto, buscar um suposto "retorno a Deus" por meio da restrição dos direitos e da estigmatização do próximo acaba destruindo a própria essência da mensagem cristã.
Desarmar a fé para construir a paz
A ascensão ao poder do novo presidente colombiano tendo como base essa plataforma exige um rigoroso discernimento profético. O verdadeiro retorno aos valores do Evangelho na esfera pública não se proclama brandindo fuzis, impondo dogmas ou usando a conversão pessoal como estandarte de coerção. Manifesta-se na construção de uma sociedade justa, na erradicação da pobreza, na consolidação da paz e no respeito incondicional pela dignidade de cada pessoa.
Deus não mora nas trincheiras do militarismo nem nos slogans da coerção; Deus se manifesta na justiça social, na reconciliação e na defesa incondicional da vida.
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