Crise hídrica exige mais ação coletiva. Artigo de Guilherme Karam

Foto: Curdin/Unplash

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13 Agosto 2026

Apesar do avanço da insegurança climática, o Brasil ainda pode, por meio de respostas coletivas, reverter as projeções mais pessimistas.

O artigo é de Guilherme Karam, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, publicado por ((o))eco, 12-08-2026.

Eis o artigo.

Neste ano, a Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que o nosso planeta entrou em um estado de “falência global da água”. Em um cenário de padrões climáticos cada vez mais instáveis, o diagnóstico reforça uma realidade que já se impõe no cotidiano brasileiro.

Em São Paulo, por exemplo, o sistema de represas que abastece a capital e região tem registrado queda contínua nos níveis de armazenamento há três anos. O sistema Cantareira já entrou no segundo semestre operando na faixa de alerta, entre 30% e 40% de volume útil. Diante desse cenário, as agências reguladoras nacional e paulista adotaram um protocolo de escassez hídrica, com medidas graduais, como a redução da pressão nas tubulações e a captação de água da bacia do Rio Paraíba do Sul, que abastece o estado do Rio de Janeiro.

Diante dessa realidade, não é demais reforçar um ponto que aprendemos desde a infância: a água é condição básica para a vida. A segurança hídrica está diretamente ligada à segurança alimentar, com a agricultura despontando como o setor que mais utiliza água – respondendo por cerca de 70% do consumo global, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Nesse contexto, a água também é essencial para a economia e para negócios de quaisquer ramos.

A ameaça da escassez hídrica está além do estado de São Paulo. Bahia, Paraíba, Minas Gerais e Ceará enfrentaram situações emergenciais em 2025. O paradoxo é que o país abriga a maior reserva de água doce do planeta e a maior bacia hidrográfica do mundo – a Bacia Amazônica, com cerca de 7 milhões de quilômetros quadrados, sendo 60% destes em território brasileiro.

Apesar do avanço da insegurança climática, o Brasil ainda pode, por meio de respostas coletivas, reverter as projeções mais pessimistas. Proteger rios, nascentes e outras áreas estratégicas de nossos mananciais passa, necessariamente, pelo cuidado com os solos e com os ecossistemas que sustentam o ciclo da água.

Um estudo conduzido pelo Movimento Viva Água na Bacia do Rio Miringuava, região metropolitana de Curitiba (PR), aponta a relação direta entre a capacidade do solo de reter água e a vazão dos rios. Em períodos de seca, o volume dos cursos d’água em áreas degradadas pode cair até 52%, enquanto, em regiões com alta cobertura de floresta nativa, a redução é muito menor, variando entre 6% e 11%. Outro levantamento inédito no mesmo território revelou que a adoção de projetos de restauração ecológica, em cerca de 70 hectares, passou a gerar um benefício hidrológico estimado em mais de 17 mil metros cúbicos de água recarregada nos aquíferos por ano.

Os dados reforçam a urgência da cooperação multissetorial para a adoção de Soluções Baseadas na Natureza voltadas à proteção de bacias hidrográficas e mananciais estratégicos para o abastecimento público e à recuperação de áreas degradadas. Entre essas soluções estão a restauração de matas ciliares ao longo de rios e nascentes, a recuperação de áreas úmidas que funcionam como “esponjas naturais” no armazenamento de água, a proteção de florestas nativas em regiões de mananciais e a recomposição da vegetação em áreas de recarga de aquíferos – iniciativas capazes de melhorar a infiltração da água no solo, reduzir o assoreamento dos rios e aumentar a resiliência hídrica dos territórios.

A essas iniciativas somam-se práticas agrícolas sustentáveis e o fortalecimento de outras formas de empreendedorismo de impacto socioambiental positivo, fundamentais para conciliar produção, conservação e desenvolvimento econômico.

Estudos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) indicam que trabalhar em parceria com a natureza pode reduzir as emissões globais em até 11,7 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente por ano até 2030 – o que representa mais de 40% do esforço necessário para limitar o aquecimento global.

Como exemplo da força da articulação entre múltiplos atores, o Movimento Viva Água reúne cerca de 50 instituições da sociedade civil, do setor privado e da academia em torno de soluções integradas para a segurança hídrica em quatro bacias hidrográficas estratégicas no Paraná, Rio de Janeiro, divisa de São Paulo com Minas Gerais e Bahia. Juntas, as organizações estabelecem uma visão comum sobre o território, definem projetos prioritários, governança local e fundo filantrópico para a mobilização de recursos.

Na Baía de Guanabara (RJ), por exemplo, uma das instituições participantes do movimento é o Sinal do Vale. O fio condutor de sua atuação é fomentar o desenvolvimento local, aliando o fortalecimento de cadeias produtivas como o turismo de base comunitária e os sistemas agroflorestais, à restauração de florestas e manguezais com espécies nativas e a ações de engajamento e educação ambiental, fortalecendo simultaneamente a economia regenerativa e a conservação do meio ambiente.

Além dos benefícios hídricos, essas soluções geram ganhos climáticos e socioeconômicos relevantes. Os manguezais, por exemplo, estão entre os ecossistemas mais eficientes na captura e no armazenamento de carbono. No Brasil, estima-se que esses ambientes estocam cerca de 1,9 bilhão de toneladas de carbono, segundo o estudo Oceano sem Mistérios: Carbono azul dos manguezais. Além de superarem florestas tropicais terrestres nesse aspecto, os manguezais protegem zonas costeiras, sustentam a pesca artesanal e fortalecem meios de vida locais.

Ao integrar conservação ambiental, adaptação climática e desenvolvimento sustentável, as Soluções Baseadas na Natureza se afirmam como respostas concretas e efetivas economicamente à crise hídrica. Segundo o PNUMA, 86% dos investimentos globais nessa agenda são públicos, enquanto 14% vêm do setor privado. Ampliar a conservação de ecossistemas exige, portanto, ação coletiva, cooperação entre setores e maior engajamento da sociedade, que deveria passar a entendê-la como uma estratégia diretamente ligada à geração de benefícios socioeconômicos, ao bem-estar social e à redução de riscos aos negócios.

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